sexta-feira, junho 20, 2014

Quatro atacantes, dois resultados


Sterling não tem medo de ninguém. Atacante da Inglaterra, nos seus 19 anos, esbanja a impetuosidade que tanto admiramos nos jovens. Mas, sem experiência, desperdiça habilidade e velocidade em jogadas que acabam sendo pouco efetivas.
Rooney surgiu como menino prodígio. Aos 28 anos, participa de sua terceira Copa do Mundo. Nas três edições, fez apenas um golzinho chocho e já tem hora marcada para retornar à Inglaterra. Jogando improvisado como meia, ou em sua posição de origem, no centro do ataque, não fez nada de relevante até hoje em mundiais. Chegou ao Brasil confiante (ou arrogante?) e vai embora levando consigo toda melancolia possível dos dias nublados, de São Paulo ou de todo Reino Unido.
Drogba segue sendo um jogador especial. Dessa vez, sua presença carismática, sua liderança explícita, não foram suficientes para que a Costa do Marfim virasse o jogo contra a Colômbia (que tem um tal de Cuadrado que parece ser exatamente aquele jogador que faz falta ao Brasil, habilidoso nos dribles, eficiente nos passes). Mesmo Drogba siga sem marcar na Copa realizada no Brasil, sua seleção só faz gols quando ele está em campo, ainda que o atacante marfinense não participe das jogadas mais importantes de seu time.
O uruguaio Suárez − que é a cara do poeta Sérgio Vaz − foi operado poucos dias atrás. Enquanto esteve em campo, ninguém se lembrou de sua contusão. Marcou dois golaços de quem sabe jogar, de quem é do ramo, pregou o segundo cravo no caixão inglês e fez a esperança renascer entre os uruguaios.

Suárez, alguns nos fazem lembrar, é descendente de índios e foi punido por denúncias de racismo. Sua eficiência, sua garra, não são suficientes para que nos esqueçamos disso. Bem, seus gols não deveriam ser suficientes para encobrir seu racismo, mas os amantes do futebol, quando se veem diante de dois gols tão bonitos quanto importantes, tão arrebatadores quanto necessários, costumamos perdoar quase tudo. Pelé e suas trapalhadas quando é Edson, Maradona e suas trapaças, Serginho Chulapa e sua truculência, Neymar e sua ostentação, Luis Fabiano e sua violência, Romário e sua futilidade, Balotelli e sua marra, tudo fica escondido atrás de jogadas eficientes, de golaços, da raça e da elegância exibidas em campo. Mais um motivo para, no futuro, olharem para nós, os que amamos o futebol, e nos acharem bárbaros, contraditórios, que admiram ao mesmo tempo o supostamente racista Suárez e o negro magistral Drogba, as jogadas do arrogante Rooney e a rapidez alegre de Sterling. Sei lá, viu…

quarta-feira, junho 18, 2014

Adiós, muchachos!


Dia desses, a respeito do craque santista Giovanni, que jogou no Barcelona nos anos 90, escrevi que técnica sem poesia, é coisa de "operários, maquinistas". A seleção da Espanha dos últimos seis anos foi um time inquestionável; com jogadores habilidosos do calibre de Xavi, Iniesta… e quem mais, mesmo?
O time da Espanha, assim como o do Barcelona, não deixando de lado que o clube pode contar com uma série de jogadores estrangeiros, como Neymar e um tal de Messi, era composto de muitos operários e maquinistas, empenhados, competentes, mas incapazes de fazer algo fora do manual.
Muita gente achou que faltou humildade e sobrou arrogância ao elenco e ao técnico. Pode ser verdade, mas outra coisa muito importante se passou com essa equipe que fez história. Eles acreditam tão apaixonadamente no estilo de jogo que os consagrou, que são simplesmente incapazes de fazer algo diferente quando algo dá errado. A crença quase religiosa no esquema tático consagrado, o tal "tik, taka", foi a razão da glória e do ocaso da Espanha. A derrota de hoje não apaga os méritos das conquistas recentes. Mas será que ficará algum legado?
A geração vitoriosa da Espanha conta com jogadores excepcionais, mas, que me perdoem os especialistas do assunto, não tem um craque. Não tem um cara capaz de fugir do roteiro, de improvisar, de surpreender. No jogo que talvez tenha decretado o fim de uma era, contra o Chile, os espanhóis perdiam chances claras de concluir porque exageravam na troca de passes, até perderem o melhor momento para o arremate, até serem desarmados. Quando tentavam agir de modo mais agudo, enfático, davam chutões da defesa para o ataque, cruzamentos afoitos, uma coisa pavorosa.
O alto nível técnico da Espanha, que encantou ou matou de tédio o mundo, foi eficiente enquanto não foi entendido e absorvido pelos adversários. Encaixotados, marcados sob pressão, a técnica sozinha, que já venceu um Mundial e duas Eurocopas, submergiu. Até que demorou muito.
O Barcelona, o Real Madrid e times medianos e até da segunda divisão espanhola, podem contratar craques. Os clubes espanhóis não formam craques, e a seleção, no máximo, conta com alguns jogadores competentes que se naturalizam por razões profissionais. Não dá tão certo assim, ou porque os expatriados nem são tão competentes assim, ou porque não conseguem se envolver sanguineamente com a seleção de um país que não é o seu. Empatia também pode fazer muita diferença.
O Brasil é desses países que, de vez em quando, vê surgir um craque. Quando consegue associar o treino, a técnica e a arte, quando combina operários, maquinistas e gênios, fica perto da perfeição. Em 2010, Dunga preferiu levar maquinistas, gladiadores, mas desprezou os craques e passou vergonha. Em 2014, a escassez de craques, a má fase de muitos jogadores especiais, levou a uma convocação quase unânime (portanto, perto da burrice), previsível e manjada. Sem buscar algo novo, surpresas, irreverência, temos tudo pra ficar no caminho, assim como já ficou a seleção espanhola.
Deixando saudades ou não, esta geração de competentes jogadores espanhóis se despede. Merecem respeito, entraram pra história, mas deixaram o caminho livre para as seleções que pretendem construir o presente. Vamos aguardar.


segunda-feira, junho 16, 2014

Estrela solitária


Não, não é aquela do distintivo do Botafogo; o time carioca tem muitas glórias. Também não é o planeta Vênus, que nem é estrela e nem brilha sozinha por muito tempo. A estrela solitária é Cristiano Ronaldo, para muitos o melhor jogador do mundo.
Quando atua na seleção de seus país, Cristiano deixa de ser craque. Torna-se um jogador desesperado, desanimado, triste de ver ao seu redor jogadores tão abaixo de seus colegas de clube. Falta empenho, falta ímpeto, falta mesmo, eu diria, amor ao seu país. Cristiano Ronaldo sempre deixa a impressão de que o importante não é defender as cores de Portugal, e sim que ele brilhe, que tenha espaço para demonstrar todo seu inegável talento. E todo mundo sabe que Copa do Mudo não é isso.
Em uma Copa, conta muito o senso de coletividade, um certo apego pátrio, que Cristiano Ronaldo parece não ter. Pior que ele faz o zagueiro equino Pepe. Este, sem apego a Portugal, o brasileiro naturalizado preocupa-se muito mais em demonstrar ao mundo inteiro que é "cabra macho" do que em defender as cores lusitanas. Foi expulso em uma jogada simples, por ter agredido covardemente o adversário com um tapa e, posteriormente, com uma chifrada. Penso que os africanos, ou descendentes de africanos, também não conseguem, por razões óbvias, defender Portugal com aquele senso de coletividade; talvez, interesse mais a eles estar em uma Copa do Mundo do que ver seu próprio time conquistando uma posição de destaque. Portugal carece da globalização e de sua colonização covarde.
Voltemos ao craque Cristiano Ronaldo. Sua postura em campo parece a de um rei em busca de súditos. CR7 é o típico rei menos o reino. Para ele, a seleção que defende não passa de um detalhe, de um grupo formado ao acaso, estruturado para que ele brilhe. Se os demais jogadores não brilham colocando a bola no pé de Cristiano Ronaldo, não servem. É por isso que Cristiano Ronaldo ainda é um excelente jogador… de clubes. Suas atuações de gala na repescagem para a Copa do Mundo não desmentem essa afirmação. Contra a Suécia de outro craque egocêntrico, Ibrahimovic, a disputa foi justamente entre egos, não entre seleções, e o português levou a melhor, por ser o melhor do momento.
Ronaldo não marca, não compõe a defesa, não está n aí para o que acontece no jogo enquanto a bola não chegar aos seus pés. A seleção portuguesa, entre mediana e ruim, não está à altura de seu principal craque e não joga mais motivada por tê-lo no time, exatamente o contrário do que ocorre com a Costa do Marfim em relação a Drogba. Os marfinenses eram um time encaixotado sem o craque africano em campo, e outro, muito melhor, após sua entrada no jogo. Drogba se integra e entrega ao time; Ronaldo, só sabe brilhar sozinho.
Os marfinenses, limitados, podem chegar a algum lugar especial na Copa; Cristiano Ronaldo, preocupado em ser o craque da Copa, tem grandes chances de ir pra casa na primeira leva de derrotados.

Enquanto isso, a seleção alemã segue tranquila, dominando a bola, jogando bonito e fazendo muitos gols. Com muitos jogadores excelentes e apurado senso de grupo, mais uma vez, é candidata ao título.

Copa? NBA!


Futebol demais enjoa?  Não em época de Copa do Mundo, mas nesse domingo, não houve jogo digno de crônica. Suíça e Equador fizeram um joguinho sem encanto algum. A novidade foi a Suíça querendo jogar, buscando vencer, e não apenas defendendo o goleiro com unhas e dentes. Não creio que seja suficiente pra fazer algo de relevante ao longo dessa Copa de tantos gols. A Suíça venceu a limitada seleção do Equador, de virada (a quinta, desde o início do Mundial), mas o Equador é isso: uma seleção limitada.
Já a França, talvez atenta após o vexame do Uruguai diante da Costa Rica, dominou o jogo e fez três gols − quer dizer, Benzema fez três gols, embora o árbitro brasileiro tenha atribuído um gol ao goleiro hondurenho, Valadares. A França fará uma grande Copa? Cedo demais para saber, ainda não foi posta à prova de verdade.
O jogo mais esperado do dia, um dos mais esperados da primeira rodada, foi Argentina e Bósnia. Messi fez um golaço bem ao seu estilo, deu alguns belos passes, mas também ficou de cabeça baixa, prendeu demais a bola, de vez em quando demonstrava desinteresse com a partida. O craque não pode mais reclamar da falta de bons companheiros na seleção. Di Maria é um excelente jogador (mas produziu pouco, é verdade), Agüero é atacante de primeiro nível (mas, pensando bem, também não empolgou). É, Messi continua carecendo de bons companheiros na seleção argentina, mas isso não é desculpa pra não demonstrar interesse pelo jogo e para prender demais a bola. Messi, em um ou dois lances pode decidir qualquer partida, mas precisa se empenhar mais, em vez de ficar esperando esses lances caírem dos céus.
A Bósnia fez uma péssima partida. A quantidade de passes errados, passes simples, demonstrava ansiedade e nervosismo. Ainda assim, segurou a tropicante Argentina e se não fosse pelo gol contra aos dois minutos de jogo, poderia ter se animado mais e ter construído um resultado diferente ao final da partida.
A Copa do Mundo, neste domingo, estava com gosto de ressaca. Por isso, a grande notícia, o grande evento do dia, Foi nos Estados Unidos, na final da NBA. Thiago Splitter tornou-se hoje o primeiro brasileiro a conquistar um título na principal liga profissional norte-americana, com o San Antonio Spurs, que venceu o Miami Heat, time do maior jogador de basquete da atualidade Le Bron James. Os Spurs viraram o jogo com tamanho talento e autoridade, que o último quarto foi praticamente um desfile dos campeões. Splitter, que é reserva e quase foi dispensado, após um final de temporada meia-boca no ano passado, participou muito bem dos jogos das finais, incluindo o jogo de hoje, quando deu assistências importantes e um toco clássico que levantou a torcida.
Splitter nunca foi visto pela torcida como um jogador de ponta, daqueles que decidem uma partida. No Brasil, sempre brilhou pouco na seleção, ofuscado por Nenê, Leandrinho, Varejão e Marcelinho Huertas. No entanto, superação e perseverança parecem ter sido as palavras de ordem para ele nessa temporada. Sabendo qual era o seu papel no time, não decepcionou e colaborou efetivamente para esse título que veio com folga, com os Spurs vencendo quatro partidas e perdendo apenas uma.

As lições do dia? Messi é craque, mas ainda não brilhou tudo que pode; a Suíça mudou seu modo de jogar, mas está longe da excelência; Equador é coadjuvante de segunda classe; Honduras não é Costa Rica; França está na chave ideal para não repetir o fracasso de 2010; Thiago Splitter é campeão da NBA, com humildade, disciplina e superação. Ginobli, Leonard, Park e Duncan jogam pra caramba, não amarelam nem desanimam. Aliás, o argentino Ginobli joga com a mesma competência e empenho nos Spurs e na seleção de seu país. Será que ele não teria algo a ensinar a Messi?

domingo, junho 15, 2014

Personagens do terceiro dia


A Copa do Mundo no Brasil, se ignorarmos tudo ao redor da própria Copa, da FIFA aos superfaturamentos, está uma delícia. Todas as equipes atacam mais do que defendem, muitos gols, já houve quatro viradas, ninguém está vencendo de véspera, tradição e nome não estão definindo as partidas, com uma única e muito interessante exceção: Didier Drogba.
O craque marfinense virou a partida contra o Japão sem participar das jogadas que resultaram nos dois gols que levaram a seleção africana à vitória, de virada, contra o Japão. Drogba é um jogador especial. Sua simples presença em campo deu aos seus companheiros de equipe um ânimo diferente, trocou a aparente apatia por um ímpeto, uma motivação, uma vontade de vencer, que poucas vezes se viu no futebol. Drogba é um líder nato, um general carismático cujo ímpeto de vencer contaminou toda uma seleção e, acredito, todo um país que passou a acreditar na vitória da Costa do Marfim. Belíssimo caso de liderança positiva (ao menos, quando visto de longe, no dia a dia da seleção marfinense, honestamente, não sei como as coisas funcionam).
Outro jogador que mereceu destaque no terceiro dia de Copa foi o volante italiano Andrea Pirlo. Para quem chegou ao Brasil anunciando sua aposentadoria da seleção logo após o mundial, o craque deu um verdadeiro show na estreia da Itália, dominando o meio campo, distribuindo a bola com uma precisão que poucas vezes se vê. Pirlo ditou o ritmo de sua equipe, que seguiu seguro, apesar das investidas rápidas da Inglaterra, que teve em jogadores jovens, iniciantes, suas melhores jogadas. Sterling, aos 19 anos e estreando em jogos oficiais pela seleção, jogou sem sentir peso algum, solto, leve, assim como Sturridge, que marcou um belo gol.
Agora, o maior destaque do Dia foi o atacante da desprestigiada Costa Rica, considerada previamente o saco de pancadas da Copa, por estar em uma chave com três campeões mundiais. Pois o saco de pancadas venceu, de virada, a seleção uruguaia, bi-campeã mundial, que conta com Cavani, para mim um dos principais jogadores do futebol mundial. E Campbell, um jovem atacante de 21 anos, jogou solto, como se estivesse em uma pelada com amigos de infância. Campbell não é nenhum craque, ao menos não ainda. Não tem o histórico ou a competência de Pirlo, a experiência de Cavani, mas gosta do que faz, e faz bem. Não se intimidou com os adversários, com a torcida, com o peso de estar jogando uma Copa do Mundo, por estar sendo assistido por, quiçá, bilhões de pessoas, não se retraiu depois do gol marcado pelo Uruguai. Chegou lá e jogou, participou dos gols, quase fez um golaço e tomou a maior rasteira da história das copas, de um jogador que nitidamente não foi competente para vencer e não teve dignidade para perder, um tal de Max Pereira. E a Costa Rica venceu por 3 a 1, de virada. Vale ressaltar que aparentemente, nenhum dos dois times tinha um padrão definido, jogavam na base do "bumba meu boi", toca em quem tá livre, em quem tá mais perto, pra ver o que acontece.
Campbell nos deu a lição do dia: tantas vezes, a adversidades que enfrentamos são bem menores do que todos nos fazem crer. Quem tiver alguma coisa para fazer, que vá lá e faça. Simples assim.

Ah, sim, faltou falar de Colômbia e Grécia. Jogo sem atrativos, a não ser pela constatação de que a Grécia abandonou a defesa covarde pra tentar jogas futebol. Levou três gols e não marcou nenhum.   

sábado, junho 14, 2014

Sem dó


A Espanha não merece misericórdia. Ela fez mal ao futebol em seu período de hegemonia, com seus toques de lado, com seu poder financeiro, com seus narizes empinados.
A Espanha não merece compaixão. Tem em seu time jogadores de fato muito competentes, mas jamais cravou um craque, desses que entram para a história pelas suas jogadas geniais. Uma seleção competente, vencedora, mas sem a menor poesia correndo entre as pernas dos jogadores.
A Espanha merece respeito. Duas Eurocopas consecutivas, uma vencendo a Alemanha, outra trucidando a Itália. E uma Copa do Mundo no meio.
A Espanha exige cuidado. Perdeu a primeira partida da Copa de 2010 para um time sem expressão, a pálida Suíça. E despachou Alemanha e Holanda nas partidas finais.
A Espanha não tem simpatia. Vem perdendo e empatando, mas sempre afirmando que não pretende mudar o modo de jogar, pois são campeões etc.
A Espanha não tem futuro. Seu time envelhecido, seus craques manjados, suas jogadas desbotadas. Uma seleção vitoriosa que, tudo indica, não deixa legado.
A Espanha não tem medo. Se pegarem o Brasil nas oitavas, entrarão em campo de cabeça erguida, tentando impor seu presente sobre o passado glorioso da seleção canarinho. E tudo poderá acontecer.

O que resta a qualquer time que enfrentar os espanhóis é encará-la sem dó. Eles estão velhos, cansados, até previsíveis. E se não projetam esperança no futuro, já fazem parte da história. 

Tamanco holandês


A Copa do Mundo é um evento especial, sim. Sei que enquanto nossa paixão nos guia diante de belas jogadas e erros crassos de jogadores e árbitros, enquanto o timeco espanhol − sempre achei essa seleção chata pra caramba, os campeões do um a zero, só na final da Eurocopa de 2012 fizeram alguma coisa interessante − leva um chocolate da laranja embalada em papel azul, coisas tristes acontecem, tipo o Aécio perseguindo desafetos, endinheirados arrotando grosserias contra a presidenta, e casos corriqueiros de corrupção em todas as esferas da vida pública brasileiras, fora as filas, o transporte público ridículo, os remédios em falta pelos postos de saúde e o meu ridículo salário de professor. Mas a Copa, nos encanta e nos dá lições.
A Espanha era a atual campeã do mundo. Dona de um jogo chato, seleção que levou o último título mundial sem apresentar um futebol vistoso, de um a zero a um a zero, tendo inclusive perdido na estreia para uma insossa Suíça. É possível que a Espanha seja o time mais antipático, mais arrogante e menos encantador de todas as Copas. A Itália ganhou títulos sem brilho, mas sempre me pareceu consciente de suas limitações, sempre levou suas vitórias como um ato de superação; já a Espanha sempre acreditou em sua competência, em sua superioridade, em sua maestria. Esqueceram que o supertime do Barcelona, se tinha uma série de jogadores que não são espanhóis, como Messi, Maxwell, Daniel Alves, Alexis Sanchéz, e antes teve Ronaldinho Gaúcho, antes ainda Rivaldo, Giovanni, Ronaldo Fenômeno; o Real Madri também sempre foi uma constelação de jogadores do mundo todo.
E a Holanda, tri-vice, chegou com uma seleção meio assim, desacreditada, mais ou menos, e simplesmente humilhou os atuais campeões, os que afirmaram cheio de empáfia, que "não deveriam mudar seu estilo de jogo" por serem campeões do mundo, europeus etc.
Os espanhóis entraram em campo calçando tamancas. Tomaram cinco tropicadas. E a Copa do Mundo no Brasil assistiu à sua primeira partida histórica.

Esta Copa está mesmo muito legal!

sexta-feira, junho 13, 2014

A FIFA, essa atrasada


E ontem a Copa do Mundo no Brasil teve início. A abertura, sem novidade alguma, foi de um tédio tremendo. As águas e ritmos brasileiros não empolgaram nem o maior ufanista de nossa flora, nossos rios, nossa cultura. Tudo um imenso clichê. Ficou também que a impressão de que os gastos astronômicos para a construção dos estádios foi compensado com a economia de participantes nas danças e performances da abertura. Compartilho um termo usado pelo jornalista Juca Kfouri: tudo muito "borocochô".
Eu, particularmente, gostei da cerimônia de abertura porque ela teve o mérito de ser curta. Não gostei da performance do tão falado exoesqueleto do cientista NIcolelis. Fiquei sem saber ser foi a transmissão que não soube valorizar o momento ou se o chute dado pelo usuário do equipamento (que prometia fazer um paraplégico andar e chutar um bola em direção ao gol) foi propositalmente escondido, por não causar  impacto divulgado.
A música da abertura é muito fraca, não empolga, por mais que Jenifer Lopez e Claudia Leitte rebolassem. Os envolvidos na composição, me pareceu, não entendem nada de futebol e da paixão que ele desperta.
Aí, o jogo. Enquanto a seleção brasileira se preparava para entrar, com muitos jogadores com os olhos marejados, fiquei preocupado. Não era hora de se emocionar, mas de concentração total, direta, plena. O hino nacional entoado para além do padrão FIFA (essa chata), foi muito legal, mas, sem ser novidade, perdeu em simpatia. Fiquei preocupado com as pernas bambas dos jogadores e sabia que a Croácia não é um time qualquer.
Aí o jogo de verdade. Boa parte da crônica esportiva afirmou que a seleção jogou mal. Discordo. Jogou bem. Buscou atacar, não se intimidou nem com a lambança defensiva que resultou em um gol contra do Marcelo. O pênalti que não houve (para alguns prova cabal de que o campeonato inteiro está comprado pelo Brasil),deu uma manchada no resultado final, mas acho (talvez por inocência) que aquilo foi um erro do juiz, não um golpe de má-fé.
Oscar, desde o começo, me surpreendeu pela consistência, Paulinho me decepcionou, parecia que estava fora de ritmo, Daniel Alves pretende se impor como jogador do Barcelona em vez de jogar futebol. Fred não apareceu, mas acredito que o jogo deve ser nele, o cara faz gol até deitado, até de quadril. Hulk, imagino, sentiu a estreia, participou pouco e mal.
Neymar foi bem, estava a fim de jogar, não amarelou. Luiz Gustavo idem, os zagueiros (melhor defesa do mundo?) não foram tão seguros.
Foi uma boa partida de estreia, prenúncio de boas partidas por aí. Quem parece preferir estragar, diminuir os espaços para empolgação é a FIFA, com suas padronizações, seu esquematismo, sua aculturação. Temos um time e temos vontade de vencer, o que não é suficiente para ir mos muito longe, mas nos dá um certo orgulho ao vermos aqueles jogadores se dedicando. Hernanes e Ramires têm boas chances de cavarem um espaço como titulares ao longo da Copa, Paulinho, antes incontestável, ou acorda ou cede a vez.
Emoções maiores nos esperam, certamente. Isso, se a FIFA, essa atrasada, não atrapalhar.


quarta-feira, junho 11, 2014

Enfim, vai ter Copa


Se no futuro, por algum entediado e infeliz acaso, alguém vier a ler este texto, pensará em nosso primitivismo. Sim, a FIFA e a sua cartolagem "esgota" que escorre da Suíça para os campos mais remotos do globo terrestre, no Burundi e em Roraima, em Wembley e no Mané Garrincha, vai fazendo o esporte bretão perder o charme, ficar chato e arrogante. Não fossem Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo, Di Maria, Fred, Pedro, Van Persie e tantos outros donos da bola, a própria bola já estaria perdida.
Amo futebol.
E, como eu dizia, é possível que a linha evolutiva da humanidade um dia torne esse amo sem sentido, como ficou sem sentido as críticas do gênio das letras Graciliano Ramos sobre o futebol. Ele preferia  rasteira, nosso verdadeiro esporte nacional. As multinacionais da indústria de material esportivo, as vorazes empresas da mídia, podem, em tempos de crítica aguda, matar o amor em geral. E a linha evolutiva da humanidade, repito, pode considerar nosso amor por um esporte como o futebol até mesmo um desvio de caráter. Se a humanidade melhorar, senhoras e senhores, é possível que o futebol, junto com nossa gana de vencer e de superar os adversários, desapareça.
Mas estamos no presente. E quando falamos de futebol, também falamos em tradição, em versos como estes, do hino do maior time da história: "Dando o sangue com amor/
Pela bandeira que ensina/Lutar com fé e com ardor".
O presente é do futebol, é da Copa do Mundo, apesar da FIFA, organização que lembra em alguns momentos alguns filmes de gângster, dado o altíssimo volume de dinheiro que movimenta (nem sempre declarado), dada a permanência quase milenar de seus dirigentes, dado o desprezo com que costuma lidar com tudo que não seja seus próprios interesses.
Amo o futebol porque ele entrou pelos meus poros quando eu tinha apenas seis anos de idade e aprendi que o melhor nem sempre vence e que a vida é isso aí, hoje beija, amanhã não beija. Foi quando vi a seleção brasileira perder para a italiana na Copa da Espanha, em 1982. Aquela derrota, mas, acima de tudo, aquele time, definiu algumas coisas em minha vida, muito antes de qualquer opção política, muito antes de saber quem era Machado de Assis. Aquele time, inclusive, foi a minha primeira musa, para quem escrevi dramas nos quais ele se saía vencedor. De Eder a Zico, de Júnior a Leandro, de Falcão a Sócrates, de Cerezo a Telê, tudo era talento, e aquela derrota, para meus padrões de garoto urbanos e telespectador contumaz, só perdia em importância para a possível morte do Ultraman.
O Ultraman ficou escondido em alguma esquina imaginária de Tóquio, em alguma galáxia não catalogada, e o futebol me acompanhou vida adentro. Quando é bem jogado de fato, o futebol me arrebata. Ópio do povo? As catárticas tragédias gregas também o eram (aliás, a cabeçada de Zidane na final de 2006 vale toda a obra de Sófocles), as óperas, os contos machadianos, a voz definitiva de Cássia Eller, a intensidade das pinceladas de Dalí, a antológica série de TV The Following, tudo opiáceo, tudo fundamental. Todos precisamos de um pouco de vertigem, todos precisamos de poesia, precisamos escapar, precisamos de paixão, e cada um tem o ópio que consegue.
Também precisamos de comunhão, e o futebol tem a magia de reunir inclusive adversários − desde que não sejam descerebrados − em torno da TV, em torno de um mesmo jogo. Em momentos específicos, ficamos todos do mesmo lado, espanamos o mofo de nosso orgulho patriótico e vamos torcer, fazer churrasco, discutir tática como se fôssemos do ramo, relembrar craques do passado, lamentar a falta de amor à camisa, nos alegrar ou consolar mutuamente; vamos, pagando o preço de usarmos os mesmos clichês a cada quatro anos, sentir que somos povo.
Tempos atrás nos informaram que ufanismo em excesso e fora de lugar pode nos alienar. Nos dias de hoje, curiosamente, os mais alienados são os que mais berram contra a alienação. O fenômeno é curioso, mas comum: quando o assunto é educação, por exemplo, os mais preocupados em denunciar as mazelas de nosso ensino são, sem o saber, suas maiores vítimas, enquanto que os menos atingidos pela avalanche de "intoxicação escolar" são os mais conscientes do próprio prejuízo (e acabam sendo os que mais estudam, se preparam e superam adversidades), assim como aqueles que têm reclamado da "burrice do povo" são os que mais repetem clichês rasos, os que mais reclamam da corrupção são os que mais praticam o "jeitinho" e assim por diante. A Copa do Mundo que começa agora virou a grande culpada de todas as mazelas nacionais, a Geni do momento, o foco da fúria contra o nosso subdesenvolvimento.
Ficamos 64 anos sem sediar uma Copa do Mundo. Neste intervalo, bem sabemos, a educação cambaleou, sem conseguir se firmar; a saúde nunca se destacou positivamente no cenário mundial; governos estaduais e prefeituras investiram em habitação e transporte público muito menos do que suas obrigações exigiam, e o hábito de tirar vantagem em detrimento da lei, do próximo ou da sociedade grassou bestialmente em todas latitudes e longitudes da sociedade. Além disso, durante boa parte desse tempo, a alienação esteve em nosso meio dos mais variados modos, seja pelas telenovelas, pelas canções populares estilo chiclete, seja pela apatia ou pelos anos de ditadura que nos ensinaram a não nos preocuparmos com assuntos profundos, pois a junta ditatorial, digo militar, se encarregaria de cuidar do país, fazendo, inclusive, com que muitas pessoas pensem até hoje que naqueles tempos "olivais" não havia corrupção ou incompetência administrativa, afinal de contas, o que não é documentado, o que não passa na tevê, não existe.
Mas eu falava do futebol. Amo futebol e não pretendo que me estraguem a festa que será − torçamos para que seja − a Copa do Mundo no Brasil. Torcer para que as coisas deem errado para assistirmos de forma canibalesca ao constrangimento dos governantes não é consciência política, é cretinice, pois revela não apenas nosso instinto de hiena, mas nossa preguiça política, nosso espírito público de porco, nosso complexo de vira-lata, enfim.
Os tubarões já encheram suas burras de dinheiro licito, mas moralmente questionável, e de superfaturamentos exorbitantes além da clássica  roubalheira, mesmo. Isso é uma vergonha e não deve ser letra morta após a competição. A infraestrutura que nos prometeram junto com a Copa não veio, não virá mais. Seria muito mais prático e cívico exigir, pressionar para que as contas sejam levadas a público e os gastos abusivos sejam ressarcidos ou reinvestidos de modo mais útil para a população. Será inteligente cobrar que culpados sejam presos, com ou sem Copa, será lúcido continuar se manifestando independentemente do governo que estiver no poder − e os governos são cada vez mais parecidos em uma série de coisas.
De novo, quero falar de futebol. Ele não está acima de tudo, não aceito todos os meios para que ele seja o centro das atenções; a FIFA é uma instituição indiferente a tudo que não sejam os seus interesses financeiros e se pudesse extinguiria até mesmo o futebol − mas não a Copa, enquanto ela der lucro. Contudo, não nos esqueçamos: nossa seleção tem Neymar; Cristiano Ronaldo tem capacidade para vencer sozinho uma Copa do Mundo; os argentinos têm Messi, Di Maria e uma vontade incontrolável de estragar a festa brasileira; a França nos faz de seu eterno freguês e Bezema parece estar voando; a Espanha, via Barcelona, já nos humilhou no passado recente e tem um time técnico e competente; a Itália quer alcançar o penta; o Uruguai é a única seleção que já venceu um título mundial em solo brasileiro e a Alemanha dispensa comentários e não precisa de motivações extras para ser favorita a algum título. Tudo isso não vale um leito a menos no hospital, mas vale a nossa catarse, a nossa comunhão, o nosso ópio. Como diria o compositor popular, a Copa também é uma forma de nos vingarmos de toda desgraça da vida. Vale, como diria o locutor, "a nossa torcida".
Temos que adquirir o hábito de cobrar do poder público a aquilo que temos por direito por pagarmos nossos impostos, por sermos cidadãos, seres humanos. Isso precisa ocorrer sempre, e não somente agora. Falar que professor é um herói precisa deixar de ser clichê, exigir que os governos se empenhem em resolver o problema de moradia é ir além da mercantilização do mundo, cobrar transporte público de qualidade e barato precisa ser uma bandeira de todos, inclusive dos que hoje não fazem uso desse transporte. A Copa pode ser uma vitrine para essas reivindicações, mas também é uma Copa do Mundo, um evento que aguardamos durante quatro anos, algo que faz parte de nossa cultura, de nossa formação, de nossas paixões (e se a FIFA não lidasse com uma paixão tão arrebatadora quanto o futebol, já estaria falida). Vamos torcer, vamos curtir, não como tolos alienados, intoxicados pelo tal ópio do povo; vamos também protestar e exigir o que é nosso, sem nos esquecermos que o futebol, ainda que esteja nas mãos de gângsteres, é mais nosso do que deles. Vamos burlar as leis imbecis e ditatoriais da FIFA sobre acarajés e festas juninas e vamos celebrar, quer o Brasil vença quer tropece pelo caminho.  Vamos aproveitar os feriados para celebrar não apenas o futebol, mas o renascimento da consciência do povo e a bênção de estarmos ao lado de quem amamos. E vamos comemorar cada gol, sim, vamos ficar tensos a cada partida difícil, sim, vamos curtir as partidas de outras seleções também. Só não vale achar que uma Copa vale uma vida, vale o descaso das filas, vale a indiferença dos governantes, especialmente aqueles que têm procurado manipular o povo contra ou pela Copa.

No futuro, seja pela guerra, seja pelo amor espalhado entre os povos, a Copa não fará ais o menor sentido. Mas agora, ah, como ela é importante.

quinta-feira, maio 08, 2014

Só monstros caçam bruxas

Não há o que ser dito. Não é justo colocar na conta da Sheherazade, do Datena, do Rezende, do Ratinho, do Azevedo, do Mainardi, do Pondé, do Olavo. Todos eles são meros espelhos, com algum verniz de hipocrisia, que nos refletem.
Nossos espelhos precisam de filtros porque não suportamos nos ver crus e nus. No fundo, sabemos que somos deploráveis, mesquinhos, racistas, egoístas, violentos. No fundo, percebemos, farejamos a própria fragilidade. Por isso tentamos a todo custo escondê-la sob a cor da pele, dentro de uma roupa de grife, no porta-luvas de um carro de luxo. Tentamos sufocá-la no meio dos "livros cultos" que lemos, a emplastamos em uma sabedoria rasa e ralé, a emperequetamos com maquiagens, plásticas, tinturas. Nos embotamos de mentiras históricas, nos banhamos na lógica fascista do mercado espremedor de talentos, vontades e identidades. Vendemos barato nossa pouca polpa e logo viramos bagaço.
Talvez nem haja o que fazer. Não deve ser culpa da desinformação; esta grassava nos tempos medievais, nas catacumbas da antiguidade, na superstição dos ingênuos. Embora haja muito papagaio repetidor, tem muto monstro letrado e encanudado por aí. A direita, a esquerda, a internet, a fragilidade da democracia, os coturnos ensanguentados das ditaduras, tudo não passa de pretexto. Tudo que existe é ódio. E medo.
Quando crescem demais, o ódio e o medo se tornam autônomos: se retroalimentam, se impõem e precisam apenas explodir, saciar a própria fúria, à custa de qualquer motivo, de qualquer pretexto. Caçadores de diferenças, mesmo que mínimas ou fruto de mero delírio. Caçadores de bruxas - agora, literalmente.
Como disse Sergio Vaz, "voltamos à época medieval porque temos medo do futuro". Mas da Idade Média só buscamos o medo irracional, o ódio disfarçado de conhecimento, a histeria coletiva. Já o futuro, se não for muito bom pra mim, se não reservar um lugar especial para os meus, não serve, melhor voltar, para as trevas, já que a luz expõe meu caráter minúsculo. Deixamos pra trás qualquer rastro de bom-senso, de conhecimento. Cansamos de fingir que evoluímos, talhamos o próprio ventre para exibir nossas tripas. Para essa geração, voltar à Idade da Pedra vai ser a maior conquista.

quarta-feira, março 05, 2014

Dois filmes que doem: Baixio das bestas e Amor


No espaço de uma semana, pelo acaso da programação da TV, somado às opções do Netflix,  assisti a dois filmes pontudos feito verrumas, nenhum deles lançamento: o brasileiro Baixio das bestas e o francês Amor. Dois filmes que, para usar expressão do responsável pelo primeiro, Claudio Assis, foram feitos porque "doeu".
De fato, a experiência distinta que cada uma das obras nos proporciona é de dor: o primeiro, Baixio das bestas, explicita uma dor que vem de fora, do outro, imposta por uma organização social, por uma miséria humana compartilhada a socos, tiros e estupros, que estraçalha qualquer brisa de respeito ao próximo e a si mesmo; já o segundo, Amor, lida com uma dor que vem de dentro, fruto da própria decomposição natural do corpo, que nos segue desde o nascimento, mas acelera-se visivelmente nos últimos anos da velhice.
A impressão que temos é de que os dois filmes lidam com tragédias inevitáveis, que podemos, no máximo, aplacar, na direção do fim inevitável de qualquer pessoa: a solidão, a morte, o sofrimento brutal, a violência que supera qualquer padrão de normalidade. As duas "histórias" − confesso que fico pouco confortável para chamar o que vemos em Baixio de "história"; creio que esteja mais para "fragmentos de um discurso grotesco" − trazem em comum, mais do que a exposição de chagas profundas, um embate sobre a dignidade. Dignidade é algo que cada um de nós luta diariamente para conquistar, para manter, na maior parte das vezes com a ilusão de que ela dependa apenas de nosso esforço, de nosso comportamento, de nossos cuidados pessoais. Infelizmente, dignidade é algo que só existe em relação ao outro, na forma como escolhem nos ver e tratar, baseada em nossos também vagos e subjetivos atributos pessoais, em nossos bens materiais e conceituais ou, como acontece tantas vezes, nos valores e interesses do outro e como nos encaixamos nesses determinados valores.
A esse respeito, percebemos, especialmente em Amor, que dignidade é, no máximo, uma ilusão social, uma quimera, ou, caso exista, um simples fruto do acaso. Já no Baixio, o que nos agride é o exercício tão desmistificador quanto em Amor que nos faz pensar que a dignidade simplesmente não existe e que onde houver qualquer tipo de relação de poder, haverá violência, ou pelo menos o terreno estará mais do que preparado para que a violência exploda.
Baixio das bestas e Amor são dois filmes de alta corrente elétrica, que provocam choques daqueles que queimam a carne, deixam cicatrizes. Por isso sequer recomendo a todos que os assistam, especialmente o primeiro, pois há choques que em vez de ressuscitar, levam a óbito. Já o segundo pode ser visto por quase todo mundo, especialmente pelos que têm medo da morte e da velhice, não necessariamente nessa ordem, mas deve ser evitado por quem viu recentemente algum ente querido perder a batalha contra o tempo − a realidade pode ser ainda mais cruel que a arte. Contudo, Amor dá um novo significado à ideia de "até que a mote os separe", muito mais profundo, verdadeiro e bonito. Ao assisti-lo, lembre-se de que o amor não elimina o desespero. Desespero vomitado em Baixio das bestas sobre a barbárie que nos assola, mas que ao longo de nossa existência preferimos, no máximo, estetizar. Lembre-se de que Claudio Assis é o cineasta da "antiestética", crudelíssimo, e, por isso mesmo, nos mantêm sempre à flor da pele.
A bíblia fala em mortificar a carne para salvar o espírito. Mortificar o espírito, que em geral anda tão dopado pelos absurdos transformados em espetáculo ao nosso redor, pode nos devolver a humanidade.




segunda-feira, dezembro 16, 2013

Natal

Da presepada ao presépio

Natal é irmão gêmeo da guerra
"Gera empregos, aumenta a produção"
É antitrégua
Corrida vazia, altar da mercadoria
Natal é gula e fartura
Sede evidente de cada vez mais gordura
Queima gasolina em uma pressa sem cura
Natal é festa de máscaras e maquiagem
Protocolos de alegrias com data e hora marcada
Concentra nas ceias pílulas de solidão
Natal é festa pagã
Presépios de feltro e fezes
Adornam toda tristeza
"Num mundo de sonho e magia"

Dentro dos corações de luto
Sobre as almas castigadas
No estábulo fedorento
Na manjedoura abandonada
Entre todos os venenos
Onde abunda ou falta dinheiro
Quem sabe onde anda esse Cristo, o menino
O que ele nos dá, entregue, frágil, desde sempre sozinho
Por que veio até nós, nossos próprios deuses
O que fizemos dele, da própria glória o despimos
De onde vem sua fé em nós, pecadores contínuos?

O que faz desse menino o Cristo
É ver em cada um de nós
O bebê da manjedoura, desprotegido
Nu, com frio e sozinho
Visitado por animais
E pastores esquecidos
Ao lado dos pais, igualmente perdidos

O que faz desse menino o Cristo
É derramar sobre a humanidade

Um amor que a tudo torna um pouco divino.

domingo, dezembro 08, 2013

Mandela


A lição que ninguém aprendeu

Talvez surjam pessoas dizendo que Nelson Mandela (1918-2013) não foi nenhum pacifista, que sob seu comando a África do Sul caiu em uma crise econômica profunda, que seu esforço para superar o apartheid não passou de uma estratégia para atrair investidores e nada mais. Lembrarão de seu passado (a partir de agora, tudo que falarem de Mandela será passado?) de guerrilheiro, falarão de sua amizade "suspeita" com Fidel Castro e outros ditadores.
Mas a verdade é que bem antes de morrer Mandela já virara um ícone, uma unanimidade. Mais provável mesmo é que Mandela seja decididamente uma unanimidade e, como acontece com as unanimidades, muitas vezes mal-interpretado.
O maior legado de Mandela, ao seu país e ao mundo, foi a lição suprema do perdão. Lição difícil, aprendida e acalentada durante 27 anos de prisão, sob trabalhos forçados. O maior crime cometido por Mandela, e por tantos outros daquele país, não foram atos de terrorismo, não foi a corrupção, não foi sequestro seguido de morte, tráfico de drogas ou de influência: foi não aceitar um sistema político que separava o povo entre brancos privilegiados e negros excluídos, foi acreditar na igualdade, foi lutar pelos seus pares.
No Brasil, não é fácil para nós entender o que foi o apartheid, pois por aqui o racismo é velado e cínico. Mesmo assim, a imensa maioria vê Mandela como herói. Muitos lamentaram e lamentarão sua morte, no entanto, poucos seguirão seu ensinamento. Perdão é palavra fora de moda, o que é bem compreensível, pois o excesso de impunidade sufoca as possibilidades para o perdão. Quando criminosos e malfeitores riem da nossa cara, falar em perdão vira afronta. O que as pessoas querem, o tempo todo, nas formas mais violentas e degradantes possíveis, é a vingança.
Mas o perdão não é apenas um ato de nobreza e abnegação. Não é um atestado de santidade ou fraqueza. O perdão pode ser uma estratégia política, pode ser um passo importante para uma sociedade construir um futuro mais próspero, livre de revanchismo. Enquanto Mandela buscou o diálogo com quem o prendeu e humilhou, impediu que o rancor se tornasse política de estado, ainda que tivesse todos os motivos para devolver aos defensores e beneficiários do apartheid ao menos um pouco do sofrimento que essa política repugnante impôs à maioria negra sul-africana.

É pena que atualmente, ao menos no Brasil, perdão seja uma ideia sem sentido, é lamentável que após tantos anos de impunidade, perdão seja quase sinônimo de injustiça, e que justiça se confunda com vingança. Mandela entrará para a história como um homem admirável − até quando, não sabemos − mas a sua maior lição ainda não foi aprendida.

terça-feira, novembro 26, 2013

"Branquelo azedo":


A diferença entre racismo e mimimi
A cena mais forte já produzida pelo cinema brasileiro − é bom começar com afirmações definitivas, nos fazem sentir importante e sábio, a despeito de toda nossa ignorância sobre o assunto em questão − está no filme Ó paí, ó, de Monique Gardenberg. Uma das maravilhas da internet, especialmente para escritores preguiçosos, apressados ou incapazes de fazer uma boa descrição − sou muito de tudo isso − é que ela pode nos dispensar do sacrifício e nos permite mostrar direto aquilo de que estamos falando. É disso que estou falando:

A cena emociona pela dissecação do que é racismo de verdade: o fato de alguém julgar a si mesmo superior aos que são diferentes dele, seja pela cor, seja por alguma outra marca étnica, que pode variar de nuances no tom da pele até o tamanho do nariz, a largura da testa etc. Quando o racismo despenca na cabeça de alguém, demonstra-se completamente covarde, por transformar característica em defeito e impedir a vítima de qualquer defesa que não soe ridícula, como as tentativas de clareamento da pele, as técnicas de estiramento de fios capilares, as lentes de contato coloridas: tudo isso, quando feito não por uma simples questão pessoal estética, mas para tentar apagar as marcas de quem a pessoa é −ninguém pode ser definido apenas pela etnia; contudo, renegar a própria origem e herança cultural e genética é um modo triste de autoamputação.
Racismo não é apenas colocar um "apelido" em alguém. É, entre muitas outras coisas, manipular a história e a ciência para rebaixar o outro e dar a si mesmo um lugar de honra. "Explicitar" a inferioridade dos outros é a desculpa quase perfeita para justificar desmandos, injustiças, para "legitimar" genocídios e toda sorte de atrocidade.
Mas é fácil perceber que o racismo é mais eficiente quando a própria vítima do preconceito o introjeta e passa a viver pautado pela própria discriminação que recebe como sendo algo natural. Dá bem mais certo e é bem mais econômico do que a guerra, além de confundir bem mais as pessoas em geral.
Desde criança ouço duas afirmações sobre racismo que sempre considerei, para ser franco, abjetas. A primeira delas acerta na afirmação, mas esconde uma sordidez absurda: "não é só o negro que sofre preconceito". É claro que não é só o negro que sofre preconceito. Mulheres, indígenas, ciganos, evangélicos, judeus, católicos, umbandistas, homossexuais, espíritas, capoeiristas, sambistas, policiais, professores, literatos, mestres de obras, serventes de pedreiro, encanadores, garis, funcionários públicos, nordestinos, gaúchos, imigrantes, brasileiros em geral, analfabetos, pobres etc., todos são vítimas em potencial de ações discriminatórias. Até aí, e daí? O problema é quando a pessoa que traz essa constatação brilhante à tona, a de que não é só o negro que sofre preconceito, usa exemplos que normalmente carecem de reflexão mais profunda.
Acabo de ler, por exemplo, a "observação" de que, se em uma briga de trânsito, um negro for xingado de macaco e retrucar ao seu oponente branco o chamando de "branquelo azedo", os dois incorreram em racismo. É fato que ambos foram grosseiros e que tiveram atitudes reprováveis. É fato que cada um dos agressores, ao se sentir ofendido em sua honra pode buscar, amparado na lei, a reparação que julgar proporcional à injúria sofrida. Mas também é fato que o peso da ofensa é maior na medida em que ela acompanha uma série de práticas históricas na sociedade que discriminam, humilham, e separam as pessoas em "castas". Chamar alguém de macaco, é dar a ele características de um animal irracional incapaz de pensamentos elaborados, muitas vezes dócil e fácil de domesticar. É dizer ao injuriado que ele é inferior e deve se colocar em seu lugar de "quase coisa", é afirmar que o "macaco" em questão até pode ser aceito na sociedade, desde que saiba se comportar, não pretenda estar no mesmo nível dos seres "plenamente humanos" e respeite os "superiores".
Aquilo que parecia ser apenas um "xingamento em momento de fúria", algo grosseiro, mas inocente, revela toda uma visão de mundo compartilhada surdamente por boa parte da sociedade. Já, chamar alguém de "branquelo azedo", é sim, uma grosseria enorme e igualmente imperdoável, mas o peso histórico desse xingamento não envolve escravidão, violência policial, discriminação no mercado de trabalho. O branquelo azedo é menos parado pela polícia, é representado positivamente na mídia, geralmente não é discriminado no mercado de trabalho.
Já vi brancos serem hostilizados em grupos de negros. Já vi, por exemplo, cantores brancos extremamente competentes serem humilhados em corais onde predominavam cantores negros, com piadinhas de péssimo gosto, com o cantor branco sendo ignorado e repreendido a todo instante. Naquele caso, os negros se julgavam superiores ao branco, negando a ele condições de exercer, no caso a sua arte. Já vi nas poucas quadras públicas onde é possível jogar basquete brancos e mestiços "desbotados" − como eu − serem hostilizados e até proibidos de jogar, fora terem de ouvir "gracejos" racistas a todo instante. Foram situações grotescas, absurdas, que merecem repúdio. Mas não podem ser comparadas em alcance e número de ocorrências com o racismo que ocorre contra negros ou qualquer um que não seja branco, ainda que azedo. Não pretendo discutir aqui se a postura dos membros do coral ou dos "basqueteiros" foi uma espécie de resposta histórica às discriminações e abusos contra negros, nem que, sendo eles ainda discriminados em boa parte da sociedade, ali seria um dos poucos ambientes onde seus talentos e culturas poderiam ser devidamente valorizados. Não creio que todos os atos de todas as pessoas são conscientemente políticos, ideológicos ou contestadores; também não credito que o erro de lá é o salvo-conduto de cá: nesses casos, houve sim, a despeito de qual teria sido a intenção dos envolvidos, preconceito racial, que pode ter acarretado problemas emocionais significativos aos que não conseguiram lidar de forma saudável com a discriminação que sofreram. Agora, daí a querer colocar na mesma balança as consequências do racismo histórico e com a conivência de tanta gente importante, com o xingamento covarde feito em uma briga de trânsito já é demais. Querer equiparar a grosseria racista com as discriminações praticadas no trabalho, na mídia, nas escolas é um disparate. Ignorar que durante anos os negros foram retratados ou como escravos, ou como marginais, ou como serviçais, o que só reforça o imaginário popular de que eles são mesmo inferiores do ponto de vista intelectual, fazendo sucesso apenas em áreas restritas da música e dos esportes, é hipocrisia. Rotular o negro que ao se sentir ofendido ou injustiçado de "coitadinho" e "folgado" é vergonhoso.
A segunda afirmação que me causa náuseas é bem menos discreta: "o preconceito começa com o próprio negro; eles têm preconceito entre eles mesmos!". Aqui a hipocrisia é bem menos sutil. É como se dissessem "se os próprios negros se tratam de forma grosseira e racista, por que eu, que nem negro sou, não posso, por exemplo,  contar piadas racistas?".
De fato, conheci mais de uma pessoa negra que tinha opiniões racistas sobre os próprios negros, inclusive na minha família. Mas, em vez de considerar o comportamento dessas pessoas uma prova cabal de que a criminalização do racismo é algo incoerente, vejo com clareza que o pensamento racista que emanou das classes superiores desde, sei lá, Cabral, continua firme e operante. Refletir sobre o que leva uma pessoa negra a discriminar sua própria etnia e origem, ninguém quer, né?
Separar racismo de bulllyng (o que também é um problema gravíssimo e até pode estar misturado com racismo que deve ser combatido com seriedade, mas é outra coisa), ou do mero mimimi de quem não sabe o que é ser constantemente suspeito por causa de sua irremediável cor de pele é algo de grande urgência.

Finalizo lembrando os nomes de dois raps dos anos 90. O primeiro se chama A cor da pele não importa nada feito por artistas brancos que faziam parte do pioneiro movimento hip hop em São Paulo; o segundo, feito pelo rapper negro Dexter, é uma resposta aos realmente bem-intencionados rappers brancos e se chama A cor da pele não importa o caralho. 

segunda-feira, novembro 25, 2013

A educação caranguejo


O acúmulo de teorias e ideias pedagógicas ao longo de muitos e muitos anos − penso em algo em torno de cinco séculos, mais ou menos − nos faz perceber, neste momento da história, que a educação nunca correu tanto risco de, inexistindo qualquer evolução sensível nas últimas décadas, ir correndo abraçar os retrocessos como se estes fossem a tábua de salvação, se não da educação como um todo, ao menos da paz de espírito − alguns de porco, é bem verdade − do corpo docente e dos governantes em geral − esses suínos por excelência.
Em primeiro lugar, o número de professores que marejam os olhos quando pensam na  repetência é cada vez maior. Já existem inclusive professores que têm saudade de algo que sequer viveram, posto que a aberração da aprovação automática já existe há tempo suficiente para ter ajudado a de-formar muitos mestres da atualidade.
Aliás, é bom frisar: aquilo que muitos chamam de progressão automática jamais foi nada além de aprovação automática. A progressão prevê um novo paradigma de organização das turmas, muito diferente do sistema seriado. Na progressão continuada, a avaliação não é usada para aprovar ou reprovar ao final de cada ano ou ciclo, mas para indicar quais caminhos o aluno deve percorrer. A progressão continuada também prevê um novo modo de organizar os currículos, menos enraizados na questão dos conteúdos e mais voltados às habilidades e competências, palavrinhas bonitas e já esvaziadas de significado, de tão desgastadas e violentadas pelo discurso pedagógico vigente, sem que haja as mínimas condições reais de que habilidades e competências sejam realmente trabalhadas e desenvolvidas.
Vivemos mais do que nunca de arremedos e simulacros, algo tão combatido por Paulo Freire; aliás, muitas críticas do atual "sistema educacional" são atiradas sobre Paulo Freire, sendo que ele, que não vive esses tempos sombrios, já criticava com veemência  o que somos obrigados a assistir hoje, como aparelhamentos, educação bancária, ensino a serviço das elites, falta de reflexão e autocrítica por parte de quem se acredita "de esquerda". Simulamos trabalhar as habilidades dos alunos, mas na verdade esperamos que eles sejam competentes apenas para realizar nossas provas e demais avaliações tradicionais e sem valor fora do ambiente escolar.
Os professores são obrigados a repetir um discurso inovador sobre educação, mas a prefeitura de São Paulo acaba de voltar a tratar provas bimestrais e lição de casa como fetiches e panaceias que, já estamos bem cientes disso, não resolverão aquilo que esperamos que resolvam − vale lembrar que lição de casa e provas já fazem parte da rotina de muitos alunos e professores; eu mesmo trabalho com ambos, sem esquecer de lidar com outros instrumentos de avaliação. A conversão errada nos enfiou a todos na contramão do futuro e do aprendizado com propósitos relevantes.
Tenho a sensação de que todas as teorias sobre educação, ao menos todas as verdadeiramente relevantes, já foram estabelecidas, incorporadas, domesticadas, adoçadas e, de tão distorcidas na prática, viraram nosso terror e amargura. O que conta agora é buscar caminho para efetuá-las de acordo com cada realidade regional, de bairro, de sala, de aluno, até. Levar a realidade local em conta, aliás, já é parte de uma teoria sobre educação. Reprovar, na maioria das vezes, é apenas uma força de coerção e de vingança. "O cara que não fez nada o ano inteiro não pode passar". O que precisamos descobrir é se esse cara aprendeu alguma coisa positiva que lhe será de algum modo útil ou caro ao longo de sua vida.
A briga não deve ser pela reprovação, mas por instrumentos que auxiliem na disciplina e propiciem um ambiente propício para a relação ensino-aprendizagem − que um não existe sem o outro já virou clichê sem ser devidamente problematizado e levado em conta no cotidiano escolar. A prova, mensal, bimestral ou seja lá o que for, é um instrumento de avaliação que já foi demonizado e agora ressurge como uma espécie de redenção; mas se ela não é a vilã do sistema escolar, tampouco pode ser considerada sua redentora. Ela é apenas um instrumento de avaliação que serve em algumas situações e é opressiva ou inútil em outras. A lição de casa pode ser uma necessidade de um determinado contexto pedagógico e pode também não passar de um castigo bobo ou uma espécie de satisfação aos pais que ao verem seus filhos atarantados com cadernos e livros pela casa terão a sensação de que seus filhos estão aprendendo, mesmo que as lições de casa sejam tão trabalhosas quanto burras e sem sentido. Mas, para quem "relançou" a prova bimestral e a lição de casa como propostas pedagógicas, certamente quer lidar mais com as sensações e menos com os problemas de fato.
Por fim, vale ressaltar que educação, sempre e sempre, é um ato político. Política sempre exigirá escolhas, tomadas de decisão e de partido, ainda que rejeitemos os "partidos políticos", que na verdade nem merecem esse nome e deveriam ser chamados de "partidos fisiológicos". Escolher um lado e tomar decisões significa necessariamente que não é possível agradar a todos, ainda que em assuntos públicos, devamos trabalhar para todos. A atual proposta da prefeitura de São Paulo propõe medidas que pretendem agradar a gregos e goianos, mineiros e troianos: por um lado quer mostrar aos professores que com a volta da retenção, da lição de casa, da prova bimestral e do TCC, pretende "disciplinar" os alunos e permitir que os professores possam voltar a lecionar de verdade. Por outro, pretende mostrar aos pais que os professores terão de trabalhar de verdade, como se passar prova e lição de casa fosse sinal de "trabalho verdadeiro" por parte dos professores; alguns dos colegas mais preguiçosos, omissos e acomodados que conheço trabalham justamente em cima da prova e da lição de casa. Enquanto isso, por debaixo dos panos, cria mecanismos para que as retenções não sejam em grande número, querendo vincular os rendimentos do magistério aos números de aprovação.

Não poderia haver conduta mais covarde. Com medo ou vergonha de  assumir que realmente a retenção é um retrocesso, a prefeitura berra que ela voltou, mas vigia e pune o professor que reprovar acima do "esperado". Assim, o governo fica bem com órgãos internacionais ao menos no plano das intenções, embora provavelmente continuará a ostentar níveis vergonhosos em qualquer tipo de avaliação de sistema escolar. Mas condições reais de trabalho para nós, os professores, e criar ambientes verdadeiramente  adequados para o aprendizado, o governo não quer dar, não.

segunda-feira, outubro 14, 2013

15 de outubro


Muita coisa bonitinha pipocará nas redes sociais, muita frase feita será compartilhada e curtida, muita entonação de voz forçada será desengavetada para falar da importância do trabalho do professor. Nenhum aumento digno será proposto, nenhuma política séria será implantada, a jornada de trabalho não passará a ser digna e todos continuarão a olhar para as escolas públicas com o desprezo de sempre.
Muita gente se lembrará de professores competentes, amáveis e comprometidos, mas as lembranças mais divertidas são sobre como professores estressados e mal pagos foram humilhados pelos motivos mais justificáveis, como a vontade de exercer seus ofício com o mínimo de dignidade.
Muitos comemorarão os tiros no assaltante da moto cara sem fazer qualquer tipo de associação entre educação de qualidade e índices de criminalidade.
Quantos olharão para nós com um misto de pena e desprezo, porque ganhamos salários miseráveis e sofremos todo tipo de humilhação possível daqueles que queremos ajudar a educar, porque não fomos suficientemente inteligentes para conseguirmos empregos cuja remuneração é muito maior.
Muitos falarão do imperador do Japão, contarão mentiras singelas sobre os professores do Japão, mas se sentirão espertos por enganarem os professores daqui, por passarem mais um dia pela escola sem nada aprender, e ainda dirão que o governo deveria valorizar o professor.
Muitos resistirão dia após dia, planejando, preparando, elaborando, dando a cara pra bater, suando sangue, chorando abacaxis e ouriços, empenharão a vida em uma causa, amarão sem pieguice, lutarão por uma causa, sentirão medo, terão insônia, ganharão pouco, trabalharão muito e terão em cada segundo de aprendizado verdadeiro aquela alegria que nenhum outro profissional pode ter.

Não queremos parabéns, chocolates ou dias de folga. Queremos nossa dignidade de volta.

terça-feira, outubro 08, 2013

Paulo Coelho: não é só isso


E mais uma vez Paulo Coelho vira notícia. Um dos 70 escolhidos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na Feira do livro De Frankfurt, neste ano em que o Brasil será homenageado no principal evento do mercado editorial mundial, o autor com fama de mago declinou do convite para protestar contra a ausência de alguns dos principais campeões brasileiros de tiragens. Nomes André Vianco, Thalita Rebouças e Felipe Neto foram lembrados por Paulo Coelho como exemplo, entre muitos outros, de escritores  que verdadeiramente representam o Brasil, justamente por serem os mais lidos da atualidade.
O raciocínio de Paulo Coelho é bastante lógico e coerente. A própria ministra da cultura, Marta Suplicy, ao ser questionada sobre o número muito pequeno de escritores negros e índios da delegação brasileira, disse que a escolha dos nomes se deu por razões estéticas, não étnicas, e que a Feira do livro de Frankfurt é um evento comercial. Ao tentar separar ética de etnia e acabar embolando arte com mercado, o que a ministra fez foi misturar alhos com bugalhos.
De fato, a Feira do livro de Frankfurt é realmente um enorme balcão de negócios. Sendo assim, importa divulgar produtos que tenham reais condições de alcançar sucesso comercial, e as grandes tiragens desses autores aqui no Brasil e por vezes também no exterior, como é o flagrante caso do próprio Paulo Coelho, não podem ser ignoradas. É uma oportunidade para fazer dinheiro! Frankfurt, para muitos, é a Davos dos livros.
Paulo Coelho, de modo até mesmo um tanto grosseiro, o que, até onde eu saiba, não é comum, o que revelou que o escritor está realmente irritado com a situação, chegou a afirmar que sequer conhecia a maioria dos escritores que estavam presentes na lista. Segundo li em algum lugar, todos os 70 convidados já foram traduzidos para o alemão, o que não deixou de ser um critério, condição básica de qualquer lista − outro quesito obrigatório de qualquer lista desse tipo é a polêmica instaurada logo sua divulgação.
Paulo Coelho talvez esteja um pouco mal informado sobre seus colegas escritores brasileiros, posto que muitos são nomes correntes nas páginas culturais de jornais e revistas, embora boa parte deles mantenha tiragens tão pequenas que chegam a ser ridículas, se comparadas a qualquer escritor que fale de zumbis, anjos, vampiros ou autoajuda. Em todo caso, a desinformação do autor de Diário de um mago vem corroborar o que já percebi há algum tempo: Paulo Coelho não é um leitor ferrenho de literatura, haja vista seus depoimentos autofágicos que costumam falar muito de si mesmo, de seu sucesso, sua grana, as festas que frequenta, as celebridades que leem seus livros etc.
Recentemente, lançou um livro com o mesmo título de um clássico de Jorge Luis Borges, O Aleph, e  escreveu um conto que pretendia dialogar com a obra do magistral escritor argentino. Tratou-se de uma tentativa de aproximação com universo literário que em geral, Paulo Coelho ignora e é ignorado por ele. Todo esforço por parte do mago para conquistar seu lugar, digamos, nas aulas da FFLCH, não pela via comum e obrigatória da leitura dos clássicos, mas por micagens como a que promoveu com Borges, ou pela eleição para a Academia Brasileira de Letras, deram o resultado esperado.
Acredito, sem cinismo algum, que em eventos como a Feira do livro de Frankfurt não se pode ignorar Paulo Coelho, Raphael Draccon, Eduardo Sphor e outros campeões de vendas. Afinal de contas, eles escrevem livros por editoras e têm público: são, portanto, produtores de livros com enorme potencial de mercado, o que serve, inclusive, para manter as editoras abertas e as feiras de livros ao redor do mundo funcionando. Aliás, a academia ganharia muito mais se desse alguma atenção a esses livros do que se insistir em os ignorar. Embora discorde que esses autores formem leitores, pois um leitor "formado", ou em constante formação, é aquele que consegue lidar com diversos gêneros e modalidades literárias, e não o leitor monofônico que busca nos livros um eterno estilo próximo do cinema ou da televisão, ou ler sempre as mesmas histórias com personagens diferentes, ora bruxos, ora anjos, ora vampiros, ora castores…
Por outro lado, quem tem o luxo de viver dos livros, e dos livros literários, não pode, por uma série de motivos, se dar à pobreza de espírito de lidar apenas com livros vendáveis. Em primeiro lugar porque os livros que não vendem aos montes também são formadores de leitores, abrem possibilidades para que pessoas com necessidades estéticas diferentes sejam contempladas − se há quem reclame quando uma determinada marca de iogurte sai de circulação, como desprezar os escritores que vendem pouco? Em segundo lugar porque é nosso dever não nos pautarmos apenas no que o mercado impõe, até porque muito do que é oferecido, bombardeado pelo mercado, seja uma roupa, seja um livro, seja um iogurte, é de qualidade questionável, empobrecedor, de baixo relevo. E feiras como a de Frankfurt podem ser ao mesmo tempo um enorme balcão de negócios e um espaço de resistência, de divulgação cultural, de encontro das diversidades.
Há ainda um outro fator: nem todo sucesso de vendas da atualidade  o será daqui dois anos. De vez em quando as listas dos mais vendidos são preenchidas por três ou quatro escritores, sucessos absolutos que serão plenamente esquecidos pouco tempo depois. Isso é da lógica do mercado, a alta rotatividade de nomes − e perceber que Paulo Coelho consegue se manter há tanto tempo no topo só engrandece o seu trabalho, ao menos do ponto de vista comercial. Por outro lado, há quanto tempo temos leitores que se emocionam com Shakespeare, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Dante, cuja obra recentemente serviu de matéria-prima para um best seller de Dan Brown? Todos esses, e muitos outros, venderam pouco, às vezes foram completamente ignorados em vida, mas fazem parte do patrimônio cultural de um país, do mundo. Claro que o mercado não respeita muito isso de "patrimônio cultural", mas de vez em quando faz muito dinheiro indo beber justamente nessa fonte.
Por último, o que faz sucesso do ponto de vista comercial no Brasil pode naufragar no exterior, especialmente na Alemanha, enquanto o que resiste bravamente por aqui pode vir a ser um sucesso em outros países. Escritores brasileiros que não constam na lista dos best sellers já foram convidados para morar na Alemanha e escrever um livro por lá. Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Fernando Bonassi, por exemplo, já foram agraciados com essa bolsa.
Embora a queixa de Paulo Coelho tenha algum sentido, ela foi exagerada e deu o tom de sua visão sobre literatura: um meio de vida, um negócio como outro qualquer. Toda aquela espiritualidade emanada das páginas de seus livros de repente foi substituída por uma coisa chamada disputa por território, briga para abocanhar uma fatia do mercado − e estamos falando de mercado também, ou o evento desencadeador da polêmica não se chamaria feira. Mas literatura, graças a Deus, não é só isso, e sempre é bom poder subverter a lógica do mercado dentro de um ambiente consumista. Foi feio ignorar os grandes vendedores de livros brasileiros, embora Mauricio de Sousa e Ziraldo, por exemplo, além de João Ubaldo Ribeiro, que para o espanto de muitos já vendeu milhões de livros; não doeria ter entre os escritores brasileiros algum autor de best sellers, até porque nem todos que estarão em Frankfurt são escritores exímios, não.

Fico pensando: será que o mago Paulo Coelho não acabou dando esse piti por perceber que não seria reverenciado como acha que merece pelos demais escritores que estarão por lá? Ele é leitor de Thalita Rebouças e Felipe Neto ou queria bancar o Robbin Rood das letras comerciais brasileiras? Especulações…   

Paulo Coelho: não é só isso


E mais uma vez Paulo Coelho vira notícia. Um dos 70 escolhidos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na Feira do livro De Frankfurt, neste ano em que o Brasil será homenageado no principal evento do mercado editorial mundial, o autor com fama de mago declinou do convite para protestar contra a ausência de alguns dos principais campeões brasileiros de tiragens. Nomes André Vianco, Thalita Rebouças e Felipe Neto foram lembrados por Paulo Coelho como exemplo, entre muitos outros, de escritores  que verdadeiramente representam o Brasil, justamente por serem os mais lidos da atualidade.
O raciocínio de Paulo Coelho é bastante lógico e coerente. A própria ministra da cultura, Marta Suplicy, ao ser questionada sobre o número muito pequeno de escritores negros e índios da delegação brasileira, disse que a escolha dos nomes se deu por razões estéticas, não étnicas, e que a Feira do livro de Frankfurt é um evento comercial. Ao tentar separar ética de etnia e acabar embolando arte com mercado, o que a ministra fez foi misturar alhos com bugalhos.
De fato, a Feira do livro de Frankfurt é realmente um enorme balcão de negócios. Sendo assim, importa divulgar produtos que tenham reais condições de alcançar sucesso comercial, e as grandes tiragens desses autores aqui no Brasil e por vezes também no exterior, como é o flagrante caso do próprio Paulo Coelho, não podem ser ignoradas. É uma oportunidade para fazer dinheiro! Frankfurt, para muitos, é a Davos dos livros.
Paulo Coelho, de modo até mesmo um tanto grosseiro, o que, até onde eu saiba, não é comum, o que revelou que o escritor está realmente irritado com a situação, chegou a afirmar que sequer conhecia a maioria dos escritores que estavam presentes na lista. Segundo li em algum lugar, todos os 70 convidados já foram traduzidos para o alemão, o que não deixou de ser um critério, condição básica de qualquer lista − outro quesito obrigatório de qualquer lista desse tipo é a polêmica instaurada logo sua divulgação.
Paulo Coelho talvez esteja um pouco mal informado sobre seus colegas escritores brasileiros, posto que muitos são nomes correntes nas páginas culturais de jornais e revistas, embora boa parte deles mantenha tiragens tão pequenas que chegam a ser ridículas, se comparadas a qualquer escritor que fale de zumbis, anjos, vampiros ou autoajuda. Em todo caso, a desinformação do autor de Diário de um mago vem corroborar o que já percebi há algum tempo: Paulo Coelho não é um leitor ferrenho de literatura, haja vista seus depoimentos autofágicos que costumam falar muito de si mesmo, de seu sucesso, sua grana, as festas que frequenta, as celebridades que leem seus livros etc.
Recentemente, lançou um livro com o mesmo título de um clássico de Jorge Luis Borges, O Aleph, e  escreveu um conto que pretendia dialogar com a obra do magistral escritor argentino. Tratou-se de uma tentativa de aproximação com universo literário que em geral, Paulo Coelho ignora e é ignorado por ele. Todo esforço por parte do mago para conquistar seu lugar, digamos, nas aulas da FFLCH, não pela via comum e obrigatória da leitura dos clássicos, mas por micagens como a que promoveu com Borges, ou pela eleição para a Academia Brasileira de Letras, deram o resultado esperado.
Acredito, sem cinismo algum, que em eventos como a Feira do livro de Frankfurt não se pode ignorar Paulo Coelho, Raphael Draccon, Eduardo Sphor e outros campeões de vendas. Afinal de contas, eles escrevem livros por editoras e têm público: são, portanto, produtores de livros com enorme potencial de mercado, o que serve, inclusive, para manter as editoras abertas e as feiras de livros ao redor do mundo funcionando. Aliás, a academia ganharia muito mais se desse alguma atenção a esses livros do que se insistir em os ignorar. Embora discorde que esses autores formem leitores, pois um leitor "formado", ou em constante formação, é aquele que consegue lidar com diversos gêneros e modalidades literárias, e não o leitor monofônico que busca nos livros um eterno estilo próximo do cinema ou da televisão, ou ler sempre as mesmas histórias com personagens diferentes, ora bruxos, ora anjos, ora vampiros, ora castores…
Por outro lado, quem tem o luxo de viver dos livros, e dos livros literários, não pode, por uma série de motivos, se dar à pobreza de espírito de lidar apenas com livros vendáveis. Em primeiro lugar porque os livros que não vendem aos montes também são formadores de leitores, abrem possibilidades para que pessoas com necessidades estéticas diferentes sejam contempladas − se há quem reclame quando uma determinada marca de iogurte sai de circulação, como desprezar os escritores que vendem pouco? Em segundo lugar porque é nosso dever não nos pautarmos apenas no que o mercado impõe, até porque muito do que é oferecido, bombardeado pelo mercado, seja uma roupa, seja um livro, seja um iogurte, é de qualidade questionável, empobrecedor, de baixo relevo. E feiras como a de Frankfurt podem ser ao mesmo tempo um enorme balcão de negócios e um espaço de resistência, de divulgação cultural, de encontro das diversidades.
Há ainda um outro fator: nem todo sucesso de vendas da atualidade  o será daqui dois anos. De vez em quando as listas dos mais vendidos são preenchidas por três ou quatro escritores, sucessos absolutos que serão plenamente esquecidos pouco tempo depois. Isso é da lógica do mercado, a alta rotatividade de nomes − e perceber que Paulo Coelho consegue se manter há tanto tempo no topo só engrandece o seu trabalho, ao menos do ponto de vista comercial. Por outro lado, há quanto tempo temos leitores que se emocionam com Shakespeare, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Dante, cuja obra recentemente serviu de matéria-prima para um best seller de Dan Brown? Todos esses, e muitos outros, venderam pouco, às vezes foram completamente ignorados em vida, mas fazem parte do patrimônio cultural de um país, do mundo. Claro que o mercado não respeita muito isso de "patrimônio cultural", mas de vez em quando faz muito dinheiro indo beber justamente nessa fonte.
Por último, o que faz sucesso do ponto de vista comercial no Brasil pode naufragar no exterior, especialmente na Alemanha, enquanto o que resiste bravamente por aqui pode vir a ser um sucesso em outros países. Escritores brasileiros que não constam na lista dos best sellers já foram convidados para morar na Alemanha e escrever um livro por lá. Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Fernando Bonassi, por exemplo, já foram agraciados com essa bolsa.
Embora a queixa de Paulo Coelho tenha algum sentido, ela foi exagerada e deu o tom de sua visão sobre literatura: um meio de vida, um negócio como outro qualquer. Toda aquela espiritualidade emanada das páginas de seus livros de repente foi substituída por uma coisa chamada disputa por território, briga para abocanhar uma fatia do mercado − e estamos falando de mercado também, ou o evento desencadeador da polêmica não se chamaria feira. Mas literatura, graças a Deus, não é só isso, e sempre é bom poder subverter a lógica do mercado dentro de um ambiente consumista. Foi feio ignorar os grandes vendedores de livros brasileiros, embora Mauricio de Sousa e Ziraldo, por exemplo, além de João Ubaldo Ribeiro, que para o espanto de muitos já vendeu milhões de livros; não doeria ter entre os escritores brasileiros algum autor de best sellers, até porque nem todos que estarão em Frankfurt são escritores exímios, não.

Fico pensando: será que o mago Paulo Coelho não acabou dando esse piti por perceber que não seria reverenciado como acha que merece pelos demais escritores que estarão por lá? Ele é leitor de Thalita Rebouças e Felipe Neto ou queria bancar o Robbin Rood das letras comerciais brasileiras? Especulações…   

Paulo Coelho: não é só isso


E mais uma vez Paulo Coelho vira notícia. Um dos 70 escolhidos pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na Feira do livro De Frankfurt, neste ano em que o Brasil será homenageado no principal evento do mercado editorial mundial, o autor com fama de mago declinou do convite para protestar contra a ausência de alguns dos principais campeões brasileiros de tiragens. Nomes André Vianco, Thalita Rebouças e Felipe Neto foram lembrados por Paulo Coelho como exemplo, entre muitos outros, de escritores  que verdadeiramente representam o Brasil, justamente por serem os mais lidos da atualidade.
O raciocínio de Paulo Coelho é bastante lógico e coerente. A própria ministra da cultura, Marta Suplicy, ao ser questionada sobre o número muito pequeno de escritores negros e índios da delegação brasileira, disse que a escolha dos nomes se deu por razões estéticas, não étnicas, e que a Feira do livro de Frankfurt é um evento comercial. Ao tentar separar ética de etnia e acabar embolando arte com mercado, o que a ministra fez foi misturar alhos com bugalhos.
De fato, a Feira do livro de Frankfurt é realmente um enorme balcão de negócios. Sendo assim, importa divulgar produtos que tenham reais condições de alcançar sucesso comercial, e as grandes tiragens desses autores aqui no Brasil e por vezes também no exterior, como é o flagrante caso do próprio Paulo Coelho, não podem ser ignoradas. É uma oportunidade para fazer dinheiro! Frankfurt, para muitos, é a Davos dos livros.
Paulo Coelho, de modo até mesmo um tanto grosseiro, o que, até onde eu saiba, não é comum, o que revelou que o escritor está realmente irritado com a situação, chegou a afirmar que sequer conhecia a maioria dos escritores que estavam presentes na lista. Segundo li em algum lugar, todos os 70 convidados já foram traduzidos para o alemão, o que não deixou de ser um critério, condição básica de qualquer lista − outro quesito obrigatório de qualquer lista desse tipo é a polêmica instaurada logo sua divulgação.
Paulo Coelho talvez esteja um pouco mal informado sobre seus colegas escritores brasileiros, posto que muitos são nomes correntes nas páginas culturais de jornais e revistas, embora boa parte deles mantenha tiragens tão pequenas que chegam a ser ridículas, se comparadas a qualquer escritor que fale de zumbis, anjos, vampiros ou autoajuda. Em todo caso, a desinformação do autor de Diário de um mago vem corroborar o que já percebi há algum tempo: Paulo Coelho não é um leitor ferrenho de literatura, haja vista seus depoimentos autofágicos que costumam falar muito de si mesmo, de seu sucesso, sua grana, as festas que frequenta, as celebridades que leem seus livros etc.
Recentemente, lançou um livro com o mesmo título de um clássico de Jorge Luis Borges, O Aleph, e  escreveu um conto que pretendia dialogar com a obra do magistral escritor argentino. Tratou-se de uma tentativa de aproximação com universo literário que em geral, Paulo Coelho ignora e é ignorado por ele. Todo esforço por parte do mago para conquistar seu lugar, digamos, nas aulas da FFLCH, não pela via comum e obrigatória da leitura dos clássicos, mas por micagens como a que promoveu com Borges, ou pela eleição para a Academia Brasileira de Letras, deram o resultado esperado.
Acredito, sem cinismo algum, que em eventos como a Feira do livro de Frankfurt não se pode ignorar Paulo Coelho, Raphael Draccon, Eduardo Sphor e outros campeões de vendas. Afinal de contas, eles escrevem livros por editoras e têm público: são, portanto, produtores de livros com enorme potencial de mercado, o que serve, inclusive, para manter as editoras abertas e as feiras de livros ao redor do mundo funcionando. Aliás, a academia ganharia muito mais se desse alguma atenção a esses livros do que se insistir em os ignorar. Embora discorde que esses autores formem leitores, pois um leitor "formado", ou em constante formação, é aquele que consegue lidar com diversos gêneros e modalidades literárias, e não o leitor monofônico que busca nos livros um eterno estilo próximo do cinema ou da televisão, ou ler sempre as mesmas histórias com personagens diferentes, ora bruxos, ora anjos, ora vampiros, ora castores…
Por outro lado, quem tem o luxo de viver dos livros, e dos livros literários, não pode, por uma série de motivos, se dar à pobreza de espírito de lidar apenas com livros vendáveis. Em primeiro lugar porque os livros que não vendem aos montes também são formadores de leitores, abrem possibilidades para que pessoas com necessidades estéticas diferentes sejam contempladas − se há quem reclame quando uma determinada marca de iogurte sai de circulação, como desprezar os escritores que vendem pouco? Em segundo lugar porque é nosso dever não nos pautarmos apenas no que o mercado impõe, até porque muito do que é oferecido, bombardeado pelo mercado, seja uma roupa, seja um livro, seja um iogurte, é de qualidade questionável, empobrecedor, de baixo relevo. E feiras como a de Frankfurt podem ser ao mesmo tempo um enorme balcão de negócios e um espaço de resistência, de divulgação cultural, de encontro das diversidades.
Há ainda um outro fator: nem todo sucesso de vendas da atualidade  o será daqui dois anos. De vez em quando as listas dos mais vendidos são preenchidas por três ou quatro escritores, sucessos absolutos que serão plenamente esquecidos pouco tempo depois. Isso é da lógica do mercado, a alta rotatividade de nomes − e perceber que Paulo Coelho consegue se manter há tanto tempo no topo só engrandece o seu trabalho, ao menos do ponto de vista comercial. Por outro lado, há quanto tempo temos leitores que se emocionam com Shakespeare, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Dante, cuja obra recentemente serviu de matéria-prima para um best seller de Dan Brown? Todos esses, e muitos outros, venderam pouco, às vezes foram completamente ignorados em vida, mas fazem parte do patrimônio cultural de um país, do mundo. Claro que o mercado não respeita muito isso de "patrimônio cultural", mas de vez em quando faz muito dinheiro indo beber justamente nessa fonte.
Por último, o que faz sucesso do ponto de vista comercial no Brasil pode naufragar no exterior, especialmente na Alemanha, enquanto o que resiste bravamente por aqui pode vir a ser um sucesso em outros países. Escritores brasileiros que não constam na lista dos best sellers já foram convidados para morar na Alemanha e escrever um livro por lá. Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Fernando Bonassi, por exemplo, já foram agraciados com essa bolsa.
Embora a queixa de Paulo Coelho tenha algum sentido, ela foi exagerada e deu o tom de sua visão sobre literatura: um meio de vida, um negócio como outro qualquer. Toda aquela espiritualidade emanada das páginas de seus livros de repente foi substituída por uma coisa chamada disputa por território, briga para abocanhar uma fatia do mercado − e estamos falando de mercado também, ou o evento desencadeador da polêmica não se chamaria feira. Mas literatura, graças a Deus, não é só isso, e sempre é bom poder subverter a lógica do mercado dentro de um ambiente consumista. Foi feio ignorar os grandes vendedores de livros brasileiros, embora Mauricio de Sousa e Ziraldo, por exemplo, além de João Ubaldo Ribeiro, que para o espanto de muitos já vendeu milhões de livros; não doeria ter entre os escritores brasileiros algum autor de best sellers, até porque nem todos que estarão em Frankfurt são escritores exímios, não.

Fico pensando: será que o mago Paulo Coelho não acabou dando esse piti por perceber que não seria reverenciado como acha que merece pelos demais escritores que estarão por lá? Ele é leitor de Thalita Rebouças e Felipe Neto ou queria bancar o Robbin Rood das letras comerciais brasileiras? Especulações…   

terça-feira, outubro 01, 2013

Mudar de nome não vai adiantar



Não precisamos dizer que o senso comum traz alguns problemas significativos − isso também é um grande senso comum. Também não afirmaremos que o senso comum não é um mal em si mesmo e que ele tem sua função no pensamento humano − todos percebemos isso com facilidade. A questão é saber o lugar e a utilidade de cada coisa.
Desde quando me converti ao protestantismo ouço falar que o grande mal das religiões é a religião. Tá legal, não exatamente com essas palavras, mas, sem perceber, dizem exatamente isso. Entre as igrejas cristãs essa fala é muito comum. Demonizam o que chamam de religiosidade como se ela fosse o maior mal sobre a Terra. Sacralizam e dessacralizam coisas, hábitos, lugares, promovem uma verdadeira dança das cadeiras com relação a tudo que nos remete ao divino, com tudo que faz parte do âmbito religioso. Falar mal da religião virou o maior clichê inclusive entre os religiosos que têm vergonha de sê-lo.
Essa confusão, essa resistência em chamar qualquer prática religiosa de religiosa (eita ferro!) é bem comum entre os cristãos. Nas universidades, nos espaços acadêmicos, essa frescura não existe. Tudo que busca manter contato, entender, apreender aquilo que não está neste mundo real (no sentido de existir de fato, mais no sentido platônico, em oposição ao mundo ideal), concreto, visível, tangível, esquadrinhável, é chamado de religioso. Temos a filosofia da religião, as ciências da religião, a teologia entre elas, e tudo funciona sem crise, resistência, recusa. Só os religiosos não gostam do termo religião.
Isso acontece devido a vários fatores, desde a vergonha intelectual por fazer parte de algo que nem sempre é considerado sério e respeitável no meio acadêmico, seja por não querer ser comparado aos religiosos mais ingênuos e rústicos, ou aos mais nítidos estelionatários da fé que grassam em todo o Ocidente e ao menos em boa parte do Oriente também. Em muitos ambientes, a religião é o espaço dos tolos, dos menos privilegiados do ponto de vista intelectual, dos que aderem facilmente ao comportamento de rebanho. Ninguém que almeje o respeito acadêmico quer fazer parte de um rebanho.
Também existe, dentro de ambientes religiosos, os que afirmam não ser religiosos por identificarem neste contexto a repetição exaustiva de rituais, de práticas mecânicas que nada teriam a ver com o relacionamento direto e verdadeiro com o divino, com Deus propriamente dito. Esses acreditam não estar dentro de um contexto religioso porque, pensam, com eles a relação com o divino é tão genuína, tão intensa, tão corriqueira, tão honesta, tão cerebral, que não precisam de nenhum tipo de ritual, de nenhuma prática mecânica para se integrarem com Deus, que não está distante, mas bem aqui pertinho.
São estes dois modos de lidar com a religião fingindo que não. No segundo caso, muitos são os picaretas que fazem uso desse discurso, especialmente no meio evangélico, para poderem se separar das "outras religiões", especialmente do catolicismo, tão cheio de rituais e mediações. O curioso dessa visão de mundo é que justamente estes que tanto criticam a religiosidade que veem nos sacramentos, missas e feriados, práticas milenares da igreja católica, não passam muito tempo sem inventar os seus rituais pessoais, de acordo com seus interesses do momento. Multiplicam-se as fogueiras santas, os cultos de milagres, os jejuns da vitória, os cultos de libertação, as orações nos montes, os sete passos para o êxtase cósmico de Israel, a toalhinha suada de Emaús, o tijolinho da muralha de Jericó, o cheque voador da promessa, ou o cheque da promessa voadora… Para se libertarem da religiosidade e seus rituais, criam uma série de novos, ou melhor, de requentados expedientes religiosos, cada vez mais esdrúxulos.
Já no primeiro caso, a coisa assume uma complexidade maior, complexidade que nem sei se consigo desenvolver aqui com a clareza e competência necessárias. Mas ao menos um ponto me parece ser bem claro: há um grupo de religiosos que, consciente do preconceito que a religião sofre nos ambientes intelectuais, como por exemplo nas universidades e entre artistas, simplesmente prefere não receber o carimbo de "religioso", o que de imediato lhe traria a pecha de pouco inteligente, ingênuo, desinformado, alheio à ciência etc.
Esse grupo, que não enfrenta essa situação sem passar por uma crise, luta contra uma série de paradigmas e tenta agrupar em um mesmo balaio esferas da vida humana que ao longo da história se tornaram inconciliáveis. Se houve um tempo em que a ciência era desenvolvida e estimulada dentro da igreja, chegou um momento em que, para manter sua independência e seguir sua trajetória mais ou menos livre de intervenções e ideias pré-concebidas, a ciência em geral precisou romper com a tradição religiosa, o que, a meu ver, só fez bem a cientistas e religiosos.
Porém, ainda hoje há quem busque na ciência, digamos laica, pontos de apoio que sustentem a sua fé, ou que pretendem lidar com a teologia não como um recurso para lidar e entender um determinado tipo de fé, mas como se teologia fosse um mero ramo da filosofia − o que até pode ser verdade para os que não têm fé e se ocupam da teologia como um objeto de pesquisa. Todo esse esforço, me parece, tem o propósito de não ser confundido com os místicos desenfreados, ou com os estelionatários da fé. Barateiam a tradição e tentam romper com os rituais − acredito que não existe religião sem seus rituais e dogmas −, além de questionar praticamente tudo que faz parte da religião, pois se não são pessoas religiosas, não podem manter práticas religiosas.
Contudo, não há nada mais religioso do que o desejo de se comunicar com Deus, não há nada mais religioso do que acreditar em algo cuja existência e verossimilhança não se podem provar. Pecado, necessidade de redenção e justificação, crer na vida após a morte de modo a transformar a vida antes da morte, tudo isso não pode deixar de ser visto como práticas religiosas, porque o são. Encontrar novos nomes e mesmo novos meios de lidar com o divino não vai transformar a religião em outra coisa.
Sendo assim, o sacerdote que afirma deixar de ser evangélico para pregar o Evangelho para os evangélicos não vai além de um simples jogo de palavras, jogo, aliás, de pouco efeito prático. Evangélico, na essência do termo, é quem tem a preocupação de evangelizar. Cristão é quem segue a Cristo, suas ideias, seus mandamentos, além de crer na própria divindade do Messias. Evangélico não é, nunca foi, embora haja muita confusão, quem frequenta ou é membro de uma igreja que se apresenta como evangélica. Religioso não é apenas quem pratica uma série de rituais esvaziados de significado; este, no máximo, será um mau religioso, sem compreender o que está fazendo e, consequentemente, sem alcançar aquilo que tanto deseja.
Em vez de se preocupar em não ser identificado com esse ou aquele grupo, de se empenhar em fazer com que suas práticas religiosas sejam prestigiadas entre cientistas, por exemplo, vale mais o empenho em ser religioso e evangélico por inteiro, na essência que essas palavras carregam em si. Afinal, para quem acredita na mensagem de Cristo, os homens seguem precisando ser religados com Deus, ou seja, precisam conhecer as Boas Novas. Não são os nomes que precisam mudar: os mesmos nomes de sempre precisam resgatar seus significados originais, ou então, daqui a algum tempo, precisaremos criar novos nomes para esconder problemas antigos.

Quando o assunto é religião, repisar os clichês não vai nos ajudar. Falar mal da religião em geral e se afirmar não pertencente a um determinado grupo, almejando ser visto como alguém de casta superior, não combina com a mensagem do Evangelho e apenas confundirá ainda mais os que estão de fora. É preciso restaurar o que está quebrado, limpar o que está sujo, resgatar a coerência e o respeito perdidos. OU então, passaremos a vida inventando novos nomes para fraquezas antigas, novas túnicas para adornar vaidades eternas. Reconheçamos a degradação, mas busquemos a regeneração, assim como Jesus já fez por nós. Abandonemos o senso comum de que Jesus é bom, religião é ruim. Só de pensarmos em Jesus e de querermos nos aproximar dele já nos fazemos irreversivelmente religiosos − nos cabe apenas escolher entre a religiosidade sincera e autêntica e a religiosidade senso comum, fria, falsa, friável. 

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