terça-feira, julho 23, 2013

Asa Branca de luto


Dominguinhos manejava a sanfona de um jeito tão tocante que doía na gente, tamanha a beleza de suas composições, de suas interpretações. Por isso estamos tão tristes.
Parte de uma tradição da música brasileira que vem sendo aos pouquinhos dilacerada e esquecida, aquela cujos artistas têm o que dizer, com seu jeito bonachão, Dominguinhos construiu, sem um pingo de afetação, sem o pedantismo que infecta quase todos os "pensantes" brasileiros, uma obra popular elevadíssima.
Único herdeiro musical de Luiz Gonzaga, mas sem nunca querer ocupar o lugar de rei ou príncipe do baião, sempre generoso com os artistas que o sucederam, sem discriminar sequer os embusteiros do chamado forró universitário, aquele forró sem raiz nem seiva, Dominguinhos contribuiu para o cancioneiro nacional com algumas das canções mais tocantes que eu conheço, dessas que ao ouvir, o cabra pode até ser valente, mas chora.
Onde ele buscava aquelas notas, como aprendeu a combiná-las em acordes, melodias, arranjos tão especiais? Acho que é da própria terra onde ele nasceu. Sim, porque o Nordeste não dá ao mundo apenas coronéis, políticos corruptos e homens endurecidos pela seca e pela violência que recebem de patrões e do governo: também gera filhos de sensibilidade e humor refinadíssimos. Tenho muitos parentes que, sem ter o talento de Dominguinhos, que esse é único, são tão bonachões e bem-humorados quanto o eterno Neném, apelido de família e como Dominguinhos era chamado por Luiz Gonzaga. Acho que também vem de sua criação e história pessoal o dom de falar da saudade com tanta poesia, seja no timbre da voz, seja no resfolego da sanfona.
No fim da vida, Dominguinhos sofreu muito, por causa de uma doença cruel − a prova de que a morte não respeita os homens bons. Muitas foram as orações, as promessas e súplicas para que ele se recuperasse − prova de que nem sempre conseguimos concordar com Deus.
Pra completar a tristeza, hoje o frio está mórbido em São Paulo. E não há fogueira de São João que possa nos aquecer ou consolar. O que nos resta, sem consolar, é lamentar. Dominguinhos: é duro ficar sem você.

terça-feira, julho 02, 2013

3G

Gala, gol e glória
Há momentos na vida em que o futebol é a coisa menos importante do mundo, como, por exemplo, a quase totalidade da vida, tirando os momentos em que o futebol é importante.
2013, por exemplo, não é um ano para ficarmos muito atentos ao futebol, eu pensava enquanto meu time, o Glorioso Alvinegro Praiano, passava pelas partidas sem empolgar nem ao mais doente santista. E depois, o Neymar foi embora, não chegou ninguém capaz de nos animar.
Mas havia a seleção e uma Copa das Confederações em casa! Boa bobagem esse negócio de Copa das Confederações. Um evento que serve apenas como teste para sabermos se os estádios estão em condições de receber essa gente endinheirada.  E a seleção, tão fraquinha que andava,coitada, com um jogo feio e pouco eficiente. E tem mais: jogar em casa, no caso do Brasil, significa ter obrigação de jogar bem, sob pena de receber um temporal de vaias antes da metade do primeiro tempo! Nosso apoio à seleção sempre foi condicionado a grandes apresentações, a apresentações esforçadas, pelo menos, com muita raça onde faltar talento.
Aí os jogos começaram. Houve boas partidas, más partidas, um time amador, o do Taiti, muito simpático e pouco habilidoso. Havia, nos jogos do Brasil, o adorado e vaiado Neymar. E havia críticas a esse e aquele jogador, esquema, postura. Tudo meio como sempre, meio sem valer a pena.
Mas, além dos jogos, dos gols, das falhas, havia uma multidão nas ruas. E essa multidão não estava tão interessada em Neymar, gols copas: a multidão clamava por um novo país, por uma nova mentalidade, uma nova postura. Aí é que o futebol perdeu muita importância, mesmo!
O preço das tarifas de ônibus, a corrupção endêmica, os superfaturamentos das obras para a Copa, o povo do lado de fora da festa, convidado para ficar nas ruas, para ver de longe uma festa para outros povos, tudo isso mexeu com os brios da população muito mais do que o medo dos passes calibrados dos espanhóis, a marcação competente dos italianos, a catimba fria dos uruguaios. O povo foi às ruas exigir honestidade, justiça, respeito, coisas que nem sempre acontecem no futebol, seja pelo imponderável tão presente nos gramados, seja pela fome desmedida de dinheiro, poder e holofotes dos cartolas. O futebol que esperasse.
Mas então, eis que chegamos à final! Ao lado dos espanhóis. E os espanhóis eram os francos favoritos, os donos do futebol mais moderno, da eficiência tática, da hegemonia do momento.
Poucos minutos antes da partida, o Binho, amigo de décadas e fanático por futebol perguntou se eu via alguma chance para a seleção brasileira. Disse que a única chance seria comprarmos o jogo. Eu, sabidão, repetia apenas o que o bom-senso já vem dizendo desde pelo menos um ano, quando os espanhóis humilharam a Itália na final da Eurocopa com um inquestionável 4 x 0. E outra: a Espanha não faz duas partidas ruins seguidas, e como já havia saído de uma disputa de pênaltis contra a Itália, nossas chances simplesmente não existiam.
Aí tivemos a partida. Arrepios e lágrimas durante a execução do hino nacional brasileiro. Bombas de efeito moral e gás de pimenta do lado de fora do estádio. Diante da televisão, muitos brasileiros deram as mãos ao mesmo tempo aos jogadores e aos manifestantes que estavam ao redor do estádio pedindo um país mais honesto − a honestidade já bastaria para começarmos a construir uma nação diferente.
 Uma dose de sorte, uma pequena lambança na área espanhola. Coquetel molotov e caveirão ao redor do Maracanã. Um gol esquisito de Fred.  Aí, Deus seja misericordioso, largamos involuntariamente as mãos dos manifestantes para abraçarmos a seleção brasileira, em noite e gala, glória e gols nos Maracanã.
Os espanhóis atônitos assistiram à exibição de gala dos canarinhos-feras de Felipão. E, como nós desejamos que aconteça com o Brasil, assim foi com a seleção: os criticados, injustiçados, indesejados, se redimiram, foram regenerados e voltaram a ter seu valor reconhecido. O criticado Oscar deu passe certeiro. O craque Neymar fez gol furioso em cima da falsa fúria − esses espanhóis, ganhando ou perdendo, estão mais para algum animal polar. O ainda mais criticado Hulk participou de dois gols. O injustiçado David Luiz fez a maior jogada que um zagueiro pode fazer em sua carreira. Fred fez o que sabe fazer. E o Brasil quase todo iluminou-se, houve uma enxurrada gloriosa de alegria, dessas que lavam alma e nos atordoam.

 O jogo acabou, nossa alegria permaneceu. Analistas avisam enervados que Copa das Confederações é uma coisa, Copa do Mundo é outra. Eles têm razão. Mas antes de nos preocuparmos com a Copa jogada em campo, vamos nos ater aos orçamentos dos estádios, ao dinheiro público que, emprestado ou não, está servindo a interesses meramente privados. Vamos nos lembrar dos que protestaram do lado de fora, protestemos com eles, que a hora é essa. Deixemos essa noite "3G" emoldurada na parede da memória, voltemos a ela sempre que precisarmos elevar nossa autoestima. Mas voltemos a exigir um país novo, pois o momento de colocarmos o futebol em primeiro lugar foi delicioso, mas já passou.

quinta-feira, junho 13, 2013

Reaprender a protestar


O povo não gosta de greves. Também não gosta de protestos. Quando eu era adolescente, achava romântico um ato público em defesa de qualquer coisa: direitos humanos, honestidade na política, educação de qualidade. Quando via um grupo de trabalhadores em greve, qualquer grupo, respeitava aquelas pessoas sobre caminhões ou empunhando bandeiras como se fossem heróis. Hoje, boa parte das pessoas, quando vê alguém reivindicando qualquer coisa, logo o etiqueta com o título de vândalo, baderneiro, vagabundo.
Quando eu era adolescente já havia muita gente que via manifestantes e grevistas em geral como vândalos e baderneiros. Aprenderam com os anos de ditadura militar, com a Rota na rua, que espancava qualquer pessoa que, ao ser parada na rua, não estivesse portando sua carteira de trabalho em dia. Estar desempregado, por exemplo, era um quase crime. Valorizava-se muito mais um adolescente que trabalhasse do que um que estudasse; estudar para o povão da periferia deveria ser algo secundário, para os horários noturnos, depois de passar o dia inteiro ralando em algum emprego insalubre por algum salário ridículo. Trabalhando de dia e trabalhando de noite, ou trancado em casa, não haveria tempo ou energia para protestar.
Ainda há, e cada vez mais, quem concorde com essa visão de mundo. Quem trabalha e estuda não tem tempo de protestar, logo, quem protesta é desocupado e quem é ou está desocupado é um quase criminoso. A quem se sentir injustiçado, manipulado, humilhado, sempre haverá o direito ao lamento. Amélia achava bonito não ter o que comer, por isso, e pela sua falta de vaidade, era exaltada como "a mulher de verdade". O trabalhador que, a despeito de problemas de saúde, de salário ou condições mínimas de exercer sua função é elogiado como "profissional". Ignora-se que "profissional", geralmente, cobra pelos serviços prestados.
Contra as injustiças, o silêncio imposto, o preconceito medroso da sociedade, é preciso protestar. Contra os baixos salários, as péssimas condições de trabalho, os preços abusivos de serviços essenciais para a população, a depredação da saúde, da educação, da cultura e de tudo que coopera para a nossa humanização, é preciso protestar. Mas estão fazendo isso direito?
Eu penso que não. A população, que deveria se interessar pelas manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público, pelas péssimas condições de trabalho, pelos problemas de saúde e pelos ridículos salários que são pagos aos professores, também. A população que sofre nos hospitais e postos de saúde, precisa reivindicar para que não morra nas filas das UBS. Mas estamos fazendo o convite do modo adequado?
Há muita manipulação nas manifestações públicas. Muita gente que inflama e obstrui assembleias com o único propósito de ganhar alguns pontos na hierarquia do partido a que pertence. Há muita ingenuidade, também. Muitos jovens cheios de energia e com um genuíno desejo de transformar o mundo, mas que se deixam levar pelo discurso irreal de alguns "gurus". Gente boa foi expulsa na USP no episódio da invasão da reitoria porque acreditava que estava participando de algo revolucionário, enquanto estavam, na verdade, sendo manipulados por estudantes profissionais, que recebem salário de grupos políticos para plantarem a "sementinha do socialismo".
É preciso protestar de modo eficiente e não é colocando "guarani-kaiowá" no facebook que tudo mudará. Nem é preciso convencer o povo de que algo vai mal, pois o povo sabe que as tarifas de transporte estão caras, que os professores são desrespeitados, que faltam remédios essenciais nos postos de saúde. É preciso mostrar ao povo que é possível mudar. É preciso convencer o povo de que os que os protestantes estão realmente do lado do povo, que não almejam apenas promover suas carreiras particulares. É preciso ser criativo na hora de protestar − nariz de palhaço, vestir-se de preto, empunhar a bandeira nacional ou entregar flores para a tropa de choque viraram clichês; clichê, senso comum, atuam apenas na superfície, não levam ninguém a refletir, e o povo precisa refletir para agir de modo consciente.

O maior desafio político do momento é aprender a protestar, a revindicar de um modo que seja genuíno, útil e convincente. Que coloque o povo a seu próprio favor. E que coloque o governo a favor do povo que o elegeu. O voto depositado na urna, ao contrário do que muita gente pensa, não legitima qualquer coisa que o governo fizer; aquele voto pode significar, muitas vezes, que os governantes foram escolhidos por exclusão, não por afinidade ideológica. Da mesma forma, a falta de adesão aos protestos não significa que o povo está satisfeito com tudo; pode refletir apenas a falta de fé da população e desconfiança com relação aos "líderes da oposição". Por isso, é urgente encontrarmos novos caminhos.

quinta-feira, junho 06, 2013

Não exija, chore!


Juro que ouvi duas vezes, no espaço de dois meses de pessoas e em espaços  diferentes, essas palavras sendo ditas para  funcionários públicos que, por incompetência ou preguiça de alguém, ficaram sem salário, apesar de terem cumprido direitinho com suas obrigações:
− Continuem trabalhando, ou sofrerão sanções administrativas. Trabalho não tem nada a ver com salário. Estamos aqui para defender os interesses do Estado e dos alunos (adaptei e condensei as falas).
No caso de o funcionário questionar, exigir o pagamento do salário que lhe é devido, informar que, sem salário (às vezes sem receber há dois, três ou quatro meses), não terá condições de se deslocar até seu posto de trabalho, fora outras restrições comuns a quem não tem dinheiro, como por exemplo comer, tomar banho e comprar remédios, ouve, sem titubeio desses capitães do mato do serviço público, alguns impropérios: arrogante, malcriado, folgado, e ainda recebe mais ameaças, sorrisos irônicos e é acusado de ser o responsável pelo não pagamento, ainda que tenha exercido suas funções direitinho e entregue, no prazo estipulado, a documentação solicitada.
Isso acontece, em parte, porque o brasileiro é acostumado a ver o conflito como algo negativo, ruim, de mau gosto. Lamentar é permitido, pois o lamento não exige atitudes. Então, se o funcionário injustiçado fizer cara de choro e continuar heroicamente trabalhando, será considerado um ótimo "profissional", que "ama e respeita seu ofício" e que entende que o sistema é ruim, puxa vida. Sempre que precisar de algum "favor", será, obviamente, contemplado, se não houver ninguém mais querido pelos seus superiores, claro, na frente.
Não consigo falar em profissionalismo sem que o profissional esteja sendo dignamente pago pelo seu trabalho. Quem trabalha sem receber salário é escravo, amador ou voluntário. O profissional não deve ser valorizado por ser um "bom rapaz", uma "menina meiga", mas por ser competente − e o chefe, o patrão, o capataz, só pode exigir competência se também cumprir o acordo, do qual podem fazer parte muitas coisas, da cesta básica a férias no Taiti, mas nunca deixará de incluir salário.
Jogadores de futebol também sofrem com essa cultura do lamento e da fuga do conflito. Se um time está sem receber salário e entra na justiça cobrando seus direitos, ou se recusa a entrar em campo, logo é chamado de mercenário e corre o risco de ser até mesmo agredido por torcedores na rua; exige-se de jogadores profissionais que joguem por amor à camisa. Quem precisa amar o clube são os dirigentes, e ainda assim aqueles não remunerados,  e os torcedores. Exigir raça e parabenizar profissionais que estão sendo feitos de otários por seus patrões me lembra o que acontecia com os gladiadores.
É deselegante um funcionário exigir direitos básicos, embora seus patrões adorem destratar garçons, porteiros, frentistas, recepcionistas, professores e demais profissionais sempre que acharem que estão sendo mal servidos. Direitos humanos, trabalhistas e do cidadão eles acham que é cosa feia, mas direito do consumidor e direito à carteirada é com eles. Nesses casos, não entendem suas exigências como conflito, pois, acreditam estar em patamares superiores na sociedade, pela inteligência, beleza, classe social ou porque são uns babacas mesmo. Acham que estão apenas "colocando as coisas em seus devidos lugares". O conflito de que falo é aquele que subverte a ordem estabelecida, que busca desfazer injustiças, que vai ao encontro do mais fraco.
Nós brasileiros, homens cordiais, filhos de três séculos de escravidão e colonialismo, duas ditaduras e de uma infinita cultura do favor, sofremos com isso. Na cultura do favor, o que conquistamos não são de fato conquistas, são concessões, ajudinhas, fruto da benevolência de nossos governantes,  das classes sociais mais privilegiadas. Uma das estratégias para que continuemos cordiais é, por exemplo, apelar para o nosso "bom-senso": os que nos prejudicam são ótimas pessoas, arrimo de família, solidárias, fazem doações para asilos e estão "muito mal com o ocorrido". Precisamos entender, ser pacientes e tolerantes, pois tudo se resolve: não tem grana pra ir trabalhar? Pega uma carona. O aluguel atrasou? Negocie com o senhorio, ele vai entender. A fatura do cartão explodiu? Chato, né, também já passei por isso. Quando receber seu salário, sem correção e com descontos gordos de imposto do renda, você resolve.
Ou seja, em vez de resolver a questão, passe a bola adiante, ou engula seus problemas com um sorriso no rosto, seja versátil, mostre suas habilidades. Seja cordial, dócil e manso. Afinal, estamos na cultura é do favorecimento e do lamento, não do conflito.  Seja bonzinho que um dia desses alguém lhe fará o grande favor de pagar o seu salário − mas só se você se comportar bem, viu?


terça-feira, junho 04, 2013

Quando Cristo pede perdão


Começo este texto reconhecendo que tenho errado muito. A única atitude que posso tomar diante desse reconhecimento é o pedido de perdão. Pedidos de perdão não podem ser acompanhados de explicações, autojustificações, a não ser quando solicitadas, ou quando o silêncio possa causar estragos ainda maiores. Um dos meus erros principais tem sido justamente o excesso de barulho.
Os tempos não têm sido fáceis para os cristãos. E possivelmente têm sido ainda piores para o que os cristãos vêm considerando como inimigos. Tudo bem que um cristão não pode se dar ao luxo de ter inimigos; cremos que nossa luta − sim, não temos inimigos, mas estamos em guerra − é em uma dimensão espiritual, contra seres que não são vistos por nós, com os quais não convivemos, ao menos não de um modo consciente, muito menos pela nossa própria vontade. Assim como é difícil para nós amarmos com toda sinceridade e potência aquilo que não vemos − tipo Deus −, também não é fácil odiarmos o que não enxergamos − tipo o diabo e seu exército −, por isso tomamos emprestadas as imagens daquilo que está diante dos nossos olhos carnais para personificarmos os objetos de nossa devoção ou repulsa. Aí amamos o pastor, o padre, a igreja (o templo, o prédio, ou a filosofia religiosa que ela representa) e odiamos algum grupo que, acreditamos, representa diretamente o mal, o capeta. Na verdade há vários grupos que gostamos de odiar, cada um deles ganhando maior destaque a depender do "drama espiritual" da moda.
Católicos (para os evangélicos), evangélicos (para os católicos), muçulmanos, comunistas, umbandistas, espíritas, esotéricos, ateus, cientistas, artistas em geral, passistas de escola de samba, irmãos de fé mais liberais, irmãos de fé mais conservadores, pentecostais, tradicionais, neopentecostais, adventistas, testemunhas de Jeová, místicos, crentes céticos, pobres − de vez em quando afirmamos que tal família miserável deve estar sob alguma maldição − pessoas prósperas do ponto de vista financeiro − nosso recalque nos faz acreditar que o abonado da vez será o miserável no Reino dos Céus, amém! − tudo aquilo que não sou eu pode ser a encarnação do demônio a qualquer momento.
Dentro dos "arraiais evangélicos" também acontecem muitas coisas que nos irritam, nos deixam indignados, prontos para o combate. Heresias, hipocrisias, estelionatos espirituais, disputa de poder, cobiça, vaidade, todos esses fantasmas, ou demônios, circulam entre nós, enfeitiçam, e, quando conseguimos escapar deles, somos beijados pelo demônio da arrogância e do juízo, descansamos nos braços da falação inoperante que, aliás, deve ser o "pecado eclesiástico" que mais cometo.
Pecado eclesiástico é como eu chamo aqueles tropeços que tanto entristecem a Deus e que só cometemos no ambiente das igrejas:    "fofoca santa", "tribunais espirituais", oração-discurso (aquela movida aos améns alheios e que não serve para a comunicação sincera com Deus) entre muitos outros. Na verdade, esses pecados não acontecem apenas no âmbito eclesiástico, mas ganham sutilezas e bile especial quando praticados entre irmãos.
Entre os pecados de dentro e a pressão de fora, alguns de nós extrapolam, perdem estribeiras, sela e cavalo. Nos enervamos, discutimos, babamos indignação. Preconceitos, injustiças, ira, desperdício, manipulação, tudo isso nos causa tamanha revolta que não conseguimos nos calar, queremos proclamar que o nosso Deus não é assim, que Jesus é manso e sereno, que Ele jamais exporia qualquer pessoa à humilhação, que Ele nos ama e respeita e não nos alcançou por decretos ou imposições, mas pela graça e misericórdia, pelo amor. Queremos ganhar no grito arrogante, não no cotidiano silencioso e amável. 
O problema é que nossa indignação, vertida em ira, é o mais perfeito contratestemunho que alguém jamais pôde conceber. Discutimos, brigamos, esbugalhamos olhos, berramos, fazemos um discurso rotamente disfarçado de humilde, incapaz de esconder nosso orgulho por sermos tão modernos, espirituais, inteligentes. Usamos a ira mais agressiva para impor ao mundo a obrigação de amar. Azedamos o amor.
Por isso que a partir de agora, quero me esforçar para ampliar a minha capacidade de indignação (falta de indignação é uma indignidade) na mesma medida que aumento a minha capacidade de compreensão, de compaixão.
Jesus, diz o Novo Testamento, nunca pecou. Nem por isso Ele deixou de pedir perdão. Ciente de seu papel, do percurso que deveria percorrer para alcançar seu objetivo de salvar a humanidade, Jesus, ao ver aqueles mal-agradecidos que, após passarem muitos dias ao seu redor, maravilhando-se com seus prodígios e ensinamentos, empanturrando-se de pães e peixes multiplicados milagrosamente, compraziam-se na agonia do mestre, clamou ao Pai que perdoasse aqueles pobres diabos que não sabiam o que faziam. Passados mais de dois mil anos, nós ainda não sabemos o que fazemos; nos tornamos cativos da opinião e a transformamos em pecado.
Imagino que hoje mais do que no episódio do Getsêmani, sempre que Jesus nos observa um pouquinho, dá um suspiro profundo, volta-se ao trono do Pai e repete a mesma afirmação-apelo:
Perdoa, Pai, eles ainda não sabem o que fazem.




sábado, maio 18, 2013

Vai, Neymar!


Minha esposa tem um aluno de 5 anos que é santista. De vez em quando o garoto reclama, querendo usar a camisa do time do coração em vez da camiseta com o emblema da prefeitura. Ele deve pensar, não sem razão, que uniforme por uniforme, melhor usar aquele lembra grandes feitos.
Dou completa razão ao santista, já que seu time tem Neymar e "um passado e um presente só de glórias". Já no time da prefeitura paulista há uma galeria de nomes não apenas controversos, mas indesejados, vergonhosos, que não citamos para não espantar a pretensa poesia escondida nessa crônica.
Falava do jovenzinho santista. O mais legal desse apego do garoto ao clube é que ele não herdou o benefício de torcer para o glorioso praiano do pai, que é são-paulino: a causa dessa paixão precoce e comovente é o balé com bola de Neymar. É o que basta para que o ainda jovem jogador tenha seu lugar garantido na história do clube. O aluno da minha esposa é a prova vivíssima de que o craque, ainda santista, já pode partir para novos espetáculos em outros gramados, quite com a torcida e com seu nome gravado no panteão dos craques santista, orgulho que nem todos podem ter.
Vivemos tempos menos românticos. Há muito tempo é raríssimo um jogador de futebol no Brasil ficar em um clube tempo suficiente para formar novos torcedores. Ninguém duvida que Kaká conseguiu mais torcedores para o Milan do que para o São Paulo. Neymar e Ganso, mais Robinho, e talvez até Zé Love, arrancaram das hostes adversárias alguns torcedores que ainda no berço, quase que literalmente, foram tocados pela graça de um futebol exuberante, ao mesmo tempo eficiente e encantador.
Só Neymar permanece no clube, e isso faz com que esses garotos mantenham-se fiéis ao Santos. Mas vivemos outros tempos e, no caso de Neymar, tudo é muito diferente. Se antes uma transferência podia significar um transbordamento de rancores em todas as direções − foi assim com Ganso há menos de um ano − com Neymar, creio que, tirando a parcela dos santistas jovens demais para entenderem esse complexo e chato lado business do futebol, todos aguardamos, com certa ansiedade, o momento em que Neymar dirá adeus, ou até logo, ao mítico clube da Vila.
Pensamos no futuro do jogador, que para firmar-se como craque intergaláctico precisa exibir-se em gramados europeus. Pensamos nos cofres do clube, que podem ficar recheados com a venda do atacante − o que nem sempre, quase nunca, é sinônimo de continuarmos com times fortes. Pensamos, melancólicos, que o momento do clube não é divino, como foi três, dois anos atrás, e que estar em um time tão limitado como é o Santos de agora só empobrecerá o talento de um gênio como Neymar, que não merece ficar engaiolado entre colegas até esforçados, mas sabe como é. Pensamos que os ciclos de quase tudo na vida, exceto dos mandatos dos cartolas, são cada vez mais curtos. E, resignados, aguardamos o surgimento de outros craques, coisa que os novos santistas logo descobrirão que em seu time isso acontece com mais frequência do que nos times adversários.
Somos gratos, Neymar. A Libertadores foi ótima, a Copa do Brasil emocionante, os três, quiçá quatro estaduais deram um up grade significativo. Voltamos a ser notícia boa. Aparecemos no mundo inteiro. Passamos ligeira vergonha no Japão, a parte triste presente em todas as trajetórias de grandes heróis. Mas o nosso maior tesouro, o que ficará pelo menos por mais uma geração, é a manutenção da torcida do clube, nosso maior patrimônio. Por continuar fazendo história, podemos sonhar com o futuro.

quarta-feira, maio 15, 2013

Escola sem máscaras



Quando a manhã chama, pego a bicicleta e vou caçar assunto pelo bairro. Caçar é o termo adequado, assunto também: enquanto pedalo, tento observar tudo que vai acontecendo, quase tudo bem banal, e de cada banalidade é possível colher algum sentimento, de rancor à ternura, de nojo à saudade. Sobre tudo é possível escrever.
Quando não saio de bicicleta, vou acompanhado da Nina, que sempre leva uma alegria desproporcional para um simples passeio pelo bairro. É bom, pois acabo me alegrando um pouco também.
Entre pedaladas e caminhadas, é comum encontrar meus alunos do noturno pelas ruas. Um indo para o trabalho, a outra voltando da padaria, quase todos visivelmente ocupados, outros apenas matando o tempo enquanto não encontram o que fazer. Sempre é interessante encontrar alunos fora da escola, sem as máscaras que um ambiente muitas vezes hostil lhe força a usar.
Claro que há os que carregam o rosto rude ou despreocupadamente sorridente também pelas ruas, às vezes por não conseguirem se desfazer do disfarce, outras por serem o que são em qualquer lugar. A menina muito vaidosa se maqueia durante as aulas para não fazer feio no intervalo, e não se descuida nem quando vai sorrateiramente à quitanda. O cara carrancudo, pelo rock ou pelo crime, não relaxa nem enquanto come um churros na esquina da avenida principal.
Mas há entre os meus alunos os que conseguem relaxar e ser apenas alguém distraído indo à farmácia, ajudando um vizinho, servindo mesas. Há os que, aglomerados nas plataformas das estações de trem, ou transidos de sono e frio nos pontos de ônibus, apenas bocejam enquanto sonham com um amor, um gol, um futuro. Há os que, nesses momentos, não conseguem esconder sob a máscara da calculada indisciplina o travo azedo por causa dos dilaceramentos familiares, dos namoros rompidos, das drogas escravocratas, das prestações atrasadas, dos adiamentos dos pequenos ou grandes sonhos de consumo.
Nas ruas, enquanto andam, correm, se arrastam, os alunos, sem os abadás impostos pela escola, se tornam parte do mesmo rebanho de esquecidas engrenagens que movem boa parte dessa cidade enferrujada pelo trânsito e pela falta de tudo que é essencial, do transporte ao comprimido, do livro aos espaços de lazer, do beijo ao riso não fingido.
Acredito que eles também devem olhar para mim com a mesma sensação de deslocamento que permita ver mais que uma personagem. Na bicicleta ou correndo atrás da Nina, eu também estou despido de minha armadura de professor e sou apenas um tiozinho de cabelos grisalhos (precoces!), lutando contra a barriga, que começa a se impor, sobre uma bicicleta ou levando a cachorrinha serelepe para passear. Nas ruas, não sou o cara que precisa saber, dominar, impor respeito, dar broncas, entreter e educar: sou um cara tímido vai passando logo ali.
Se a escola nos permitisse ser o que somos de fato, se não exigisse de nós atuações − que nem sempre são convincentes − de talento, obediência, "autoridade" ou deboche, se pudéssemos ser algo mais próximo de vizinhos e mais distante de atores canastrões, menos pessoas veriam a escola como uma masmorra onde cada grupo (professores, funcionários diversos, alunos) é o carrasco dos demais. Sem máscaras ou personagens, podemos nos reconhecer uns nos outros, nos tolerar, nos irmanar. O contrário disso é uma luta inútil por um poder que no fundo nenhum de nós dentro da escola tem de fato.
Em uma escola de cara limpa, aprende-se a não ter vergonha do que se é e a se perceber parte de um grupo bem maior do que o de amiguinhos de classe. Essas lições são fundamentais para suportarmos a travessia por ruas e corredores vida afora.

segunda-feira, maio 06, 2013

Alckmin e APEOESP: parceiros da antidemocracia



Você certamente sabe que os professores da rede estadual de São Paulo estão em greve. Também sabe que a adesão é pequena, apesar de quase a totalidade do magistério dessa rede estar insatisfeita com seus salários e condições de trabalho. Você sabe que os salários dos professores da rede pública são ridículos e que aquela conversa de que um professor pode chegar a receber algo em torno de R$10 mil reais por mês é uma mentira deslavada. Agora vamos falar do que você não sabe?
Um professor da rede pública estadual contratado, da chamada categoria "O", tem uma série de restrições que passam perto do trabalho semiescravo. Ele não pode, por exemplo, tirar duas licenças médicas por ano na mesma especialidade. Digamos que um professor tenha uma tuberculose − meu irmão, professor de história, está com tuberculose − se recupere e, digamos, seis meses depois tnha uma recaída, algo bem possível de acontecer: demitido, sem receber um centavo de multa recisória.
Este professor "O", que não é funcionário público efetivo, mas uma espécie de terceirizado, não tm direito a fundo de garantia ou salário desemprego. Jamais. O Estado sonha com o dia em que terá um contingente de professores suficiente para que eles se revezem em dois turno, cada um trabalhando durante um ano e ficando outro ano impedido de trabalhar e, consequentemente, de receber salário. Este governo tucano já tentou fazer isso outras vezes e só recuou porque não havua professores suficientes para empreender essa atrocidade educacional e trabalhista.
Você deve estar pensando que se fosse obrigado a se sujeita a essas e outras práticas hediondas do governo, não hesitaria em fzer greve. Mas, meu amigo, se o cara não pode sequer adoecer, o que você acha que o governo fará com um professor "O" que fizer greve? Demissão sumária e consequente proibição de exercer a função na rede até o fina do ano letivo −ou por um período equivalente ao da vigência completa do contrato, cerca de 200 dias. Na verdade, essas regras mudam de vez em quando, mas sempre gravitam em torno do absurdo. Daí que o professor "O", com medo de perder seu subemprego, acaba evitando a greve.
Um outro lado podre dessa história é a atuação do sindicato, especificamente a APEOESP. Para ter uma ideia do modo de ação desse grupo, em 2010, por razões exclusivamente político-partidárias, a APEOESP propôs uma greve que, caso desse certo, deixaria desempregados uma série de professores que estavam na sala de aula. A coisa é mais complexa do que estou relatando agora e adorarei explicá-la com mais clareza em outra oportunidade, mas o fato é que milhares de professores, sobretudo novos na rede, boa parte deles ainda não formados mas nem todos, foram convocdos para uma greve que estava contra eles.
É verdade que essa situação surreal faz parte de uma armadilha estruturada pelo governo, Serra e Alckmin revezando-se no terror, mas a APEOESP não é formad por um bando de professores ingênuos. E foi assim que ela recebeu uma leva de novos e novíssimos professores na rede estadual: pedindo-lhes que reivindicassem a própria demissão.
Em 2012, o governo, dando uma banana para uma nova lei que prevê um terço da jornada de trabalho do professor em atividades sem alunos, com planejamento, correção de atividades e estudos, deixou tudo como estava. A APEOESP convocou uma greve quando já não era possível resolver o problema por uma questão de logística e, mais uma vez, caso os professores lutassem pela mudança fora de prazo, muitos seriam prejudicados, por acumularem cargos em otras escolas, por exemplo. Daquela vez, a ta lgreve não pasou de um jogo de cena que sequer foi encenado.
Em 2011, o governo ofereceu um aumento aos professores que, na prática, após cerca de três anos, resultaria em um aumento real de algo em torno de R$ 200,00, isso para os professores de jornada completa. A APEOESP considerou o aumento bom e sequer tentou negociar algo melhor.
Agora, em 2013, quando o governo estava simplesmente cumprindo o que havia acordado, um acordo-chibatada nas costas dos professores, mas devidamente aprovado pela APEOESP, esta mesma associação "descobriu" que o aumento era insuficiente e resolveu pedir mais. Também resolveram cobrar do governo que cumprisse a lei da jornada com um terço sem os alunos. Detalhe relevante: a greve está desde janeiro marcada para abril, quando não é mais possível rever a questõ da jornada. Por que a APEOESP não organizaou essa greve para o começo do ano letivo? A resposta é óbvia: porque não estava interessada de verdade em rever esta questão. No começo do ano letivo de 2012, quando este assunto fervia, a APEOESP deu uma de desentndida e foi passear.
Agora temos essa greve sai não sai, com pouca adesão dos professores, apesar de insatisfeitos. Alguns motivos da baixa participação: descrença tanto no governo quanto no sindicato, medo de perder o emprego, não quere compactuar com o sindicato, especialmente com sua atual presidenta, chamada carinhosamente de "Bebel" por amigos e desafetos. Esses que não participam, por qualquer razão que seja, são chamados pelos mais engajados de pelegos, acomodados, tucanos, direitistas.
Aí apareceu um cartaz de uma professora que estava na manifestação. O texto do cartaz tinha erros de concordância e de pontuação. No meio de uma manifestação é comum os textos serem escritos na correria e não passarem por revisão. Mas depois do calor do momento, divulgar a foto com o cartaz daquele jeito é um erro no mínimo estratégico. Dirão, e sempre dizem, quando convém, que os professores não sabem sequer escrever e ainda saem para fazer greve. Comentei em uma rede social que aquele cartaz deveria ser corrigido. Três professoras "engjadas" falaram em "várias linguagens", em não haver erro, em contexto explícito, em USP de direita e contra as cotas, além de formar maus profissionais, falaram que eu era massa de manora do governo, reacionário, que eu "também era burro" por escrever sempre com letra minúscula nas redes sociais, que eu era contra as cotas, de direita e péssimo profissional, que o professor em geral. Deduziram o diabo a meu respeito. Não importaram minhas retiradas afirmações de que a greve era legítima: virei o representante do mal porque ousei comentar o erro de escrita de uma colega.
É o típico ativismo cego. Só é bom quem concorda com tudo que pistoleiros ideológios com os dirigentes da APEOESP dizem e fazem. Quem é a favor da greve precisa concordar com tudo e não questionar nada. Manifestantes assim, que vão dar mau exemplo nas ruas, entrar em confronto, parar o trânsito e colocar a opinião pública contra os professores, incapzes de pensar em alternativas aos piquetes clássicos, servem muito mais à corja tucana do que à própria classe. E estão escrevendo cada vez pior, usando sempre a incompreendida ideia de que "não existe certo e errado" quando escrevemos.
Para a APEOESP, como para Alckmin, o debate é um estorvo. Para seus súditos, a reflexão é um pecado mortal.

sexta-feira, maio 03, 2013

Itamar Assumpção: o genial genioso



Vendo o documentário Daquele Instante em Diante, de vez em quando um pedaço de alguma letra do Itamar Assumpção me rasgava a alma a golpes de chibata benta, com ardores de salmoura doce. Nossa música popular produz lixo, produz populachos de massa, produz gênios de elegância suprema e acima de todos semeou Itamar Assumpção, estrela ascendente, divinal terrestre, moleque saci que deslizou sobre o Tietê, sempre na contracorrente.
Gênio difícil, esse Itamar. Sua arte, embora deliciosa, não era de fácil digestão. Claro que valia qualquer esforço, qualquer empenho para desfrutarmos daquele talento sem par; mas também é preciso dizer que nem tudo eram dificuldades e pensamentos profundos; quanta singeleza, quanta brincadeira, quanta brisa as canções do Nego Dito escondiam, escancaravam, brutalmente lapidadas.
Gênio difícil, o desse Itamar. O documentário nos mostra um homem ciente da grandeza de seu talento, indignado com a obscuridade que lhe impuseram, com o silêncio e a distância de seus pares da música brasileira, que o conheciam, claro, mas não lhe estendiam a mão. Zélia Duncan e Cássia Eller foram as exceções que honraram Itamar, gravando o artista, Zélia ainda mais próxima do compositor, amiga sincera que lançou há pouco um disco apenas com canções dele, o Daquele Instante em Diante.
O silêncio, a distância, me parece não terem arrefecido a potência criativa de Itamar. Mas ele não suportava franciscanamente ser ignorado, antes sofria o desprezo que lhe dedicavam. Segundo algumas pessoas próximas a ele, não ver a carreira decolar como deveria foi o deixando doente, lhe fazendo mal. Assistindo ao filme, fiquei com a impressão de que Itamar Assumpção era rancoroso. Como não o conheci pessoalmente, sei que a impressão pode não ter pé algum na realidade. Como costumo ficar hipnotizado pelas suas canções, afirmo que um homem com a explosão de criatividade e a límpida consciência de seu potencial tem todo o direito de bradar, de reclamar, de angustiar-se com o tratamento que a mídia e os artistas, o que é ainda mais triste, lhe dedicaram.
Itamar Assumpção é um dos maiores compositores da história do Brasil. Sem entrar na lenga-lenga sobre sertanejo universitário, pagode trelelê vocaloide e outros arrotos que contaminam o "solo sagrado da música brasileira" − a sacralidade da arte vira bibelô quando se leva a sério demais − causa certa revolta contida o fato de que quase todos os medalhões da MPB não reverenciem o genial e genioso Itamar. Se havia entre suas canções iguarias de difícil digestão, também sobravam bom humor e aperitivos de fácil degustação, e o povo, que sabe o que quer, mas também quer o que não sabe, como diria o ex-ministro Gil, abraçaria Itamar, caso lhes fosse devidamente apresentado.
Enquanto o mundo ignorava sua própria tristeza por não conhecer a maravilha das canções de Itamar, o mestre − que a exemplo do que ele próprio escreveu sobre Naná Vasconcelos, ensinava "sem pretensão de ensinar" − seguia compondo, angustiando-se, entristecendo-se, irritando-se, sempre rigoroso, sempre nas contramãos conscientes, sem criar falsas polêmicas para figurar entre os "rebeldes", como fazem os cordeiros com pele de lobo adquirida em butique chique, dessas que figuram entre a Pompeia e o Leblon.

quinta-feira, abril 04, 2013

O novo choro


O ser humano dá início ao seu apodrecimento quando pensa que por algum motivo endógeno é mais bonito, mais inteligente, mais trabalhador,mais especial, mais merecedor que todos os outros ao seu redor de todas as benesses catalogadas e das que ainda estão em fase de licitação.
É nesse momento que ele começa a agir dentro de seu direito adquirido de humilhar, menosprezar, agredir, ridicularizar, de indexar todo mundo entre os seus elevados pares e os subumanos que merecem a fome, a peste, a guerra e a morte.
Também é nesse momento que ele passa a não respeitar as regras do jogo, de qualquer jogo que não seja o benefício próprio. Não conseguiu o emprego porque alguém menos competente, claro, mas com alguma carta na manga (pistolão, nepotismo, teste do sofá) tomou a vaga que deveria ser sua. Não fechou negócio porque o concorrente apresentou um orçamento mais em conta (certamente apresentará um serviço porco). Levou um fora porque a garota tem mau gosto ou é cega o suficiente para não enxergar suas inquestionáveis qualidades.
Pessoas com esse perfil começaram a vociferar com muito mais intensidade nos últimos anos por causa da eleição do Lula, que não apenas foi reeleito, mas também fez sua sucessora, que segue com altos índices de popularidade e com realizações significativas. Está claro, para os apodrecidos, que votar em Lula só é possível por causa da ignorância ou da esmola do bolsa família. Lula e sua corja se alimentam da burrice e da miséria. Está claro que um semianalfabeto − que sempre contou com o apoio de vários dos principais intelectuais brasileiros, mas quem são os principais intelectuais brasileiros diante dos gênios recalcados? − não tem a menor condição de promover qualquer realização de peso, que só a corrupção pode mantê-lo no poder e que o aparente sucesso − que ruirá a qualquer momento, vale a sua torcida! − só foi possível por causa dos bons ventos da economia mundial, ainda que estes bons ventos sejam vistos como verdadeiros furacões em muitos países e que estejam demorando muito para passar.
Assumir as próprias fraquezas, repensar os erros, traçar novas estratégias de ação, reconhecer no outro qualidades, aceitar as regras do jogo − jogo capitalista, muitas vezes, da oferta e da procura, da livre concorrência, que esses mesmos recalcados tanto exaltam quando lhes é favorável − nada disso é sequer levado em consideração por esses chorões em pleno estado de putrefação. Eles são bons demais para perderem tempo com autocrítica.
Em tempo: não sou tão entusiasta do governo Lula, tampouco da Dilma. Saúde e educação, áreas básicas, de sobrevivência de qualquer sociedade que se preocupe com seu povo e com seu futuro, são negligenciadas por este governo −assim como são pelos governos ocupados pela oposição. Mas, na hora de criticá-los, use argumentos que não sejam pautados no rancor, no preconceito, na arrogância. Façam o mesmo nas questões pessoais: autocrítica, reconhecimento das qualidades do outro nunca fizeram mal a ninguém e são remédios eficazes contra a putrefação das próprias ideias, assim como a humildade não fingida. E parem de reclamar um pouco, pelo amor de Deus! Quem não pensa como vocês já não está aguentando mais.

terça-feira, abril 02, 2013

Bolsa de valores


para rodrigo constantino

Carrego
No peito aberto
Adubo e conservo
Esbravejo o ego

Arreganho a raiva
Sou guia cego
Arrasto a mágoa
Sei que estou certo

Desprezo
A mala é o medo
E dentro desse medo
Sempre, o preconceito

Vem aí



Sabe os detritos
Vomitados sobre a cidade?
O mentiroso entretenimento cultural
Os programas a nos programar
O senso crítico docemente dopado
A vida dentro do esquadro mais quadrado?

Aguarde
Regurgitaremos o lixo
Com arte

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Yoani é contra Cuba?



Mais uma manifestação contra Yoani e a favor de Cuba obstruiu um evento no qual a blogueira participava, dessa vez em São Paulo. Mais um ato antipático, antidemocrático e anti-inteligente por parte de um grupo de românticos que lamentam muito não terem vivido no período da ditadura militar brasileira, quando se opor era necessário, mas também era chique. Hoje, na falta de sabedoria para escolher a bandeira certa − há tantas causas para serem defendidas − esses jovens engajados correm para o lado onde a palavra revolução é mais dita e deturpada.
Dessa vez, o que mais me aborreceu foi ler em uma reportagem na internet que Yoani foi hostilizada por grupos "pró-Cuba". O erro do redator foi crasso: não eram manifestantes pró-Cuba, mas manifestantes pró-Fidel e Raúl Castro, pró ditadura cubana.  A mim soa que os manifestantes não estão realmente preocupados com a população cubana, sobre suas reais condições de vida, sobre um possível desejo de mudança de rumo. Aqueles que seguem e ofendem Yoani Sanchés, defendem um símbolo de resistência contra o capitalismo, defendem um mito, mas não estão preocupados com a saúde social de Cuba. Parece que eles creem mesmo que se há privações, insatisfação, tristeza entre os cubanos, eles precisam resistir em nome da revolução, para servirem de exemplo ao mundo que é possível viver em um país livre das garras dos EUA e do hálito de enxofre da iniciativa privada. Querem que os cubanos se sacrifiquem em nome do comunismo, especialmente aqueles que sonham com o capitalismo.
Ainda que eu não tenha dúvida de que é preciso sonhar e buscar alternativas ao atual sistema econômico hegemônico, ainda que eu deteste a ideia de que só o capitalismo liberta, não acredito que o comunismo cubano seja a melhor alternativa, não acredito em uma revolução que não tenha como meta a justiça social e a felicidade das pessoas − começo a ficar repetitivo como as manifestações a favor de Cuba. E não acredito em revoluções que não sejam democráticas, que não se mantenham democráticas. Sim, a democracia tem suas limitações, mas revolução sem democracia é ditadura, e não é do proletariado, não.
Galerinha raivosa, direcionem suas energias sua raiva, para coisas mais produtivas, incluindo os estudos não tendenciosos. Não endeusem nem demonizem previamente, não se neguem a compreender, a encontrar o outro lado. Problematizem. E se são de grupo "pró-Cuba", defendam Cuba, o povo cubano, não idolatrem os governantes cubanos acima de tudo − assim como é uma estupidez os lançarem ao inferno sem direito de defesa. Deixem a blogueira cubana em paz, tentem alçar blogueiros cubanos pró-Cuba à fama; ainda que sejam a favor de Cuba, admitam que controlar  a internet é algo inaceitável, que uma pessoa ser considerada rica por comer carne mais de uma vez por semana é absurdo, que as pessoas precisam ter o direito de votar, ainda que corramos o risco de elegermos palhaços e ladrões. 

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Yoani Sanchés: os aloprados são ambidestros



Enquanto a história vai se desenrolando, a gente precisa ir aprendendo a observar a realidade, a mudar de lado quando for necessário − sem ter de ser chamado de traidor − a gente precisa aprender a usar o bom-senso!
A violência das ditaduras populistas e militares espalhadas pela América Latina, com seus torturadores, com suas mordaças, fez que muitos de nós criássemos um mito sobre Cuba, que acreditávamos ser um oásis de igualdade e justiça social. De fato, e muitos me odiarão por isso, há que se respeitar Cuba por muitos motivos, em primeiro lugar porque Cuba não é Fidel e Raúl Castro, mas um país de cultura riquíssima, com música e literatura de destaque, que brilhou nos esportes olímpicos durante muito tempo, com a devida ajuda de países aliados, não é necessário negar: Cuba é um país onde mora gente.
Mas Cuba não é só isso. O caminho para essa justiça social passou pela perseguição, pela censura, pelo silêncio e, sob muitos aspectos, pela socialização da pobreza. Não sou especialista em Cuba, mas também não sou tão ingênuo assim: sei dos múltiplos interesses que existem em desqualificar o regime político em Cuba, mas também sei que há perseguição política e que as pessoas de lá não estão nadando em dinheiro: na verdade, muitas delas nadam entre tubarões para tentarem uma vida melhor em Miami.
O governo cubano, como qualquer regime autoritário, é medroso e covarde, teme e persegue seu próprio povo. Mas Fidel e Raúl Castro não são a encarnação do demônio, não são a representação dos piores governantes que o mundo já viu. Acredito que não são sequer os piores governantes em atividade no planeta. O Oriente Médio tem gente pior; a China, que de vez em quando é citada como exemplo de crescimento econômico, é agressivamente capitalista na hora de fazer negócios e estupidamente comunista na hora de desprezar a liberdade de expressão e de defecar em cima da democracia. Por que não vemos senadores tucanos fazendo discursos apaixonados quando o governo chinês faz alguma atrocidade? Meu palpite vai sobre  hipótese de que a China é um gigante econômico, parceiro do Brasil em várias empreitadas, traz dinheiro pra cá, enquanto Cuba, quando fecha alguma parceria entre nós é nas áreas sociais; e tem outra: é muito mais fácil chutar cachorro magro.
Mesmo execrando a falta de democracia, tendo repulsa pelos bolsões de pobreza que obrigam o povo cubano a viver de jeitinhos, tenho um respeito reverente e me solidarizo com o povo. Há muita gente infeliz por lá, e essa infelicidade deve ser levada em conta, não pode ficar abaixo dos ideais revolucionários: qualquer revolução séria deve ter como intuito deixar as pessoas mais felizes, e não torná-las autômatos a repetir o discurso de uma nota só. Acredito que foram esses autômatos, em sua versão brasileira, que hostilizaram Yoani Sanchés, a jornalista cubana que visita o Brasil essa semana, após alguns anos tentando conseguir um visto para deixar, provisoriamente, o país.
O tratamento dispensado a ela tem sido covarde, pautado não pela defesa de ideias, mas por gritos de slogans, como a própria Yoani apontou com precisão. A mulher merece respeito pela sua postura de resistência; mesmo que ela seja uma "agente a CIA", do que a massa de manobra que acordou de madrugada para a receber com xingamentos e palavras de ordema jornalista a acusa, a mulher passou anos morando em Cuba e criticando o governo dos irmãos Castro. É preciso coragem para isso.
Também é preciso imparcialidade, reconheço, para avaliar se as suas acusações procedem ou não. E isso, me parece, não há. Seus opositores a transformam em um porco capitalista, seus falsos admiradores a fazem sangrar para manchar a imagem do governo. Há ainda os que a seguem pelas redes sociais, os que digitam "Liberdade para Yoani!", apenas porque soa descolado. Poucos estão realmente do lado dela, não vi ninguém que se opusesse com bons argumentos, sem arreganhar os dentes.
O que é triste, mas necessário, é reconhecer que, sem deixar de lado os reais interesses da oposição, esse tucanato que põe o mercado e o lucro acima de qualquer outro valor, está fazendo um papel interessante. É preciso cobrar satisfações da embaixada cubana e do funcionário do governo que, parece, arregimentaram esses agitados gritalhões que não sonham ir morar em Cuba, lá a internet não é 3G e muito menos ilimitada. Essa história de dossiê falando cobras e lagartos de Yoani precisa ser esclarecida, pois é de uma covardia atroz. E a revista Veja? Deve, realmente, ser parabenizada por conseguir apurar essa história do dossiê, por cobrar esclarecimentos e punições.
Não gosto de parabenizar o tucanato, nem de reconhecer os méritos da Veja. São dois grupos com os quais não me identifico nem de longe. Na verdade é um grupo só, a Veja é o Pravda dos tucanos, cuja agressividade e falta de "decoro", compartilhada por cães raivosos de outras trincheiras, como Rodrigo Constantino, Arnaldo Jabor, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi entre outros que olham com profundo desprezo para tudo que cheire a classes populares. E isso é o que me azeda o arroz: dessa vez, boa parte do que dizem, por vezes até os xingamentos pouco criativos ("burros", "imbecis", "energúmenos", "picaretas"), faz muito sentido.
Nesse caso da Yoani, os cães raivosos, a Veja e o tucanato, estão com a razão. Sad but true.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Os bandidos da USP


O "preço da liberdade", ou melhor, a sucessão de trapalhadas ingênuas veio dar nisso: acusação de danos ao patrimônio, pichação, desobediência judicial e formação de quadrilha. Ainda que eu particularmente considere inadmissível que estudantes da maior universidade do país, especialmente os das Ciências Humanas, caiam em esparrelas como os discursos do tipo "tomando a reitoria de volta para o povo", ou que eles realmente acreditassem que estavam fazendo − o próximo passo, qual seria? Tomar as sedes da Coca-cola e da Apple no Brasil? Estatizar a Zara? − fico temeroso de ver acusações tão graves, e especialmente com o que pode acontecer com o desfecho do processo.
Caminhamos para a ridicularização/criminalização de qualquer revindicação estudantil, o  que é gravíssimo. Lembro que em 2002, após alguns anos de sucateamento do ensino superior paulista executado pelos governos do PMDB e do Covas −sim, o Covas deu várias vaciladas − havia um déficit de mais de uma centena de professores apenas na FFLCH. O que promoveu um processo de mudança que levou à contratação de vários professores foi uma greve de estudantes bem sucedida.
Acho mesmo uma afronta uma promotora chamar os estudantes de bandidos, mas, ao menos para mim, está claro que os cordeirinhos que achavam revolucionários eram tangidos por corvos, e esses corvos acham e colocam na cabeça dos cordeirinhos que flertar com a criminalidade tem lá o seu glamour. Não tem mais, estamos em um estado democrático. Se a escolha do reitor Rodas foi um ato contra a democracia promovido pelo Serra e corroborado pelo Alckmin, do que nenhum animal racional pode discordar, os meios para reverter a situação deveriam respeitar as regras, e não servir de munição para que a opinião pública se voltasse contra os estudantes da USP. Na verdade, alguns inocentes úteis desejaram o confronto, queriam ser retirados pela polícia debaixo de cassetete mesmo, aparecer na televisão como vítimas da repressão. Entre os policiais, bem sabemos, havia os que estavam mordendo os lábios, morrendo de vontade de descer a borracha naquele bando de "filhinhos de papai, que choram de barriga cheia e querem mesmo é fumar maconha sem serem incomodados".
Quem é da comunidade da USP sabe que as reivindicações iam além da questão da maconha no campus, mas o mundo assistiu a uma revolta de noias. E não é verdade que a culpa disso é da mídia, ela apenas tirou proveito do farto material cedido pelos próprios manifestantes.
Também acho triste ver boa parte da sociedade curtindo ver os estudantes em maus lençóis, por rancor, por inveja, por revanche, por saudades da ditadura, por não se identificar com eles. A USP vem se acostumando a não interagir com a comunidade como deveria. Nossos filhos, vizinhos alunos, colegas, não estudam lá, mas pagam salários e verbas que mantêm aquela joça funcionando! Rodas e seus antecessores boicotaram o projeto inicial da linha amarela do metrô que previa duas estações dentro da Cidade Universitária, com medo de "gente diferenciada" ter acesso facilitado ao campus. Rodas e seus antecessores promovem "desmatamento legalizado" mas imoral e desnecessário dentro da Cidade Universitária. Rodas limita a entrada de pessoas que não são da "comunidade USP" no campus e quando pedem ajuda da polícia é pra caçar ponta de baseado em mochila e revistar pessoas com "perfil suspeito", como negros, mestiços e estudantes que usam "roupas de maconheiro".
Tudo isso nos dá uma certeza. Após a redemocratização do país, nunca foi tão necessário um movimento estudantil forte em todos os níveis da educação oficial. Um movimento estudantil altamente politizado e baixamente partidário. Politizado para que grêmios, centros acadêmicos e DCE's não se tornem grupinhos estudantis cujas reivindicações não conseguem ir além de tempo, espaço e verba para festinhas, excursões e jogos. Baixamente partidário porque, ainda que seja impossível negar as manifestações das diferentes agremiações políticas, uma organização estudantil não pode ter sua agenda comprometida com agendas de partidos; o estudante "civil" não pode ser ignorado nem aliciado. O episódio da invasão/ocupação da reitoria foi um dos maiores, senão o maior desperdício de energia e de oportunidade da história dos movimentos estudantis. Os envolvidos tiveram de passar pelo ridículo de tomar pito do Alckmin, que teve o sarcasmo de dizer que "daria aula de democracia", com PM e cassetete, para os agora réus da USP.
Passar a mão na cabeça dos estudantes é o mais adequado? Decretar de antemão sua absolvição é justo? Está claro que não, pois não estamos lidando com crianças que picharam as paredes do jardim da infância. Mas também é temerário transformá-los em "exemplo de que esse país tem ordem". Alguém sabe como resolver essa treta?

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Jorge Amado e os rascunhos sagrados


Estive recentemente, e pela primeira vez, em Salvador. Um dos lugares que mais me agradaram foi a Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. Aliás, o Pelourinho me agradou de um modo geral pela história que representa, pelas estórias das quais foi cenário: o Pelourinho é cenário de parte do imaginário de qualquer brasileiro.

No passeio pelo Pelourinho, mesmo antes de entrar nele, no Terreiro de Jesus, até, pelo menos, a Igreja do Carmo, uma estranha inversão de devoções se dava, tendo Jorge Amado com um de seus personagens principais: nas igrejas, de São Francisco, de Nossa Senhora dos Pretos e do Carmo, os turistas, que se acotovelavam sem muita reverência pelas imagens, pelo templo em si, pelas missas que mais de uma vez as vi sendo celebradas, falavam alto, tiravam fotos com seus flashes a estralar, zanzavam daqui pra lá, hipnotizados pelo ouro, pelas curvas das esculturas, mas também pelo deslumbre que intoxica qualquer forasteiro a ponto de deixá-lo ao mesmo tempo um alvo fácil para picaretas em geral e de não respeitar o sagrado alheio, o sagrado do nativo, a ponto de não entender o sagrado.
Já na Fundação Casa de Jorge Amado, dedicada à obra do mais famoso escritor baiano, em vez de falatório, desrespeito e uma boba alegria irreverente, as pessoas falavam baixo, contemplavam embevecidas os objetos pessoais do escritor, os fac-similes dos originais de seus romances, liam com reverência ritual as placas que davam informações sobre livros, viagens, sobre o fardão da Academia Brasileira de Letras. As máquinas fotográficas também pipocavam, sem flashes, mas o clima de templo era muito maior do que encontrei nas igrejas quando os turistas estavam nelas.
Talvez isso tenha ocorrido porque tive o desprivilégio de ao menos uma vez, visitar as igrejas na companhia de muitos turistas desses que andam em bandos, passageiros de cruzeiros marítimos, que não diferem a contemplação de uma igreja e um passeio de montanha-russa na Disney. Talvez porque as aglomerações façam de nós, seres humanos, animais agitados, ávidos por exibir nossa sabedoria, nosso tênis de marca, nossas câmeras moderníssimas. Na Fundação dedicada a Jorge Amado havia muito menos gente, nem todos literatos, todos se sentindo de algum modo ligados àquelas personagens, àquelas estórias, àquele cenário; uma ligação especial, um reconhecimento do valor da obra do escritor, uma alegria por ver de perto camisas, canetas, comendas, por saber os bastidores de cada livro. Reconhecimento, reverência e gratidão são elementos essenciais para que algo se torne sagrado.

Eu mesmo, que nunca havia lido um livro do autor, mas que me sentia uma espécie de sobrinho-neto dele, por ter passado uma fração não desprezível da minha vida assistindo a novelas, filmes e minisséries baseadas em sua obra, eu, que logo após aprender a ler, acho mesmo que a falar, já percebia uma certa mitologia que emanava de Capitães de areia, Quincas Berro D'água  e Dona Flor e seus dois maridos, que assistia capítulo a capítulo à novela Tieta, me divertindo e me chocando com sua história muito ousada para um folhetim que passava naquele horário, mas com as devidas inserções cômicas para aliviar a densidade dos temas, eu, que havia recentemente assistido a mais uma versão televisiva de Gabriela, me entreguei reverente e agradecido a tudo que via na Fundação, os prêmios, os "originais", as fotos, os fardões − de Jorge e de sua esposa, Zélia Gattai − das histórias que contextualizavam os livros e davam detalhes sobre seus nascimentos, mas, especialmente, diante de alguns fac-símiles de seus originais, de seus óculos, sua caneta e de sua máquina de escrever. Por quê?
Diante do cubo de vidro que protegia páginas, óculos, caneta e máquina de escrever, quedei-me agradecido, silencioso, a poucos passos da devoção. Emoção semelhante, creio eu, que deva sentir quem visita o endereço de Sherlock Holmes, em Londres, posto que Sherlock, os Buendía e Gabriela, Quincas, Tieta, embora sejam todos personagens de ficção. Conan Doyle, García Márquez e Jorge Amado são desses escritores que fazem personagens de ficção ganharem endereço de verdade.
Acho que a minha reverência − não direi devoção, essa eu tento entregar apenas em momentos ainda mais íntimos e especiais a um ser somente − aos originais, à máquina de escrever, peças sem valor artístico e que apenas por um acaso prosaico foram parar nas mãos de Jorge Amado, venha da capacidade do escritor de criar universos que se infiltraram entre nós como algo que nos espelhe, nos explique, nos divirta. E suas ferramentas para criar pessoas, mundos, universos, estavam diante dos meus olhos.

Eu, que não sou católico há muito tempo, respeito e reverencio as obras de arte que encontrei pelas igrejas baianas − o que será assunto para outro momento, em breve. Eu, que só agora começo a ler os livros de Jorge Amado e descubro que seus romances são muito superiores a qualquer adaptação televisiva ou cinematográfica que tenha visto até hoje, e cujo o desprezo acadêmico talvez nem se justifique, não iria me emocionar com o contato limitado e mediado por cubos de vidro com sua obra e, por que não dizer, com ele mesmo?

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Pensando fora da Cabana



Tempinhos atrás, três, quatro anos mais ou menos, falei muito do livro A cabana. Do ponto de vista literário ele não me agrada, lia o tempo todo sem achar uma frase que me surpreendesse esteticamente, a cada quadro, como se fosse um filme da Sessão da Tarde, eu ficava com a sensação de que já havia visto ou lido coisa semelhante em algum lugar.
Também e talvez principalmente me incomodou o modo como Deus era retratado. Não, ver o pai como uma mãe americana típica não foi um problema, nem o fato de ela ser negra pareceu novidade, posto que Ariano Suassuna já fizera o mesmo há muito tempo sem causar alarde algum. O Espírito Santo ser uma asiática ou Jesus ser um self-made man com traços árabes também não assusta. Mas fiquei achando que alguns dos diálogos da Trindade poderiam ser um pouco mais inteligentes em vez de ficarem apenas rodando em torno de estereótipos do que poderia ser o comportamento padrão da família americana feliz; não adianta nada colocar um árabe e uma coreana na conversa, se é para os dois agirem como membros de uma família estadunidense suburbana, a coreana meio bicho grilo, o árabe meio desastrado. Algumas espertezas, como a inclusão de um palavrão para agradar aos religiosos "outsiders", elementos do espiritismo chapa-branca hollywoodiano, mais uns fumos de religiões orientais, numa sopa sincrética, ou "eclética", como gostam de dizer os músicos que carecem de personalidade, mais a ideia completamente "inovadora" de que o amor e o perdão superam tudo completam o que para mim é A Cabana.
Nada contra ecletismos, desde que sejam autênticos, e não um jargão para anabolizar talentinhos. Já com os sincretismos eu tenho algumas ressalvas, pois música a gente pode misturar, a qualidade dependerá da competência do compositor; já crenças inconciliáveis, quando juntas, podem cair na hipocrisia ou virar um golpe publicitário a mais. A sopa sincrética da Cabana, dizia eu, serve para esquentar a barriga de leitores afeitos aos best sellers, ou a uma crença em um amor que, em vez de tudo saber, como escrevera o apóstolo, tudo ignora. E Deus, dialogando consigo mesmo de um modo entre aparvalhado, místico-misterioso...
Aliás, sempre que Deus fala, no cinema, na televisão ou na literatura, fico incomodado, especialmente quando a obra pretende ser séria; nas comédias, estando explícito o contrato de que aquilo não pode ser levado ao pé da letra, estando aberta a intenção do autor de fazer chacota, ou de levar a uma reflexão apoiada no riso, acho algo digno, honesto. Já nos textos que se pretendem sérios, que planejam levar uma "mensagem profunda", fico cismado, desconfiado e já parto com uma certa antipatia. Reconheço meu preconceito e não o considero bonito. Mesmo assim pretendo explicá-lo.
Todo mundo que acredita em Deus, ou em alguma manifestação do sobrenatural que tenha controle sobre as próprias ações e pensamentos, independente de sua religião particular, de seu ponto de vista, imagino, crê em algo que pensa, que tem personalidade, que existe independente de nossa existência, que está em nós antes  mesmo de conseguirmos elaborar uma frase do tipo "mãe, terminei". Gosto muito de um verso de Arnaldo Antunes que diz "O que se crê não se cria", da música Medo. Acho que o compositor nem acredita em Deus, mas concordo com ele: não creio que o Deus em quem acredito tenha sido criado, mas que Ele é criador.
Apesar disso, ao escolhermos alguma forma de fé, temos o péssimo hábito de dar algumas desbastadas nas arestas para que a divindade se pareça conosco. Isso é natural, embora não seja plenamente honesto. Natural, mas esdrúxulo, e vemos isso com clareza nas demais relações interpessoais que mantemos. Tentamos deixar marido, esposa, filhos, amigos, cachorros, colegas de trabalho, de igreja, virtuais, nossos alunos e mestres, todos eles parecidos conosco, ou próximos daquilo que consideramos ideal. Deus é Deus, seu status não muda, mas se ele ficar parecido comigo, terei um pouco de divindade em mim,serei menos contestável, minha consciência não terá grandes conflitos, estarei do lado da razão, do bem, da verdade. Adorar a um deus parecido comigo é também adorar um pouco a mim mesmo, é deixar-me mais poderoso!
Aí eu sempre fico a pensar que um livro que traz Deus como personagem, que pretende, cheio das boas intenções, mostrar a Deus "como Ele realmente é", na maioria das vezes traz o próprio autor - nesse caso não falo de narrador, mas de autor, mesmo - travestido de Deus. É desonesto colocar nossas palavras na boca de alguém com a intenção de legitimar nossas próprias opiniões. Políticos fazem isso o tempo todo, e não gostamos do que políticos fazem conosco o tempo todo, certo?
Esse recurso narrativo, ficcional, repito, só teria sentido, só seria legítimo dentro de um outro contexto, que explicitasse as regras do jogo, que a ficção nunca deixasse de estar às claras, e não para usarmos o prestígio de alguém - Deus ainda tem prestígio, apesar de esforços universais para sujar sua imagem - para, muitas vezes, subvertermos as palavras de alguém, para o trairmos.
Mesmo que o resultado final seja bonitinho, "uma mensagem de amor e esperança para todas as pessoas", o processo é altamente desleal e, por não buscar a verdade, mas tentar forjar uma, sempre tem um pé na mentira.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Quase amargura



Não sou eu quem para diante das imagens sensacionais e alheias que pipocam pelas redes sociais. Não sou eu o homem que chora a enxurrada que leva móveis de fórmica e compensados pelas ruas suburbanas das capitais. Não sou eu quem grita o nome do time vitorioso em mais um campeonato milionário. Não sou eu quem ignora os vizinhos empilhados sobre madeirites, ao pé do córrego. Não sou eu quem sente o coração mais frio diante da urna funerária onde depositaram os restos de um amor qualquer.
As árvores exibem suas luzes e doces, os pais gabam-se dos gastos e economizam abraços, as mães amontoam-se pelos salões de beleza, os sacerdotes suam sob as vestes sagradas, a bela neve de longe congela as veias, a morte, entre os cegos do caos, passeia.
Nas redes sociais exibimos nossos fantoches, nas ruas, a solidão, nos quartos destilamos a avareza, empoamos sorrisos de gesso.
Não sou eu quem rasga a própria amargura enquanto range os dentes. Não sou eu quem vomita inveja diante da TV. Não sou eu quem se lança de arranha-céus, lado a lado com a esperança. Não sou quem escreve estático por não enxergar a saída.
Os fogos não queimam o que dói, as ceias não fartam as almas, os abraços não aquecem o que é frio.
A vida já rompe interrompida. A compaixão, se é verdadeira, fica.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Para gostar do Natal



Acredite, existe
Bem macio, um Espírito
Que nos emana esperança
Nos irmana
Vai além das compras
Das crises
Dos desabraços
Da suntuosa ceia sem sabor
Do presente indesejado
Do desejo míope realizado
Um Espírito que nos avisa
A todos os credos, aos incrédulos
Que nasceu um Salvador

domingo, dezembro 16, 2012

Leve suas batatas, Corinthians



As brincadeiras e provocações são elementos que tornam o futebol mais divertido, disso ninguém tem dúvida. Lembrar feitos vergonhosos do time adversário, fazer trocadilhos, exaltar a falta desse ou daquele título, são coisas que animam as rodas de conversa, causam risos, preenchem os vazios das conversas constrangedoras. A brincadeira com o time adversário só fica desagradável quando o torcedor é chato e desagradável por natureza.
Todas as provocações não grosseiras, todas as piadas não estúpidas, todas as lendas não difamadoras são válidas até um time sair vencedor. A partir daí, o normal é esperar que os vencedores curtam a vitória e que os perdedores reconheçam a superioridade do adversário, ou que se calem e deem passagem ao campeão. A deveria ser simples assim. Como Machado já nos mostra com a filosofia humanitas, lá nas Memórias do cínico Brás Cubas: ao vencedor, as batatas!
Acontece que, infelizmente, o mundo é povoado por pessoas rancorosas, invejosas, que amam tripudiar, humilhar, provocar para além do limite da amizade e do bom-senso.o mau vencedor, na hora da vitória, passa a maior parte do tempo insultando os adversários, enquanto o mau perdedor tenta desmerecer o ganhador, fica relembrando em tom de agressão as conquistas do seu time, caça desculpas esfarrapadas para justificar o êxito do outro. Aí o que deveria ser legal vira uma coisa desagradável, chata, pedante, canhestra.
Em São Paulo temos quatro times grandes na história do futebol. Cada um deles tem seus momentos de glória e de ocaso, de magia e de mediocridade, de arte e do mais barato prosaísmo. Agora é a vez do Corinthians. Deixem os caras comemorar, o time deles, para levantar a taça de campeão mundial de clubes venceu um campeonato nacional, outro continental e desbancou o campeão europeu. O título é incontestável.
Os são-paulinos precisam saber que a conquista de hoje não apaga os diversos títulos de seu time, que é grande, o que mais conquistou Libertadores e mundiais entre os clubes brasileiros. Mas hoje quem manda no futebol é o Corinthians, gostemos ou não. Os palmeirenses, em baixa por conta do rebaixamento, não precisam ranger os dentes de ódio. Têm o privilégio de torcer para um clube que teve Ademir da Guia entre seus maestros, que já venceu Libertadores e que teve o maior time brasileiro dos anos 90, aquele do Edmundo, do Muller, do Roberto Carlos, do Cafu, do Rivaldo… lembrem-se de que o Corinthians, hoje campeão mundial, também passou por um rebaixamento e conseguiu dar a volta por cima de um jeito extraordinário. Aprendam, pois já é tempo.
Santistas como eu, que torceram para o Chelsea como se aquele uniforme azul fosse o nosso comemorativo do centenário, se não puderem dar os parabéns para o time do Parque São Jorge, fiquem calados. Somos privilegiados por torcer para o clube da Vila Belmiro, de todos aqueles craques tão conhecidos. Tivemos nossa chance ano passado e deixamos que o medo nos miasse; tivemos nossa chance esse ano e preferimos a letargia dos craques arrogantes à garra dos medianos esforçados. Contribuímos para a festa corintiana. Deixemos os fogos pipocarem, as confusões pueris sobre imigração e excursão, as contas duvidosas sobre ser campeão ou bi, os verbos no modo imperativo clamando por sucções de lado. Aplaudamos ou nos calemos: o que passar disso é pura chatice, semente de amargura, rebaixamento ético.
Que cada um de nós saiba reconhecer os méritos dos adversários e que saiba curtir sua dor em seu lugar, sua alegria sem sede de vingança. É essa fúria desproporcional que faz os outros antipatizarem com o seu clube. A nossa alegria não precisa ser temperada com a humilhação alheia; a nossa tristeza não precisa virar ódio. E que o jogo siga em 2013, com novas batatas a serem conquistadas e assadas

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