terça-feira, setembro 27, 2011

Brancos de Alma Negra

Quando Literatura não é questão de pele

Na África colonial, a questão étnica estava intrinsecamente ligada à
independência, bem diferente do Brasil, onde tudo correu mais ou
menos distante – a abolição da escravatura se deu mais de sessenta
anos depois da Independência por aqui! Valorizar a cultura negra,
afirmar-se negro na África colonial, era mostrar-se contrário à
ocupação europeia, ou então, assumir-se como membro de uma “raça
inferior”, apropriada para o trabalho braçal e para ser subjugada
pelos colonizadores, mesmo após o fim da escravidão.
Isso pode soar estranho em tempos de massificação da cultura black,
quando vemos vários artistas negros brilhando na cena pop, mas nem
tanto. Afinal, como bem definiu o escritor Ferréz, no Brasil “todo
mundo quer ser black, mas ninguém quer ser preto”. Ferréz sabe do
que fala: de pele branca, optou assumir-se como negro e por isso
causa espanto em muita gente que desconhece a origem mestiça do
escritor. É que ser ou não negro é algo que transcende a mera
pigmentação, enquanto ser black é seguir um modismo, usar roupas e joias caras, apreciar ou produzir certo tipo de música já suficientemente diluído para agradar à massa, é ostentar um comportamento de celebridade neutra em assuntos
políticos, como bem percebemos nos ídolos da música que posam
para fotos rodeados de mulheres seminuas, dentro de carrões,
exibindo closets abarrotados de roupas caras.
Há quem acredite que essa ostentação funciona como uma espécie de
ação afirmativa na cultura de massa: se os brancos têm direito a ver
seus ídolos ocupando todos os espaços da mídia, comportando-se de
maneira frívola, medíocre, ridícula, os negros também devem ter a
sua “cota” de fama fútil. Na verdade, descobriram que os negros
também consomem, nada mais que isso. Posar como ídolo pródigo, seja
branco, seja negro, seja índio, não é uma opção pelo coletivo, mas
uma afirmação da cultura consumista e exageradamente hedonista. É, sem a menor dúvida, render-se a um sistema que não é bom para quem está alijado dos shoppings e das baladas caras. É precisar subjugar alguém para conquistar seu próprio espaço.
O maior problema da cultura black é que seus ícones não assumem
compromisso com o povo e com a cultura negra, ou com qualquer outro
grupo menos favorecido socialmente; ser black é apenas uma opção
superficialmente estética, midiática e esnobe, sem relação alguma
com a matriz africana, por exemplo. Não basta aparecerem negros na
televisão, em vídeoclipes cheios de luxo e luxúria, para dizermos
que a questão racial ganha espaço. Na música e no esporte, os negros
sempre foram reverenciados, sem que o racismo sofresse grandes
golpes, sem que atletas e artistas negros deixassem de constituir
uma exceção, uma elite. Essa mesma cultura black patrocina
afilamento de narizes, alisamento de cabelos e aberrações como
Michael Jackson, talvez o único caso de vitiligo em que a doença
apoderou-se de toda a superfície de seu corpo com espantosa
regularidade e ainda gerou o gradativo desaparecimento de seu nariz,
que afinou até sumir.
Na África lusófona, as relações eram bem mais difíceis, pois não
havia esse enganoso espaço na mídia de pseudovalorização da cultura
de matriz negra. Se nem os brancos africanos tinham privilégios
garantidos – eram os “brancos de segunda” – ser negro era ter
assegurado para sempre seu lugar nos porões da sociedade; era não
ter acesso a direitos básicos. Valia mais ser um “assimilado”,
provar que possuía mesa, cadeira, copo e cama em casa, ou seja, que
tinha algum nível de “civilização”, e assim poder prestar concursos
públicos, por exemplo, além de possuir carteira de identidade
diferenciada, “superior”. É da natureza do colonizador organizar a
sociedade em castas e alimentar-se da discriminação mais grotesca
possível, incentivando hostilidades, mantendo o povo separado e,
consequentemente,enfraquecido.
Só mesmo um profundo senso de pertencimento ao solo africano e a sua
cultura para, mesmo sendo branco, ainda que de “segunda” – o que era
melhor do que ser “mulato” ou negro – para abrir mão de privilégios
e engajar-se na luta pela independência das colônias, para
empenhar-se na afirmação da cultura local, cultura obviamente
negra, que em nada lembra o black pálido de butique atual que, é
bom salientar, está longe do black power de outros tempos.
Na literatura africana lusófona, há muitos exemplos de escritores
brancos que se alinharam com os negros, com os conterrâneos,
compatriotas. Isso significava participar de grupos clandestinos, de
atividades “subversivas”, correr o risco de ser preso e mesmo de
morrer em combates. Afirmar-se como negro não era apenas uma opção
estética, muito menos uma “questão de pele”: era assunto de vida e
liberdade, sem espaço para demagogia ou dúvidas. Em Angola, dois escritores se destacaram tanto na luta quanto na produção literária: Luandino Vieira e Pepetela. Atualmente, tratam-se de autores conhecidos mundialmente, respeitados,
referências quando o assunto é literatura angolana, reverenciados
por conta da militância anticolonialista que exerceram – é famoso o episódio
em que a União dos Escritores Portugueses foi extinta e o escritor Manuel da
Fonseca, seu presidente à época, preso, por premiar a obra de
Luandino Vieira, conhecido escritor subversivo da colônia, ele mesmo
já encarcerado. Mas, verdade seja dita, muita gente se frustra ao
descobrir que são dois escritores engajados politicamente, competentes, mas... brancos.
Questões étnicas não são facilmente resolvidas apenas por fatores
superficiais, como a pigmentação da pele e o formato do nariz.
Luandino Vieira, português criado nos bairros pobres de Luanda,
conhecedor, portanto, da realidade que recriou em sua obra,
preencheu seus livros com a língua e a cultura local; foi preso por
se colocar a favor da independência e do povo angolano; marcou no
próprio nome, Luandino – originalmente se chamava José Mateus Vieira
da Graça – a referência à terra que adotou como sua e pela qual
lutou para que fosse livre. Será que o escritor merece o olhar cheio
de desconfiança de alguns de seus compatriotas negros? Será que os
doze anos que passou encarcerado, divididos entre a prisão em Angola
e o campo de concentração em Cabo Verde não são suficientes para
deixar claro que Luandino Vieira não é um aventureiro buscando nas
tradições angolanas assunto para elaborar sua ficção e contentar
leitores estrangeiros caçadores de romances exóticos sobre um povo
desconhecido?
A questão racial sempre esteve presente na obra de Luandino, e o
violento racismo aliado à colonização igualmente violenta nunca
foram tratados como mero material estético. Para o escritor, era
muito claro que a independência e o fim da discriminação dependiam
da organização do povo e da manutenção de sua cultura, que em nada
devia à cultura europeia. Em João Vêncio: Seus Amores, a violenta
morte que o garoto Mimi sofre por manter relações homossexuais com
um colega negro, deixa claro que a questão racial não é detalhe e
que não há colonização “boazinha”; antes, discute de uma só vez dois
tipos de preconceito, o racial e o sexual, e deixa o leitor na
dúvida: para os assassinos de Mimi, o que era pior? A pederastia ou
a relação inter-racial? Em Luuanda, a surra que o jovem Zeca Santos
leva de um comerciante branco ao procurar emprego, por ser “filho de
terrorista”, e a humilhação que o mesmo sofre por morar num bairro
pobre, o que o impede de pleitear outro emprego, também
problematizam a questão da discriminação e não deixam dúvidas quanto
ao lado político e ideológico de Luandino Vieira.O tratamento dado à linguagem, o respeito à oralidade, traço marcante da cultura africana, a mistura de línguas locais ao português, técnica aprendida com Guimarães Rosa, a sabedoria popular
tratada com respeito, são outros aspectos que, além de embelezar o
texto do autor, colocam a cultura angolana em relevo, não a
subjugam, antes a enobrecem. Prova disso é a História da Galinha e
do Ovo, onde as mulheres de um musseque (bairro pobre), após
resistirem às investidas de várias personagens que representam a
intromissão do estrangeiro, conseguem, sozinhas, resolver a demanda
sobre quem seria a verdadeira dona de um famigerado ovo. Nem o colonizador, nem a polícia repressora, nem a igreja católica, nem o judiciário
corrupto, nem o dono das cubatas (casas) puderam, quando as mulheres
se uniram, deixando questões secundárias de lado, dominá-las,
enganá-las. A saída é pelo coletivo, pelo bem comum, pela
identificação, pela solidariedade.
O escritor Pepetela, também empenhado na luta pela independência
angolana, levou para a literatura a luta desigual e valente dos
angolanos contra o imperialismo lusitano e, depois, os horrores da
guerra civil que rachou o país e vitimou milhões de pessoas durante
décadas. O autor de As aventuras de Ngunga, história de uma criança
que acabou envolvida na guerrilha angolana, também foi vítima das
mesmas desconfianças que Luandino. Em seu livro A Geração da Utopia,
Pepetela mostra com bastante clareza os problemas por que os
brancos engajados na libertação de Angola passaram, representados
na personagem Sara, estudante de medicina que, frequentando a Casa
dos Estudantes do Império – local que agregava estudantes oriundos
das colônias portuguesas em Lisboa, incluindo o já independente Brasil – participava das reuniões que tramavam contra a ditadura salazarista e a colonização dos países lusófonos africanos. Em dado momento da história, quando os africanos residentes em Lisboa preparam uma fuga para a França, de
onde pretendiam organizar a resistência, Sara quase fica para trás,
apesar de todo seu engajamento pela na causa, apenas por ser branca,
enquanto seu namorado, completamente alienado, tem lugar garantido
justamente por ser negro.
Valorização da etnia e luta pela independência
andavam de mãos dadas, ao ponto de, quando algum branco se
empenhasse pelas causas da colônia, gerar grandes desconfianças. Um branco angolano podia ser visto por muitos como alguém sem
pátria, ou representante infiltrado do império, por mais que suas
atitudes provassem o contrário.
Ainda em A Geração da Utopia, aparecem os conflitos entre os negros de tribos diferentes – o famoso tribalismo, que não tem relação alguma com
músicas alegres de compositores brasileiros – e a total alienação de
alguns angolanos negros, indiferentes à situação política de seu
país, além da mudança de postura de personagens que preferiram, ao
longo da história, deixar a luta coletiva de lado para se empenharem
na busca de benefícios pessoais, traindo seus ideais. Detalhe:
Sara, a estudante e posteriormente médica branca, nunca deixou de
lado seus ideais da juventude.
A Geração da Utopia talvez seja a grande epopeia angolana, pois além
de ser uma história do coletivo, e não de simples trajetórias
pessoais, mostra com clareza um dos períodos mais importantes da
História recente de Angola, sem deixar de lado questões delicadas,
como o já citado tribalismo e a mudança de postura de alguns que se
tornariam os principais políticos do país, mantendo um discurso
progressista e um comportamento completamente burguês, no pior
sentido da palavra. O romance, na verdade, termina num tom bastante
pessimista, com negros que agem como brancos racistas, humilhando
seus pares, e ocupados em enriquecer às custas da parcela ingênua do
povo.
Pepetela, assim como Luandino, tem o mérito de falar sobre o povo
angolano não como um grupo fraco, dependente da ajuda externa,
tampouco como pessoas acima do bem e do mal, sem que, com isso,
diminua a importância da discussão étnica, central em boa parte de
suas obras. Aliás, as personagens desses dois escritores são, acima
de tudo, humanas, e trazem para o leitor a discussão racial com
arte, verossimilhança e rara competência, sem espaço para
maniqueísmos. E tudo isso porque ambos tomaram para si não a
estética angolana, mas a causa do povo angolano. Antes de serem
artistas, Pepetela e Luandino Vieira são cidadãos angolanos e
brancos de alma negra.
No Brasil, o escritor branco contemporâneo que mais se destaca pelo ”negrume” de suas palavras, especialmente pelo seu livro Contos
Negreiros, é Marcelino Freire. Certamente influenciado por Pepetela
e principalmente por Luandino, Marcelino aprimorou a transcriação da
oralidade no texto escrito, no conto que é feito para ser
declamado, e deu voz a personagens negras praticamente de carne e
osso, problemáticas, sofridas, algozes, vivas, nada maniqueístas.
Marcelino Freire é, salvo engano, o primeiro escritor brasileiro que
traz claras marcas da literatura africana, sem estereótipos, em seu
trabalho – basta ler o conto Nação Zumbi para perceber claramente
essa influência. Nele, vemos o Brasil voltando à África não como
país forte e soberano a caça de escravos, mas em busca de emprego e esmolas para diminuir a miséria que nos assola do lado de cá.
É pena que justamente do lado de cá do Atlântico, escritores
como Manuel Rui, Mia Couto, Noêmia de Souza, Ondjaki e tantos outros – independente da cor da pele – alguns até conhecidos, sejam vistos por boa parte do público mais como algo exótico e menos como literatura – talvez a exceção seja Mia Couto – e ainda não penetrem em nossa cultura a ponto de se tornarem
influência em nosso meio. A perda, certamente, é muito maior para
nós do que para eles, que além de produzirem literatura de primeira,
conhecem bem o que é feito por aqui, seja por brancos, seja por
negros, seja por mestiços – importa mais a arte e o engajamento na
causa certa do que a cútis, não é mesmo?

segunda-feira, setembro 19, 2011

O escritor, o mercado e a torcida

Um dos Encontros de interrogação de 2011, evento promovido pelo Itaú Cultural com uma série de escritores discutindo “coisas da literatura”, foi dedicado à desbastada, mas pertinente, questão do mercado. Participaram da conversa três prosadores e um poeta, renomados, premiados. Tudo foi bem estranho, pois a sinceridade dos debatedores não impediu um festival de meias verdades.
O poeta Frederico Barbosa (vale ressaltar que as opiniões dos escritores passaram pelo filtro da minha percepção; nada, aqui ou no mundo, é ipsis literis): disse que as editoras são monstros capitalistas que corrompem a literatura, publicam sem critérios, por favores pessoais, amizades venenosas e interesses espúrios. Luiz Ruffato, escritor premiado, curador de editora, organizador de antologias, jurado de concursos, prefaciador, orelheiro, palestrante etc., sempre gostou de dizer que vive da literatura – não de direitos autorais – e falou que adora o capitalismo e a democracia, pois a combinação de ambos permite ao povo ter acesso a bens de consumo, livros inclusive. Ruffato também lembrou – como sempre faz – que sua formação é de torneiro mecânico, filho de analfabeta e semianalfabeto – dessa vez não falou que o pai era pipoqueiro –, que em sua casa não havia livros e que em sua cidade natal apenas a elite tinha acesso a livros. Carola Saavedra, escritora de destaque, ainda jovem, lembrou que a literatura não é uma “arte barata”, pois a formação do escritor, que precede qualquer linha escrita ou pensada, custa caro e “alguém pagou” por isso. Também falou que o fato de começar sua carreira publicando por editora de prestígio não deve causar espécie, pois sua obra foi precedida por muito preparo. Falou ainda do peso das editoras grandes e que é muito fácil publicar hoje em dia: difícil mesmo é ser lido.
Ronaldo Correia de Brito, respeitado escritor refinado e premiado, falou da necessidade de se criar ardis para que a literatura alcance o seu público, e lembrou que é necessário construir canais para o escritor encontrar o seu leitor, e um desses canais – o mais óbvio, pelo menos – é a venda de livros.
Ninguém mentiu e acreditamos na sinceridade de todos. O que foi estranho, então?
Frederico Barbosa condenou ao inferno o escritor profissional, que vive de suas letras, e ignorou que um livro, para ser feito, precisa do trabalho de profissionais. As editoras, monstruosas ou não, precisam lucrar para continuar a produzir, e produzir inclui literatura essencialmente comercial, tsite mas duramente verdadeiro. Além disso, mão de obra especializada precisa ser paga: ilustradores, revisores, diagramadores, editores, o motorista da van, tudo custa dinheiro, não podem trabalhar apenas por amor às letras.
Carola Saavedra, ao afirmar que publicar é fácil, não conseguiu ver muito além de sua freguesia. Há um caminhão de pessoas que ainda convivem com aquelas cartas de rejeição padronizadas das editoras, sem saber se os seus originais foram realmente lidos. Pagar para publicar pode até ser uma alternativa, mas não serve para muita coisa além de reunir os amigos e tirar umas fotos, enfeitar o currículo ou afagar o narciso particular. Por outro lado, publicar por editora de renome para aparecer no jornal e depois ver seus exemplares mofando nos fundos das prateleiras de livrarias, escolas e bibliotecas, aguardando que um dia alguém vá até eles e entenda o sentido da vida, é romântico demais, pragmático de menos e bastante conformista. É preciso encontrar o leitor, mas também é preciso parir o leitor - e eu acho curioso que boa parte dos escritores fale de subsídios, de vendas de livros, mas não fale da formação de leitores, e muitos sequer se interessam pelo assunto.
Ruffato, ao elogiar o capitalismo e a democracia – numa retórica muito semelhante à de empresários da área da comunicação – não levou em conta que publicar, vender, quase sempre para programas governamentais de abastecimento de bibliotecas, ou, para ser preciso, de depósitos de livros embolorados, não significa que o número de leitores está aumentando. Devemos celebrar a liberdade para escrever sobre o que estivermos a fim e com as motivações que escolhermos, seja dinheiro, amor ou besteira, mas o capitalismo por si só não é capaz de agir no âmbito social, tampouco busca a justiça. Mas, na verdade, ao empresário do ramo editorial, abraçado ao capitalismo – nem sempre à democracia – se o dinheiro está entrando, beleza.
Ronaldo Correia de Brito, mais comedido que Ruffato e Barbosa, e menos constrangido que Carola (ou, pelo menos, mais desenvolto diante do público), usou de sua erudição com sabedoria, buscando aplainar os ânimos, mas pareceu não levar muito em conta a questão da formação do leitor. Como é médico, a carapuça do “vendeu-se ao mercado” nem de longe lhe serviu, o que é bom. Mas nem todo escritor teve sua sorte profissional: alguns, ai de nós, só sabem mesmo é escrever ou, pior ainda, lecionar! Aí, ao problema do escritor soma-se a questão da situação dos professores, e, nesse caso, fica difícil seguir escrevendo sem sentir aquele travo amargo entre a língua e o céu de enxofre da boca.
Frederico falou muitas verdades, mas ele próprio é um cidadão que vive da literatura. “Acusar” alguém de tirar seu sustento do meio editorial é estranho e injusto, a não ser que houvesse alguma informação extra na manga que não foi sacada. Também ficou a impressão, ainda que esta não tenha sido proposital, de que todo escritor publicado é um vendido, ou mau-caráter, ou tem uma dívida sexual com alguém. Infelizmente, e ainda não podemos fugir desse fato, publicar é, sim, uma chancela; por uma editora que tenha algum respaldo, mais ainda. Contudo, só a miopia justifica a afirmação de que todo escritor talentoso terá seu espaço no meio editorial. O caminho é tortuoso, complicado, tem, sim uma boa dose de amizade e troca de favor, e furar as relações já estabelecidas é mais difícil do que escrever pentalogias.
Porém, podemos, devemos buscar outros canais de contato com o leitor, e se conseguirmos verdadeiramente romper com o círculo vicioso das editoras, será um brilhante milagre – ou uma verdadeira tragédia, nem dá pra saber ainda. Não basta jogarmos um texto na internet, como é o presente caso, para encontrarmos nossos interlocutores; há uma cruel batalha por espaço tanto na rede quanto nas estantes. O escritor, o poeta, não são seres acima do restante da humanidade, mas têm necessidades especiais: de ócio criativo e de encontrar o seu público.
Debates entre escritores, ainda mais em eventos de expressão, sofrem de um mal endêmico: sempre haverá quem jogue para a torcida, preocupado em agradar a alguém. Tanto é verdade, que o clichê “ninguém pode dizer o que é bom em literatura” foi usado simultaneamente por pessoas que discordavam entre si, querendo, aliás, dizer coisas opostas.
De concreto, por ora, apenas a triste constatação de que algo vai mal, mas há muita gente se dando bem.

quinta-feira, setembro 15, 2011

Machado de Assis e o Zé Batidão

A crítica machadiana e a literatura marginal periférica


Ensaiando
Gênero textual não tem receita; ensaio, menos ainda. Não explicaremos o que é ensaio, não faremos ensaio sobre ensaio. Excesso de metalinguagem dói.
Lemos Adorno: mais confusão. Percebemos apenas, se percebemos bem, que ensaio não é texto científico, nem gênero literário. Adorno nos atordoa.
Em poucas palavras: ensaio, para nós, é preparação, tentativa, experiência. Nele inventamos, erramos, tudo pode virar outra coisa: podemos mudar de ideia, de rota; no ensaio, queremos entender e compartilhar opiniões e dúvidas.

Entre a ABL e as quebradas
Recentemente, o professor Antonio Candido elogiou, na FLIP, a crítica literária atual, empenhada em estudar autores não só vivos, mas em plena atividade. Para Candido, criticar clássicos cômodo, pois já existe um caminho muito bem pavimentado por outros estudiosos. O crítico que vai a Machado de Assis, por exemplo, terá farta fortuna crítica ao seu dispor e apenas lustrará pesquisas alheias. Já os autores em plena atividade carecem que estudiosos arrojados se debrucem sobre sua obra. O professor Antonio Candido tem razão. Mas é preciso levar Machado de Assis ao Bar do Zé Batidão.
É pouco conhecida a produção crítica de Machado de Assis, exceto pelos artigos sobre O Primo Basílio e os ensaios curtos Instinto de Nacionalidade e Às Novas Gerações. Ideias críticas são mais delimitados no tempo, precisam ser sempre complementadas, enquanto as obras literárias já chegam prontas – o que não lhe garante perenidade. A crítica se encaixa ainda mais precisamente na metáfora de João Cabral, do galo tecendo a manhã. E ainda há os rodapés, que graças a Deus não são obrigatórios em ensaios: o rodapé é o pé de galinha da literatura.
Machado não exerceu a crítica por toda a vida, mas nunca abandonou a reflexão literária: apenas passou a exercê-la dentro da ficção. Gustavo Corção afirma que Machado tinha um espírito crítico por excelência; logo, não deixaria jamais de refletir sobre o seu próprio oficio e sobre seus pares. Com o tempo, conquistou maior autonomia para opinar, na literatura sobre literatura, sem os dissabores que o crítico tradicional experimenta.
Uma das preocupações machadianas era a formação entre nós de uma literatura verdadeiramente nacional, para além dos modelos europeus adornados com um índio aqui, uma floresta ali. Para tanto, é necessário conhecer muito bem a realidade local e não cair no ufanismo ingênuo. Machado tecia elogios afetuosos a Basílio da Gama, autor do Uraguai, talvez o primeiro poema de matiz local – mas não genuinamente nacional, por haver uma porção a mais de Europa no texto que a necessária.
Assim como as grandes obras literárias, alguns textos críticos também têm algo a ensinar em seu tempo e às gerações futuras. Na crítica machadiana se destacam a valorização da profissão do crítico, os principais vícios dessa ocupação, e o respeito às convenções, um ainda que um tanto exagerado para os padrões atuais. Suas reflexões ainda têm algo a nos dizer, desde que consigamos passar por frases como “a musa emboca a tuba”, mais uma infinidade de “musas”, “capitólios” e congêneres. A crítica não pode ser negligenciada
A crítica pode ser desnecessária enquanto o escritor trabalha (ficar preso a convenções no ato da criação é um equívoco), mas é fundamental quando a obra circula. E a crítica não pode ignorar a obra. A literatura marginal periférica é um fato: seus saraus talvez sejam o fenômeno cultural mais surpreendente surgido nos últimos anos. Mas ainda não há quem verdadeiramente se disponha a estudar sua produção; do ponto de vista literário, a literatura marginal periférica é um fenômeno sociopolítico.
É preciso encontrar quem deseje entender os mecanismos dessa literatura, o que será bom para o leitor, que terá mais subsídios para sua leitura, e para os autores, que serão levados mais a sério e poderão refletir sobre as conexões e possibilidades de seu trabalho. Com uma crítica forte, a literatura marginal periférica (chamemos de LMF?) pode permanecer e cumprir seu papel.
Em sua ficção, engajado ou desencantado, Machado de Assis sempre viu na literatura um espaço de ação e observação política, mas nunca deixou de valorizar a questão estética. Por não ser panfletário, há quem afirme que o autor de D. Casmurro era alienado e elitista. Num outro extremo, transformam sua obra em uma panaceia intelectual: ele era afrodescendente, marxista, freudiano, liberal, niilista, nietzscheano, cristão, agnóstico, seria petista e tucano se vivo estivesse. Memórias póstumas Brás Cubas; serve para condenar e elogiar o sistema de cotas nas universidades.
A verdade é que não é fácil afirmar que Machado era um intelectual engajado na defesa dos oprimidos – escravos, pobres, mulheres (com estas há um pouco mais de condescendência, nos parece) e injustiçados em geral; mas também não podemos dizer de forma alguma que se tratava apenas de um cínico – na pior acepção da palavra – preocupado com sua trajetória pessoal. O contraditório Machado, ao mesmo tempo que tinha nítidas preocupações com o coletivo, também desenvolvera uma grande desilusão com a humanidade. Daí o ceticismo para com as “boas intenções” e uma boa dose de comedimento diante de alegrias rasgadas. A primeira lição do Bruxo para os adeptos da LMF é a de não ser óbvio, pois a sociedade também não é.

Literatura para quê?
O mais engajado dos escritores, que vê a literatura como veículo (não como fim) e que despreza a arte pela arte, caso seja minimamente zeloso de sua obra, refletirá e estabelecerá parâmetros estéticos. A crítica deve ser exercida por quem a ama; sem rancores, com zelo; sem absolutismos, com generosidade; sem bajulações, com honestidade.
Muitas vezes, o artista questiona a utilidade de sua própria arte, e mesmo quando brada “direito à inutilidade” estabelece um critério.Ao formular um juízo sobre si mesmo, o artista se torna um crítico, seu e dos pares, não necessariamente competente ou honesto. Se não considerar seu trabalho pertinente, o esquece e vai prestar concurso público, tomar aulas de pilates. Nunca é impróprio avaliar, e a primeira análise deve ser do próprio autor.
Literatura brasileira para quê? No século XIX a pergunta era necessária; achar a resposta, um imperativo: o país jovem precisava se afirmar. Sabemos que quatro séculos de colonização não desaparecem em um punhado de verdes anos de independência. E a língua, matéria-prima da literatura, é também a principal, inevitável herança deixada pela ex-metrópole. Sem poder abrir mão do idioma, nem da cultura que, costurada com outras, formou a nossa, o rompimento completo e absoluto com Portugal é impossível. Eça de Queirós, Camões e Fernando Pessoa são um pouco nossos, pois compartilhamos a mesma língua, assim como os africanos António Jacinto, Mia Couto, Noémia de Sousa e Luandino Vieira. Os primeiros não devem ser lidos como padrões a serem seguidos; os segundos, não podem continuar como uma “curiosidade”. Todos são escritores que merecem circular por entre nós, pela humanidade como um todo. Trocar uns por outros é nos mutilarmos a todos.
Machado de Assis proclamava a urgência da consolidação da nossa literatura, trabalho para várias gerações. O idioma, a alimentação, as roupas e tudo o que chamamos genericamente de “cultura”, cria a identidade de um grupo. A literatura é parte do que somos, e está encravada e nossa língua, nossa forma primária, fundamental de expressão. Mas o Brasil é formado por muitos grupos imbricados, logo, nada mais natural que existam muitas culturas – e literaturas – imbricadas, e que estas circulem sem restrições ou preconceitos.
Assim como não podemos afirmar que toda a obra machadiana é excepcional apenas por ser de Machado, não é verdade que todo verso cravado nos saraus de periferia é “da hora”. À crítica séria, cabe “guiar o gosto”, tanto em Machado quanto no bar do Zé Batidão. Para Machado, uma literatura brasileira forte deve ser nosso espelho – não necessariamente “realista”, a não ser na concepção de Lukács – do que somos. Românticos e modernistas pensavam assim; realista, em certa medida, também. Muitos fracassaram pelo excesso de idealismo, pela verossimilhança dilapidada ou pela demasiada crueza da elaboração.
Se na literatura do século XIX um dos problemas era o decalque da arte estrangeira, na LMF gritam os excessos de “retratos da realidade”: a ilusão modernista de “se escrever como se fala”, com muita gíria e pouca elaboração estética, os temas monocórdios, as tramas pouco criativas, (luta de classe, racismo, autoafirmação estereotipada, idealização das classes populares) e o desprezo pela “academia”, pelas “elites”, estão em toda parte.
Machado censurava a repetição de fórmulas estrangeiras, e acreditou, com variações de intensidade ao longo da vida, que a arte, além de retratar a sociedade, pode ajudar a moldá-la; arremedos de tendências estrangeiras colaboram para que o país também seja um arremedo. Clichês e repetição de temas levam à inércia, tornam escritor e leitor pusilânimes, não geram reflexão ou mobilização conscientes, acolchoam a área de conforto. No máximo, geram palavras de ordem.
Românticos, via de regra, conheciam a tradição: rompiam ou se identificavam com seus antecessores com conhecimento de causa; alguns marginais seguem o mesmo caminho: a maioria, no entanto, pensa que está fundando algo totalmente novo; aos críticos que realmente se dedicam a analisar suas obras, respondem que não devem ser avaliados com a mesma régua burguesa que mede a “elite”. Há cerca de um século, argumentos semelhantes foram usados por vanguardistas burgueses. Se há boa dose de razão por parte dos marginais, é fato que há rudimentos da literatura que perpassam qualquer tendência; e mais: quando entendemos o projeto do autor, podemos avaliar se ele obteve êxito ou não. Quando o projeto é obvio demais, a crítica, mesmo aligeirada, acaba acertando com facilidade.


Crítica para quê?
Já respondemos antes, nas palavras de Machado: para guiar o gosto. Mas guiar o gosto nos parece algo demasiadamente autoritário. Machado e seus narradores acreditavam na tolice do leitor; nós, na do consumidor.
Leitor e autor alegam não precisar de intermediários e que a crítica é um amontoado de opiniões pessoais motivadas por inveja e incapacidade criativa. O mito de que todo crítico é um artista frustrado ainda reina entre escritores mal avaliados. É verdade que há muita “crítica” que não é séria, aprofundada ou responsável. Mas também há muito “escrotor” – toda área tem seus picaretas.
Na verdade, a crítica especializada, hoje renegada a universidades, o que traz vantagens e inconvenientes, sempre foi parte do sistema literário. Análise séria e aprofundada não se reduz a comentários superficiais, mas, como diz Machado de Assis, procura alcançar “o espírito da obra”. É um trabalho que exige dedicação e deve servir de ferramenta para os interessados em literatura, especializados ou não.
Crítica não é catálogo ou fábrica de rótulos: ela aproxima autores, promove debates, indica trilhas a serem percorridas ou evitadas – a depender do que o leitor procura – e denuncia golpes, não de modo autoritário, mas como via de acesso ao conhecimento. Crítico não é guia turístico literário, mas alguém que revela as possibilidades. Criticar é ensaiar.
É nesse ambiente que a literatura se desenvolve de modo sadio. Sem que as ideias circulem, cada um fica refém de seu próprio gueto, todos são reféns de jogos publicitários e guerras de egos. O escritor não pode ter pudor de ver sua obra dissecada em público: havendo valor, ela sobreviverá.
A crítica evita que a arte seja diletantismo, fetichismo encerrado em bares e gabinetes. Autores que encastelam seus livros se privam de evoluir, têm visões distorcidas, normalmente exageradas, sobre a própria obra. Mas, como essa crítica se forma?
É evidente que a crítica não pode ter uma única voz. O autor de Provérbios afirma que “na multidão de conselhos mora a sabedoria”. Opiniões antagônicas podem ser complementares. Consenso e silêncio é que não colaboram.
Machado de Assis deu boas lições a esse respeito. Na verdade, mais do que observações sobre obras da época, algumas já superadas – observações e obras – chama a atenção a minúcia com que trata o próprio trabalho de análise literária. O texto mais rico a este respeito é O Ideal do Crítico, no qual Machado deixa claro que o trabalho do escritor não é estanque, mas evolutivo: ele não nasce pronto, não está acabado na primeira obra – salvo os verdadeiros prodígios – e precisa de auxílio para definir seu projeto literário. Vivendo apenas de aplauso ou indiferença, a autoanálise fica bastante prejudicada.
É fácil discordar da crítica desonesta e/ou despreparada; mas devemos saber que o crítico honesto e competente sempre anda um pouco atrás do artista, precisa de um tempo de maturação para entender a obra; rotular de antemão não é interpretar: é impor dogmas.
No século XIX, os modelos artísticos eram menos maleáveis e, consequentemente, a vida do crítico, razoavelmente mais fácil. Hoje, maneira de pensar a arte é mais problemática para críticos que para artistas. As novidades nem sempre são assimiladas prontamente e o descompasso leva anos para se ajustar – isso quando se ajusta. O distanciamento temporal é um grande aliado do crítico: as fortunas críticas transformam qualquer “citador” num belo exemplo da Teoria do Medalhão. Entretanto, obras contemporâneas não precisam aguardar no limbo durante décadas compreendidas. Paciência, apuro, estudo, além de respeito pela obra são indispensáveis para o bom trabalho do crítico; respeito ao autor da obra é sinal de boa educação e não há d atrapalhar.
Para Machado, três defeitos prejudicam fortemente a crítica: indiferença, camaradagem e ódio. Mais de um século depois, a trinca permanece. Muitos escritores, não sendo críticos profissionais, resenham obras alheias, distribuindo beijos e ferroadas. A relação de interdependência entre escritores, editores, livrarias, casas de cultura, programas de fomento à arte, também interfere. O engessamento azedo de alguns críticos, mais ainda.
As universidades, em tese, são mais imunes a essa, digamos, promiscuidade literária, mas nem sempre: há professores que pesquisam e escrevem e traduzem e editam, num círculo vicioso semelhante ao trinômio “miss, modelo e atriz”. Não que essas atividades sejam necessariamente excludentes, mas juntas exigem um exercício de autonomia e liberdade, além de um talento, nem sempre presentes. Não há um Otávio Paz e um Haroldo de Campos em cada campus.
A indiferença pode aparecer quando o crítico rejeita toda e qualquer produção de um estilo, por julgar aquela escola sem valor. São os que, por exemplo, ignoram os saraus de periferia, os letristas de rap, os compositores populares, o cordel. A geração mimeógrafo foi tratada assim em um passado relativamente recente e hoje muitos de seus representantes são publicados em edições especiais, de luxo, coleciona teses a seu respeito.
A camaradagem, doce veneno que impede a sinceridade, transforma qualquer draminha de Leonardo Pataca em angústias dignas de um Hamlet. O aplauso inconsequente faz o escritor se embriagar-se de elogios e lhe rouba a capacidade de refletir.
O ódio é cego para os talentos do inimigo – inimigo, sim! A adesão a estéticas distintas, relações pessoais problemáticas, opções ideológicas diferentes e até por origens sociais antagônicas alimentam o ódio, impedem a reflexão engordam a mesquinharia.
Por tudo isso, Machado aconselha que o candidato a crítico não se dedique a outro ofício; escritores críticos carregam peso extra. Mas críticos “puros” não estão livres da indiferença, do ódio ou da camaradagem, bem sabemos.
A LMF carece de críticos que respeitem essa estética e que a plantem mais fortemente no sistema literário. Precisa olhar para trás, para o que já foi construído na literatura brasileira, e se enxergar como parte da manhã que vem sendo tecida desde lá de trás, e que continuará adiante. Manhã de muitos galos, poetas, romancistas, contistas e críticos.

O Crítico dentro do ficionista
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, marca o início da maturidade machadiana. Nessa época, o escritor teria perdido “todas as ilusões sobre o homem” e o sinal dessa “epifania ao contrário” é o surgimento do defunto autor. Nessa fase, a preocupação com a literatura brasileira não desapareceu, mas acentuou-se e refinou-se na ficção de Machado.
Em 1881, Machado já não atuava como crítico: era ofício de muitos dissabores. Quando analisou O Primo Basílio, por exemplo, sofreu muitos ataques e precisou até escrever um segundo artigo se explicando. Muitos de seus leitores sequer entenderam a opinião de Machado; outros talvez tivessem razão em seus comentários; o desgaste era sempre grande. Machado, então, mascarou suas opiniões na ficção – ainda que fossem máscaras com fendas.
Logo nas primeiras páginas de Memórias, o crítico: Brás Cubas, escritor estreante, se compara ao Moisés do Pentateuco. Ambos, Cubas e Moisés, teriam narrado a própria morte.
Brás Cubas é um narrador ambicioso, mas não consegue escrever suas memórias com a criatividade e o ineditismo que desejara – todos os seu projetos fracassam ao longo do romance. Alardeia que contará sua história a partir do final, percebe incompetente para tanto e, de modo “genial”, “une as duas pontas da vida”, passando do funeral para o nascimento e abraça a cronologia tradicional.
No primeiro capítulo de Memórias Póstumas o recado do crítico é claro: há conflitos entre a vaidade e a capacidade de certos escritores. Comparando-se a Stendhal, Xavier de Maistre e Lawrence Sterne, o narrador prevê o fracasso de público do livro, mas coloca-se ao lado de grandes escritores. A “pena da galhofa e a tinta da melancolia” seriam refinadas demais para os leitores da época.
Machado reclamava da crítica despreparada e dos autores mal-formados, arrogantes, que almejavam figurar entre os grandes, mas produziam trabalhos pífios.
O prefácio de Memórias Póstumas de Brás Cubas também serve como uma espécie de “poética”: entre melancólico e galhofeiro, o autor passaria a escrever menos preocupado com a reação do público do que com a qualidade que pretendia alcançar – contudo, suas histórias ainda continham elementos caros ao público em geral e ao feminino em especial: amores impossíveis, adultérios, moças casadoiras etc. Há nesse novo Machado um projeto literário e o olhar atento para o público.
Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado o marco da segunda fase machadiana, mas alguns contos da primeira fase já indicavam o que viria: A chinela turca, de que falaremos a seguir, 1875; O machete, que veremos mais adiante, de 1878. O primeiro é uma brincadeira com clichês da literatura romanesc;, o segundo, uma arguta observação sobre o conflito entre popular e erudito.
Em A chinela turca, um jovem bacharel apaixonado é impedido de ir ao baile e se encontrar com, a sua amada e se vê obrigado a ouvir “um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo”, major aposentado e diletante sem talento, ler um drama que escrevera.
A obra é maçante e confusa, de um “romantismo desgrenhado”; a inspiração viera após o inseguro autor assistir a uma peça “ultrarromântica”: ambas são passionais, de forte apelo popular; personagem idoso e admirador da escola romântica desconstrói a ideia de que os românticos são todos muito jovens.
A falta de originalidade do drama é denunciada de cara:
Nada havia de novo naquelas cento e oitenta páginas, senão a letra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as ficelles e até o estilo dos mais acabados tipos do romantismo desgrenhado.
No conto, Machado censura autores que repetem fórmulas, copiam estilos, macaqueiam estrangeiros, como já fizera nos artigos; mas aqui a ironia é livre, protegido que está pela ficção. Faz-se a crítica e poupa-se o crítico.
Sequestro, falso padre, casamento, testamento, assassinatos tudo acontece aos atropelos: difícil saber o que é parte do texto lido e o que é fruto do sono do ouvinte, vencido pelo desânimo e pelo tédio.
Os sonhos não têm compromisso com a verossimilhança. Muitas obras ultrarromânticas também não: seus adeptos desejavam fugir radicalmente da realidade e o sonho amenizou o sofrimento de Duarte, o protagonista do conto, durante a leitura chatíssima. Mas a realidade de um baile na companhia de sua amada era algo melhor que qualquer sonho. Em A chinela turca, a inversão entre o pragmático e o romântico é genial: não é a realidade que impede a realização do desejo, mas o sonho torto aliado a uma ficção ruim.
Inicialmente anunciada como peça de grande valor, a chinela turca tem logo sua riqueza desmentida: era apenas uma peça de valor sentimental. Os valores são todos condicionados: o baile, importantíssimo para Duarte, era secundário para Lopo Alves, o autor novel; já o drama representava muito para o autor e nada para a audiência.
Duarte foi chamado para opinar. Sabendo dos benefícios de que desfrutaria se fosse amigável, dada a ligação entre Lopo Alves e Cecília, a amada de Duarte, estava pronto para ser camarada. Bastava repetir elogios triviais que, caso os escrevesse em algum jornal, o tipógrafo já os teria prontos, como diz Machado.
O major diletante não tinha talento e conhecimento necessários para escrever uma obra de valor. João Maria, do conto Habilidoso, tinha talento (discutível), mas, desdenhando do fato de que “toda arte tem uma técnica”, “aborrecia a técnica” “ignorava as primeiras lições do desenho” e mantinha, desde a infância, o “sestro de copiar tudo que lhe caía nas mãos”. Sestro aqui pode ser lido como mania, falha, defeito, tique.
Um dos quadros de João Maria é assim apresentado ao narrador: “inspirado”, após visitar uma exposição, o artista pintou uma cena em que um conde esfaqueava outro conde: “rigorosamente, parecia oferecer-lhe um punhal”. Por ignorar a técnica própria da arte que abraçara, também desconhecia os defeitos de seu trabalho e valia-se apenas da observação, dos olhos, “que Deus deu a todos”. Como também se negara a estudar arte e não tinha entre amigos e familiares pessoas que entendessem de pintura, seguia valendo-se apenas do gosto, do instinto e dos elogios sem critério de quem o rodeava. Assim, criava confiando apenas no “gênio do artista”, termo que ignorava e por isso usava sempre habilidoso.
João Maria é dono de uma loja de trastes velhos em um beco. É bonito, mas descuidado, pois “a vida estragou a natureza”. Vaidoso, mas sem conseguir o respaldo da sociedade, contenta-se em pintar diante das crianças obres do beco, enquanto sua esposa e seu filho vivem na absoluta miséria. A vaidade do pintor é equiparada à da menina que, no início do conto, vem exibir um penteado à janela. Pintor e menina, igualmente ingênuos, buscam a admiração alheia.
Habilidoso bate pesado nos exageros de dois excessos da arte,bem observáveis na literatura ainda hoje: excesso de confiança no gênio e a ideia de que observar e reproduzir a realidade basta. A preguiça, que impede o artista de aprimorar seus talentos, e a vaidade, que sufoca a auitocritica, são apêndices dos defeitos.
A tentativa de João Maria de alcançar o trágico resultou no prosaico; isso costuma acontecer a autores que, desdenhando tradição e técnica, buscam retratar a realidade mediante “inspiração & sensibilidade” e entregam clichês mal-acabados, previsíveis.
Em Habilidoso, Machado também demonstra o que a falta de uma crítica especializada faz. Apenas o aplauso condescendente do povo não é suficiente. Sem ser posto de fato à prova, João Maria buscou maior reconhecimento apenas no público leigo e nem aí o alcançou; em vez de estudar, passou a contentar-se com a curiosidade das crianças do beco; em vez de trabalhar, abraçou a miséria.
Muitos escritores fazem opção semelhante (excetuando o abraço da miséria). Contudo, alguns alcançam reconhecimento do público condescendente e desprezam a crítica especializada, alimentando-se da própria vaidade e de tapinhas nas costas, desperdiçando o talento, caso haja talento.
Talento e senso crítico faltavam a João Maria e sobravam em Mestre Romão, personagem de Cantiga de Esponsais. Admirado por todos, Romão, por ser maestro de renome, sabia o que era pertinente em termos de música.
No entanto, passou a vida tentando compor uma única canção e morreu sem conseguir. Segundo o narrador, “há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas”.
Romão padecia de uma moléstia cruel que acomete a muitos que se sensibilizam com a arte: a esterilidade. A sensibilidade não se materializava. Entretanto, era ciente de suas limitações e incapaz de se contentar com pouco, diferente do habilidoso João Maria, cuja vocação tinha língua, mas era afásica. Nem todos os alcançados pela arte são necessariamente artistas. Nem todos que leem poemas são poetas. Machado não vislumbra cura para esse mal; melhor mesmo seria resignar-se. João Romão só descobriu isso momentos antes de morrer.
Outro músico, compositor, reconhecido pelo grande público, também sofria entre a vocação e o desejo. Pestana, de Um homem célebre, tinha vocação era falante, verborrágica, mas que ia de encontro às suas pretensões.
Célebre por causa de suas polcas, Pestana desejava compor algo que, diferente das músicas tão populares quanto descartáveis que fazia, ficasse eternizado. Sua ambição era bem maior que a de Mestre Romão, que desejava apenas compor.
Nos parece que a relevância da cultura de massa perdia peso para Machado de Assis diante da arte dita erudita. Apesar de não desdenhar completamente da cultura popular e/ou de massa, o Bruxo do Cosme Velho, que se servia do universo popular em sua obra, preferia claramente a arte vista como “elevada”. Em Um homem célebre, as polcas são tratadas como algo inferior pelo próprio compositor, e também pelo narrador: elas são um bom recreio, divertidas, mas nem seus nomes querem dizer alguma coisa, nem elas são feitas para durar: haveria uma arte mais elevada, durável, séria. Aproveitando a liberdade que o gênero ensaio nos dá, cravamos um juízo de valor: algumas vertentes de axé music e do chamado funk carioca seriam a “evolução degradada” das polcas do século XIX.
Pestana costumava gostar de suas composições enquanto elas nasciam – e eram compostas muito rapidamente – nos primeiros dias de execução pela cidade, depois passando a odiá-las.
Sempre houve escritores vocacionados para o popular ansiosos por reconhecimento “embasado”; entre eles temos poetas românticos contemporâneos ou pouco anteriores à época de Machado. Contudo, nos parece que era mais comum, e mais desagradável, escritores que viam em suas obras efêmeras faíscas de genialidade. Também havia, e há, escritores que, sendo brasileiros sob todos os aspectos, buscam criar peças totalmente inspiradas em paisagens e sentimentos estrangeiros, adaptados forçadamente ao ambiente local, produzindo efeitos demasiadamente artificiais; outros, olhando para o mercado externo, criam histórias que se passa no exterior, ou exageram na cor local, para agradar aos leitores sedentos de exotismo.
Pestana não buscava a artificialidade e seu exotismo pessoal era espontâneo, mas sofria com seu conflito: não ia além das polcas feitas em escala quase industrial, para consumo rápido, cujos nomes tinham apenas de ser engraçados ou fazer referência a algum acontecimento recente, ou seja: deveriam ajudar a vender.
O ar grave que o compositor ostentava, cabelos compridos, olhos fundos, todo ele vestido de negro, contrastava com a alegria de suas músicas; sua ambição destoava de seu talento.
O desejo de Pestana nunca se realizara. O máximo que conseguiu foi, achando criar algo totalmente original, reproduzir uma melodia que se escondera em suas recordações. Dos best seller aos saraus, isso é muito comum: mas nem todos são nobres como mestre Romão e João Pestana.

Encerrando
A música foi um excelente artifício usado por Machado de Assis para exercer sua veia crítica dentro da ficção. Não que ele se especializasse em analisar polcas, valsas e óperas; mas com sua famigerada habilidade em trabalhar a ambiguidade, Machado presenteia o leitor com suas reflexões sobre o fazer artístico.
Nesse sentido, é emblemático o conto O Machete. Nele, não há somente reflexões sobre a relação entre a música erudita, representada pelo violoncelo, e a popular, encarnada no machete: a própria sociedade que estava sendo formada lidava com essa relação, e a literatura não escapou. A ideia de compor um concerto para violoncelo e machete soa absurda para os personagens – e inusitada para os leitores da época, muito anterior à antropofagia. No conto, há um triângulo amoroso, onde uma jovem casada com o violoncelista apenas admira a sua arte sem compreendê-la profundamente, mas que se encanta com o machete, a ponto de apaixonar-se pelo seu dono e fugir com ele. Há um respeito maior pelo erudito, clara preferência machadiana, mas o popular se impõe. Ao mesmo tempo, a timidez excessiva do violoncelista abre espaço para machete e “macheteiro”. Talvez, melhor mesmo fosse a conciliação, que nos daria algo mais original. Ah, se o violoncelista fosse menos isolado e mais observador de sua sociedade, mais disposto a “misturar-se”, quanto sofrimento seria poupado. LMF, crítica: o que querem, o que podem?

Esclarecendo
30 mil caracteres nos sufocaram; o texto teve mais da metade extirpada, engavetada para outros momentos. Por isso, as notas de rodapé foram dispensadas.
As fontes de consulta foram: Alfredo Bosi (A máscara e a Fenda, Folha explica Machado de Assis), Raymundo Faoro (A pirâmide e o trapézio); a crítica machadiana foi lida na internet e nas Obras completas da editora Nova Aguiar, de onde também tiramos Habilidoso; os demais contos, mais o ensaio de John Gladson, O machete e o violoncelo, da coletânea de contos da Companhia das Letras, em dois volumes. Os romances foram lidos em várias edições diferentes.

sábado, setembro 03, 2011

Bodas de papel?


A louça mergulha na espuma
E a gordura se espalha pela cuba
Da chaleira a água grita
Querendo mergulhar no arroz

E o amor diário posto à mesa
Servido quente como pão fresco
Areja o que eu penso
Ser o casamento.

sexta-feira, setembro 02, 2011

A poesia do poema de João Cabral


Aquela não é a poesia de João Cabral
Mas é o poema de João Cabral
Sem poesia

Aquele poema de João Cabral
Sem lágrima ou brisa é João Cabral
Vem do rio

Aquele ritmo de João Cabral
Capiberibe, cão,
João Cabral, Severino

Apenas construída tua obra?
Compasso, esquadro e marreta?
Sem sorriso...

É parede o que faz João Cabral
Concreto, tijolo e aço,
Madeira que mal respira
Sem música, ao vento irrita

Muito feia parede, João Cabral
É feiura que feiura grita
Esgarça o mundo sem pluma
Esconde a beleza morta que vibra
Na alma do homem sem riso, sem rio

Feiura entalhada que é vida
Vibrando na corda que rima
Teimar, puro verso que é lindo
Teu poema, a poesia
João Cabral...

terça-feira, agosto 23, 2011

O universo em sete linhas

entendo o mundo como ele é assim:
purulento de pecados, para dele nos libertarmos;
encharcado de amor e beleza, para nele nos entranharmos.

o que passar disso
que eu desconheço
é o mais divino, onde estremeço.

segunda-feira, agosto 22, 2011

release canto periférico


canto periférico trata-se do livro de estreia de Pedro Borges, paulistano, 35 anos, que atua como professor e revisor; com texto de quarta capa e aval do escritor, roteirista e dramaturgo Fernando Bonassi, e apresentação e elogio de Teresa Cristófani Barreto, professora doutora do curso de Letras (FFLCH), da Universidade de São Paulo.
Os contos aqui reunidos debruçam-se sobre o contingente das figuras marginais, dos cidadãos esquecidos, levando o leitor a deslocar sua atenção de seus eixos individuais para esses coadjuvantes. Se esquecidos pela sociedade, lembrados pela literatura, na voz de Pedro.
Sem pedantismos ou uma abordagem repetida da questão social, os textos retratam com sofisticação e franqueza esses personagens secundários. Faz bom uso da ironia, sem perder a seriedade, estimulando no leitor uma confusão de sensações, que acha graça, mas não sem o fardo e sentimento de culpa dos cúmplices.
Se, no entanto, escolhe especificamente o grupo dos periféricos, trata de problemas que extrapolam os limites dessa categoria e que concernem a todos nós: a crescente e inescapável solidão a que a vida moderna nos condena. Aqui as companhias são apenas aparentes, os relacionamentos permanecem latentes e não se concretizam – ou quando acontecem, não são capazes de nos salvar da solitude – e onde os artistas e suas criações reivindicam seu reconhecimento, que por vezes vem, mas chegam e permanecem somente, sem alterar a condição de isolamento do indivíduo, que é um e que somos todos nós.
Os textos, todos já com forma e conteúdo, ideia e expressão, sons, traços, conforme atesta Bonassi, encontram seu par nas ilustrações que os acompanham, criadas por Daniel Argento especialmente para os parágrafos de Pedro.
Daniel, 24 anos, desenhista e estudante do curso de Editoração (ECA), da Universidade de São Paulo, tem sua primeira experiência com ilustração para literatura adulta em 2005, para uma revista literária experimental. Em 2008, ilustrou um livro de realismo fantástico para a Com-Arte. Ademais, já trabalhou com ilustração infantil, além de colaborar com jornais. Para o rico resultado que alcança em canto periférico, não foi sem criatividade que se dedicou, desde a escolha dos materiais: pasta de cera de carnaúba, tinta acrílica, pó xadrez, nanquim, uso de colagens e ainda fotomontagem digital para as ilustrações das orelhas. É essa ampla variedade, assomada da inspiração suscitada pelo texto, que torna possível as tantas combinações, os surpreendentes matizes e o coerente arremate.
canto periférico chega para compor a série Primeira Impressão, dedicada especialmente a autores estreantes e promissores. A obra é, assim, o primeiro ponto de uma linha literária a ser traçada por Pedro Borges, uma linha que promete perturbar as nossas, tirando o leitor de seu eixo e fazendo-nos repensá-lo.

terça-feira, agosto 16, 2011

Da frustração

A garra
Um temporal
De afiadas cimitarras
Escarrava chagas
Na meiguice rubra
Dentro do peito
Agora
Áspera luva
Cospe arranhões
Na carne da alma
Amanhã
Onde houver tato
Beijará cócegas
E a sombra de alguma dor antiga

sexta-feira, agosto 12, 2011

o homem no deserto negro de estrelas
(nenhuma noite é feita para a solidão
como nenhum homem é feito para a morte
como nenhum amor é feito para ser rasgado)
dentro do seu quarto
guarda numa caixa
o sonho a ser acalentado no dia seguinte:
o beijo roubado da mulher séria
a dignidade radiante, que se esconde
atrás dos trocados contados
assim como o poema se esconde na página branca
(nenhum verso é feito para ser borrado
como nenhuma palavra é feita para o dicionário
como nenhuma arte que se preze é feita para o gabinete do erudito crítico, do
[venerável acadêmico ou para a lousa do antipático
[professor)
o homem
no cemitério dos sonhos
guarda entre as estrelas
tudo aquilo que não cabe numa caixa.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Poesia sem bola

pois nem há verso possível
de alinhavar os caminhos
da bola que vai

ante

dá-lhe pé
dá-lhe pé
dá-lhe
pé dá-lhe

quinta-feira, agosto 04, 2011

Prece esporádica

Só quero ser
Expresso & Espesso

Espelho impresso
Esperando que os seres
Se encontrem em mim
Defrontem-me
Deformem-me

E quero ainda mais
Nadar no macio das luzes
Sem fim
Nem mim
Amém.

terça-feira, junho 21, 2011

A dor e a delícia de aprender

Seguindo proposta de Madalena Freire, tentei resgatar meu processo de alfabetização. De cara me espantei por ter aprendido a ler: trata-se de um verdadeiro milagre! Como uma série de “desenhinhos” que não significavam nada – nada também não: eram a porta de acesso a sonhos e histórias que muito me interessavam – passaram “de repente” a representar sons e palavras? Voltando no tempo me deparei com esforço tremendo, uma luta nem sempre prazerosa, nada natural – hoje sim, ler e escrever é natural e necessário.
Todo mundo gosta de dizer que aprendeu a ler com muita facilidade, os pais se gabam dos filhos que já chegaram na escola alfabetizados, como se fossem possuidores de um talento nato, ou incorporassem algum tipo de exu caça-palavra. Em contrapartida, aqueles que tiveram um percurso mais árduo para ler, se envergonham, por serem classificados como menos inteligentes, incapazes, preguiçosos. Não raro, carregam pela vida o estigma de limitados e aprendem desde cedo a ver a si mesmos como inferiores, o que justifica que fiquem do lado de baixo da pirâmide sociocultural, enquanto os “mais sabidos” ocupam os principais lugares.
Grande choque foi perceber que minha alfabetização foi bem difícil, embora, ao final do primeiro ano eu já soubesse ler e escrever. Lembro as tardes de choro e ranger de dentes sobre os cadernos amarrotados, borrados pelas minhas lágrimas, o esforço hercúleo de minha mãe para que eu fizesse a lição de casa, as reclamações da família e da professora por causa de minha letra horrorosa – que não mudou nada desde então – os trabalhos extras no caderno de caligrafia, quanto sofrimento, meu Deus!
Porém, duas coisas especiais vieram do canto das memórias apagadas para iluminar minhas reminiscências sobre o aprendizado da escrita. Lembro que antes de entrar na escola, meu grande sonho por causa da minha irmã mais velha que contava maravilhas do lugar cheio de coisas especiais, eu já aprendera a escrever, e sozinho! Não, não eram textos ou palavras complexas; na verdade era uma única letra, que consegui desenhar na lousa que havia em casa, onde a gente brincava de escolinha. Numa manhã chuvosa, para fugir do tédio, fiz um “A” maiúsculo, de fôrma, com o giz deitado – o giz na posição mais usual é uma ferramenta de difícil uso para mim até hoje.
Grande êxtase. Chamei a mãe para ler o meu texto, esperei a irmã chegar para mostrar. A lousa permaneceu imaculada até alta noite, quando meu pai chegava do segundo emprego, para ele ver que eu já sabia escrever! Ninguém menosprezou aquela minha aptidão recém-adquirida – na minha cabeça o “A” era perfeito, idêntico ao que eu via nos livros e revistas que folheava, nos cartazes que admirava pelas ruas – meu “talento para as letras” foi louvado. Acho que foi ali, quando ganhei meus primeiros leitores, que nasceram, ao mesmo tempo, o professor e o escritor, gêmeos idênticos, siameses.
A segunda lembrança durante o exercício de memória de Madalena Freire são as experiências de leitura, não das palavras escritas, mas de outras coisas mais poéticas: eu sabia desde pequeno ler o céu!
Em casa era muito comum ficarmos olhando para o céu, deitados no quintal ou debruçados na janela, observando as nuvens e os desenhos que elas formavam. Havia animais, prédios, Deus, gigantes, botas, martelos, bigornas, Papai Noel, anjos, Netuno num trono, super-heróis, árvores, ônibus e mais um monte de coisas que eu conhecia pela televisão ou andando pelas ruas.
Quando anoitecia, nosso texto eram as estrelas (ainda podíamos admirá-las na periferia de São Paulo) que também alimentavam a imaginação: Deus brincando entre as luzes, heróis e anjos duelando com monstros. Na Lua eu procurava São Jorge e o dragão, que todo mundo dizia enxergar. Marcava para breve minha viagem pelo espaço, para conhecer planetas, ETs, diziam que isso seria comum antes de chegar o ano 2000. Lia o que a televisão e as histórias contadas me ensinavam, escrevia outras pelos céus.
Antes de aprender as letras, eu já sabia, instintivamente, que além do texto, existe um subtexto que precisa ser decifrado, e que há um prazer na leitura que está naquilo que as palavras e formas não mostram, mas que alimentam a imaginação; ler não era apenas aceitar o que o texto oferecia: era, sempre, produzir um novo significado. Ler era, ainda que só mentalmente, entender bem para poder reescrever.
Aprender pode ser muito difícil, penoso e, muitas vezes, gerar algum prazer apenas depois de passarmos alguns bons momentos de sofrimento; mas a experiência da descoberta sempre, eternamente, uma delícia.

quinta-feira, maio 26, 2011

CQC e as opiniães

Não sou fanático, mas gosto de assistir ao CQC, que me distrai e até presta algum serviço. É bem verdade que há algo de arrogante, grosseiro e demagógico por parte de alguns de seus integrantes; mas, em tudo na vida, a gente precisa aprender a reter o que é bom. E, para o padrão atual da televisão, em especial da aberta, o programa se destaca.
Na última segunda-feira, 23 de maio, mesmo retendo o que foi bom, o CQC me incomodou muito mais do que divertiu. Dessa vez, não foram comentários infelizes sobre suicídios e orfandade, tampouco as piadas escrotas sobre pessoas feias e/ou sem estudo que os homens de preto costumam cravar em stand up comedies e twitter. Os repórteres do CQC, nem sempre tão espertos e descolados, resolveram fazer piada e pseudocrítica sobre uma cartilha da Ação Educativa, aprovada pelo MEC, que lidava com diferentes registros linguísticos.
Gosto de acreditar na boa fé das pessoas e tenderia facilmente a supor que os rapazes do CQC leram a tal cartilha e não entenderam nada. No entanto, isso me forçaria a supor que o grau de letramento deles é muito baixo, posto que o texto é claro e claríssimo. Ao contrário do que afirmam – não só os repórteres do referido humorístico, mas boa parte da imprensa – o texto não coloca todas as variantes linguísticas em um mesmo nível e para os mesmos usos, tampouco afirma que, em matéria de comunicação, “tudo é válido”. Após afirmar que podemos dizer algo como “os livro”, a cartilha avisa que não devemos fazer isso em todas as situações. Antes, informa que a escrita tem normas distintas da fala, reforça que as pessoas que têm acesso à educação formal tendem a se aproximar mais da norma culta e que a falta de trato com esta (essa?) norma pode nos fazer vítimas de preconceito linguístico. Os responsáveis pelo tão criticado texto, está claro, não estão bradando que podemos “falar errado”, como os integrantes da trupe do CQC fizeram crer – e como falam, se cairmos nessa (nesta?), ingenuidade de certo e errado, os integrantes do humorístico. Eles mesmos, estou certo, usam frases como “chama ele”, “pega ela” “beijou ele”, começam períodos com construções do tipo “Me fala”, “Me dá”, “Me ajuda” “Te falei”, misturam segunda e terceira pessoa do singular “se você me der uma entrevista eu não te esculacho”, conjugam erradamente alguns verbos, como em “se eu ver” em vez de “se eu vir”, usam “queria” no futuro do subjuntivo, quando o correto seria “quereria” e outras tantas construções que, a depender do contexto em que surgem (um programa de humor, por exemplo) são perfeitamente aceitáveis, dada a informalidade da situação. O “chato” é usar o registro informal não por opção, mas por ignorância. O modo de falar dos repórteres do CQC pode ser considerado uma perfeita aberração. Saber usar o plural corretamente não equivale a proficiência quando o assunto é normal culta do português.
Logo após a matéria sobre o caso da cartilha, onde nenhum especialista no assunto foi consultado, assistimos a um comercial de cerveja com a participação de um repórter do CQC. Nele, ouvimos um famoso e carismático cantor afirmar: “Agora, é meio-dia e meio”. A ideia era fazer um trocadilho com o termo e-mail. Oras, para se fazer uma piadinha, para faturar bem, a norma culta pode ser arranhada sem o menor problema. O ambiente completamente informal – um bar, um anúncio de cerveja, um programa de humor – são ideais para o uso corrente do padrão informal e aceitam erros e “erros”. A cartilha criticada afirmava exatamente isso. Mas, cá entre nós, será que o redator e as demais pessoas envolvidas na elaboração da peça publicitária sabe que cometeu um “deslize” de acordo com a norma culta?
Em outro comercial, outra integrante do CQC nos avisa que não ter tempo para estudar não é problema: basta se matricular nos cursos à distância de uma determinada faculdade que o problema estará devidamente solucionado. Engana-se a jovem humorista-repórter. Estudar, seja à distância, seja de modo presencial, exige tempo, dedicação, curiosidade e esforço. O diploma é que pode vir sem nada disso, apenas pagando mensalidades baixas e ainda levando um tablet como brinde. Em instituições de ensino desse tipo, que oferecem facilidade não requerem esforço e não prometem qualidade, no máximo, se aprende a usar o plural corretamente e a fazer perguntas tão despropositadas quanto a que a mesma repórter-humorista-garota-propaganda faz na matéria sobre a tal cartilha: “Se tudo está certo, para que estudar português?”. Aprender português apenas para decorar regras e assimilar o óbvio é o de menos. Refletir sobre o idioma materno, saber usá-lo de forma rica, variada e precisa, é coisa que, parece, a repórter não sabe muito bem. Alguns chamariam isso de ignorância da mais elementar. Eu não chamo de nada, mas lamento que, a não ser pela desonestidade da matéria, que pretendeu endereçar críticas rasas ao governo federal – há tantas críticas legítimas aguardando por serem feitas, pra (para?) que usar factoides? – as críticas não se justificam, pautadas no senso comum que estão. O senso comum, bem sabemos, funciona, mas é consideravelmente falho para ser plenamente confiável. Os responsáveis pelas críticas à cartilha da Ação Educativa, imagino, com seus plurais perfeitos – será? – não são capazes sequer de entender a afirmação do jagunço Riobaldo, personagem antológica de Guimarães Rosa: “pão ou pães, é questão de opiniães”. Seria um dos maiores escritores de língua portuguesa alguém desinteressado das normas lingüísticas ou um inculto que desconheça o plural de opiniãio?

segunda-feira, maio 16, 2011

pombinhos

um abismo paira
sobre a king-lama
que descama

o poço,
do fundo
deságua pro deserto

muitas portas em meus olhos
entre os dedos, fechaduras
sem clave ou bemol

nos ouvidos, avenidas e o silêncio
e eu mesmo, inviolento
desaprumo, esgarço o rumo

já tão cedo e amar é nada?

há que se renascinventar
rasgar pelo avesso a realidade
agasalhar-se em retalho de arte

derramar o amor, a dois
antes que cedo ou tarde

segunda-feira, março 28, 2011

centro excêntrico

Centro excêntrico
eu não quero só um sonho
debaixo do cobertor
bem quentinho, acomodado
eu não quero ser real

não quero virar a mesa
jogar no ventilador
o que tenho de medonho
eu não quero ser normal

não quero bater cartão
dançar no temporal
não sei levantar bandeira
nem único, nem tal

não sei as regras do jogo
não posso trapacear
as ogivas de um milagre
tenho aqui no meu quintal

minha meta eterna infância
sem fronteira, IPTU
tudo vira brincadeira
tudo fica natural

sexta-feira, março 25, 2011

a carne em três fatos



Ribombando
chácara, futebol
Sol
Churrasco
chuteiras, meiões
carne, gelo, bola
linguiça, gramado
caipirinhas
decotes, espetinhos
cerveja
coração asa e coxa
refrigerantes, trombadas
e batidas
toalha de mesa ,suor, queijos e pães
paixões
picanha, amizades
e lascívias
as migalhas à vista
a gordura das carnes
a ternura dos nervos
caneladas
dedos brilhando
o fogo, o álcool, a finta
as paixões, zero a zero
vinagrete, a bola na trave, um grito
e o sorriso
a chacota, o vestido, a falta
e o medo
rápida nuvem chumbo:
um raio escarrado na cara do sujeito
pra que tanto carvão, meu Deus?

Reverberando
O raio é o escarro dos céus

Repercutindo
O divino jamais escarra
Mas de vez em quando vomita

segunda-feira, março 21, 2011

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA IV

Maria Bethânia
Ninguém duvida da competência e da sensibilidade dessa cantora baiana, campeã de vendas de discos no Brasil, respeitadíssima; uma de nossas maiores cantoras, certamente. Sua nova prova de genialidade foi conseguir do governo mais de um milhão de reais para manter durante um ano um blog com vídeos de declamações de poemas. Este blog que você lê agora é mantido gratuitamente, prova de nossa imensa burrice. Bethânia arrumou um jeito de animar aqueles cafonérrimos papéis de paredes e Power-points que nos enviavam no período paleolítico da internet, ao mesmo tempo em que arrumou uma boquinha para si e para Andrucha, um camarada seu aí.

Jardel
Na verdade, não sabemos a verdadeira origem da frase que citaremos a seguir. Jardel seria apenas um dos candidatos mais verossímeis a verdadeiro autor: “Clássico é clássico e vice-versa”. Os poetas concretos não fariam melhor.

Polícia fluminense
A primeira desculpa que escorreu pela imprensa brasileira para explicar o sumiço dos principais cabeças do tráfico que moravam, mandavam e desmandavam em Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão foi a suposta fuga pelo sistema de esgoto local. A Companhia “responsável” pelo “saneamento” básico local logo informou: não há sistema de esgoto no local.

quarta-feira, março 16, 2011

Olhar torto para o comum
E arrancar-lhe maravilhas
Meu verso
Não tem essa poesia

Praga Digital

Quando a tecnologia avança, a nossa vida fica mais prática. Mas isso apenas para pessoas práticas: para os outros, as conquistas da ciência servem apenas para empilharem preocupações e problemas novos.
Sábado passado fui a um casamento. Local lindíssimo, buffet elegante, clima amenamente agradável. Entretanto, algo, ainda na cerimônia, me irritou imensamente: o casal, que poupou bastante e pensou em tudo, contratou uma equipe com três fotógrafos e um cinegrafista, o que certamente era mais do que suficiente para que a cobertura do casamento estivesse a contento e que poucos detalhes escapassem; mesmo assim, um verdadeiro mar de câmeras digitais era sacada a cada segundo enquanto seus donos atravessavam, sem a menor cerimônia, a visão dos outros convidados, disputavam a cotoveladas espaço com os profissionais, bancavam o paparazzo amador.
A facilidade proporcionada pelas câmeras digitais, fáceis de carregar, que dispensam filme e até mesmo o papel, que permitem tirar milhares de fotos em pouco tempo e registrar a eternidade de momentos, colocou nas pessoas a falsa impressão de que todo mundo é fotógrafo, de que tudo ao nosso redor é tremendamente especial e de que é mais importante registrar do que viver. Alguns dos “fotógrafos” no tal casamento estavam tão ocupados fotografando, atrapalhando os profissionais – que estavam visivelmente incomodados, precisando pedir licença pra poderem trabalhar e apresentar algo que valesse o que receberam para entregar – que sequer compartilhavam a alegria do casal e ainda irritavam os demais convidados, que pouco puderam ver.
Todo o excesso banaliza. Quem sai imortalizando tudo, torna a imortalidade um tédio, pois não terá tempo nem espaço para guardar tanta foto, além de perder a noção do que realmente foi especial. Claro que um casamento de alguém querido é um momento importante e até merece que tiremos ALGUMAS fotos, fora as “oficiais”, que constarão no álbum do casal. No caso do casal do sábado passado, desejamos votos de eternidade matrimonial, e achamos mesmo que assim será, mas há casamentos que duram bem menos que o tempo que levaríamos para ver todas as fotos tiradas pelos convidados.
Outra coisa: mais importante que registrar o momento, é vivê-lo. Soube de um casamento em que um dos padrinhos entrou fotografando os convidados. Além de chamar a atenção para si, ofuscando os noivos, maculou as fotos do álbum de casamento e não aproveitou plenamente um evento tão legal quanto o de fazer parte da história de amor de um casal. Talvez, entre as dificuldades potencializadas pela tecnologia das fotos, apenas a vontade de aparecer em excesso seja mais irritante que a vontade de registrar tudo ao redor. A combinação das duas, que faz das pessoas eternos turistas da existência, é algo simplesmente insuportável.

sexta-feira, março 11, 2011

mera explicação

Por que a palavra?
Ela dá voz ao grito
Som ao vácuo
E ar ao fogo
Como se não bastasse
Ela cria o mundo todo
De novo...

quinta-feira, março 10, 2011

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA III

Gilberto Kassab
Venceu uma eleição, entre outros motivos, porque dava 3Kg de leite para os alunos da rede municipal e porque prometeu não aumentar a tarifa de ônibus durante um ano. Eleição ganha, promessa cumprida, reduziu a quantidade de 3Kg para 2Kg e aumentou o preço da tarifa com juros e correção monetária. Enquanto os estudantes protestam, a polícia desce a borracha em manifestantes e vereadores e o caudilho do viaduto do chá preocupa-se em mudar de partido. Enchentes? Até as eleições a água já baixou...

Marcelo Camelo
Cingiu com maestria pastosa rock, samba e outras modalidades da música popular, com resultados variados, mas quase sempre tendendo para a flacidez, seja na voz, seja na poética. É autor de dois dos mais controversos versos dos do século XXI, com imensa carga autobiográfica: “vem cá, que tá me dando uma vontade de choraaaar” e “todo o dia o ninguém José, acorda já deitado”.

Frei Damião
O distinto clérigo é acusado de “sugerir” que católicos devotos e fervorosos incendiassem igrejas evangélicas. Mesmo assim, entrou para a história como santo caridoso.

Marcus Feliciano
O pastor da Assembleia de Deus disse que a língua portuguesa tem mais de dois milhões de palavras! O VOLP contém apenas cerca de 390 mil. O religioso não revelou suas fontes linguísticas, tampouco seus critérios para chegar a tal número.

Tia Lilica
Costumeiramente reclama do feirante que lhe vende a garapa geladinha: “Ele coloca açúcar demais!”.

A mulher dentro da bailarina

Ciranda da bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, está na estante cerebral de muita gente. De vez em quando citamos seu refrão e a motivação pode ser a inveja de alguma pessoa aparentemente – e irritantemente – perfeita. A canção também é trilha dos pensamentos que temos sobre pessoas que idealizamos, mulheres, quase sempre. A namorada ainda em estado de paixão absoluta, a colega de escola com dentes perfeitos e tímida – a timidez, nas mulheres bonitas, é um bom ingrediente para torná-la uma “bailarina” – a irmã mais velha e bonitona do melhor amigo etc. quando envelhecemos, a filha, a sobrinha, a neta se tornam nossas bailarinas – irmã, especialmente irmã mais velha, nunca será bailarina, que ninguém pode idealizar a irmã, a não ser que ela não conviva conosco regularmente. Todos temos as nossas bailarinas que não têm defeitos e cujas qualidades a adornam de um modo único.
Eu também idealizei muitas mulheres. Professoras atenciosas e pacientes, tias amáveis, paixões platônicas, incluindo as que depois se concretizaram, todas foram, com a convivência, caindo da corda bamba, tropeçando nos próprios dedos, errando os passos da coreografia, despencando do tablado. Mas nada disso era necessariamente ruim: passada a natural frustração, todas as bailarinas se tornam pessoas comuns, frágeis em algum aspecto, fortes em outros e, alternando qualidades e defeitos, passaram a ser mais acessíveis, por vezes até o nível do intragável. O problema da bailarina é que não a alcançamos plenamente, não conseguimos perceber de verdade quem ela é; quando descem da sapatilha, ficam ao alcance da mão, da crítica, da realidade e é exatamente aí que deixam de ser perfeitas. Antes que passemos a amá-las, ao menos algumas delas, como serem mortais, passamos um período de latência, tristeza, desamparo.
A penúltima bailarina da minha vida – ao menos até agora – foi a que hoje é minha esposa. A idealização que eu fazia dela foi motivo de muitos problemas de convivência entre nós, no começo do namoro: suas crises de TPM, suas insatisfações, suas opiniões por vezes tão diferentes das minhas, me assustavam e o quadro que pintei sobre ela e sobre nós dois, com anjos dizendo amém para o nosso amor (argh!!). Ela, definitivamente, não é um anjo, mas uma mulher especial, generosa, bem-humorada, companheira, por vezes irritante e irritável, corintiana e que nem sempre guarda as coisas nos lugares mais tradicionais – sequer costuma se lembrar de onde as guardou. É a pessoa que torna a minha rotina, especialmente nos períodos mais angustiantes, suportável e válida; ainda que não seja a causa, ela é a imagem da minha esperança.
Uma das provas de que a bailarina errou o passo é a aquisição do primeiro namorado. Afinal de contas, segundo Chico e Edu, esse tumor tirado de um maruá é coisa que “só a bailarina que não tem”. Pois a minha única sobrinha está namorando.
Eu aprendi a idealizá-la assim que ela saiu da infância, com todos os dengos e manhas de única sobrinha, única neta, única criança da casa, e passou a ser uma adolescente simpática, bastante tímida e, acima de tudo, esperta e amável. A partir daí, para mim, ficou impossível dar uma bronca, chamar-lhe a atenção por qualquer motivo que fosse; pior: ela não me dava motivo algum para não me orgulhar, para não admirá-la, para sentir um amor de outra modalidade, nobre, doce sem ser melado, juro!
O fato de essa garotinha estar namorando, não muda, não pode mudar o carinho e a admiração que sinto. É a prova irreversível de que ela está em um processo de amadurecimento, de crescimento, como, aliás, acontece com todos os seres vivos e saudáveis. Despertou em mim uma melancolia, um sentimento de perda, que eu não sei até que ponto será real, além de um ciúme e um estranho hábito de manter as facas da casa sempre afiadas entrar para a ONG Animal castrado é animal feliz. Minha sobrinha, que sempre me ensinou porções de coisas – como a não dar bola para o rancor, por exemplo – me faz perceber mais uma vez que amar é acima de tudo não idealizar. Entre bailarinas e mulheres, estas são sempre melhores.

sexta-feira, março 04, 2011

A assunção de Itamar

A assunção de Itamar
Itamar não era deus nem orixá
Foi menino cerebral
Que corria pela várzea das rimas
Enquanto costurava melodias,
Brincava no quintal das palavras
E tudo ao seu redor vibrava.

Itamar era de cantar
Vanguardava a beleza
Peraltava a alegria
Era mar viva poesia.

Foi-se embora mais cedo
Num cometa dito negão
Itamar foi, mas é
Itamar é
Itamar é não

quinta-feira, março 03, 2011

Ziraldo, Lobato e o racismo sem ódio

Semana retrasada acompanhei de longe uma polêmica provocada por Ziraldo, que, em defesa de Monteiro Lobato teria dito que “racismo sem ódio não é racismo”.
Gosto muito do Ziraldo, especialmente por conta de seu trabalho com a revista Bundas e no relançamento do jornal Os Pasquim, dois projetos editoriais que, na minha opinião, até que eram bons, mas naufragaram por questões editoriais, mercadológicas ou coisa do tipo. Gostar do Ziraldo, no entanto, não me impede de reconhecer que ele, assim como outras pessoas que admiro muito, como Pelé, que não reconheceu uma filha, Machado de Assis e Lima Barreto, que desprezavam a cultura popular, sendo que este ainda por cima odiava futebol, mesmo defeito de Graciliano Ramos.
Jorge Luis Borges era aristocrata e elitista ao extremo; Caetano Veloso apoiou FHC; Marília Pera e Claudia Raia foram entusiastas de Collor; Hebe Camargo é malufista; Jorge Kajuru é fã de Hebe Camargo; minha esposa (ó, angústia de amar a adversária) é corintiana.
A pequena listinha é para dizer que podemos, e devemos, para o bem da convivência suportável, respeitar, ou amenos suportar, opiniões divergentes e as contradições que cada um traz. Mas a defesa formulada por Ziraldo, seja pela tese descabida do “racismo sem ódio”, seja pela ilustração entre bem-humorada e sexista que o cartunista fez para as camisetas de um bloco carnavalesco do Rio de Janeiro, passou, e muito, de qualquer limite.
Monteiro Lobato é um escritor que, com sua obra para crianças e adolescentes, participou da formação de gerações e gerações de leitores brasileiros. A julgar pela qualidade de nossas elites letradas, já poderíamos olhar para o latifundiário do Sítio do Pica-pau amarelo com desconfiança. Mas ele possui imensa gama de leitores especiais, que lutaram contra a ditadura e mais uma série de problemas sociais como a discriminação contra negros, mulheres, pobres, homossexuais, a favor da educação e da formação de leitores etc. Não vou citar vários deles; basta o próprio Ziraldo, personagem da atual polêmica, e a, acima de qualquer suspeita, Lygia Fagundes Telles, que também tem defendido o empresário de Taubaté.
Que eu saiba, Lygia não é racista; Ziraldo, eu também julgava que não fosse. Li pouco Monteiro Lobato e não gostei muito, em especial por causa de seu texto sobre o Jeca Tatu, que considero recheado de preconceito – eu e Silvio Santiago, salvo engano. Não sou entusiasta da turminha do sítio; minha geração já lia pouco e lidou mais com o Mônica dos quadrinhos e com a Emília da TV. Mas a questão, para mim, é a seguinte: um artista, se for considerado genial – e Lobato é considerado genial e majestoso por muita gente –, pode ter o privilégio de falar, pensar e defender absurdos? Ou, vendo por outro lado: um artista sabidamente criminoso – o racismo é crime inafiançável – déspota, preconceituoso, injusto, monstruoso, deve ter sua obra difundida, admirada e respeitada? Devemos separar autor e obra nestes casos?
A polêmica com Lobato começou quando um órgão federal sugeriu que o livro As caçadas de Pedrinho não fosse adotado nas escolas, por conter passagens racistas. Veio o Ziraldo e tentou transformar racismo em frescura politicamente correta. Eu, que não li o tal livro, pergunto: ele é mesmo racista? E outra pergunta: o livro é, sob o ponto de vista estritamente literário, bom? Tenho ainda outros questionamentos: se o livro é uma obra de arte apreciável – a despeito do racismo que contém – é possível usá-lo para discutirmos o racismo, fato histórico e contemporâneo em nossa história? Vale a pena censurá-lo ou deve-se utilizar As caçadas de Pedrinho de modo reflexivo? Devemos problematizá-lo ou escondê-lo? A partir de qual idade o livro é recomendado? Nesta faixa etária, elas já estão preparadas para fazerem uma leitura crítica do material? Pedrinho e suas caçadas ainda são pertinentes para as crianças de agora? Se o livro é realmente bom do ponto de vista literário, as questões raciais devem ser deixadas de lado? Existem obras racistas cuja qualidade estética “compensam” as ideias que propagam?
Atualmente, discussão semelhante acontece na França, aquele país que lida com conceitos como “limpeza étnica”, que suga e escorraça seus imigrantes, que manteve de forma bem opressora algumas colônias pelo mundo afora. Lá o escritor Celine, sabidamente racista, autor de panfletos antissemistas, é considerado por alguns especialistas o maior escritor francês do século XX. Devem ou não colocar o escritor em evidência? “pegaria mal” exaltar s qualidades de um racista? A obra dele vale o sacrifício? Seus romances são tão racistas quanto seus panfletos e suas ideias nojentas?
A reposta para esses assuntos é difícil. A arte não está acima dos valores que prezamos; na verdade ela é um poderoso meio de difundir nossos ideias; ao mesmo tempo, imbecis podem produzir obras belíssimas, na qual seus defeitos não aparecem. Mas, quando o assunto é arte, literatura em especial, toda opção é política. Hitler, com sua devoção à arte clássica sabia disso; Picasso e seus quadros cubistas também. O ditador nazista ,que dizia buscara beleza, foi responsável por parte das maiores atrocidades contra a humanidade; Picasso denunciou os horrores da guerra. Entre ambos, onde estão Lobato e Ziraldo? Abraçados a alguma ferancesinha?-

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA II

Parreira
Moço educado, estudado, letrado e sabido. Tem seu currículo alguns fitos memoráveis: um Copa do Mundo com a seleção brasileira campeã que deixou menos saudades. Aliás, Copa do Mundo é o seu forte: participou de seis, com cinco seleções diferentes; entre elas, está a única anfitriã que não conseguiu passar para segunda fase, a África do Sul; com Arábia Saudita, em 1998, foi o primeiro técnico a ser demitido com a Copa ainda em andamento. Mas seis vezes e quem disputou o mundial de seleções, só passou para a segunda fase nas duas em que dirigiu o Brasil.

Paulo Renato Sousa
Dizem que o filme Amor sem escalas, aquele no qual George Clooney interpreta um cidadão cujo emprego é demitir executivos foi inspirado nele. A única diferença é que o filme, executivos são demitidos, enquanto na vida de Paulo Renato, professores são esculhambados. Dizem que o otimismo inabalável é a base do sucesso de Paulo Renato. Quando o Brasil participou pela primeira vez do PISA, sistema que avalia a educação em uma série de países, no qual ficou em último, o então ministro da educação teceu o seguinte comentário:
- Pensei que o resultado seria pior.
Era inaugurado um novo método de avaliar a avaliação, cujo lema era: “não existe copo meio vazio nem vazio: ele sempre estará cheio de ar”. Com Paulo Renato, a educação brasileira caminhava a passos largos para o vácuo.

Marquês de Pombal
Mesmo não sendo do lado de cá do Atlântico, o nobre déspota esclarecido lançou luz debaixo da saia do Equador ao proibir que os colonos falassem a língua geral, o tupi ou qualquer geringonça que não fosse o bom idioma lusitano. Dessa forma, flolclorizou, estigmatizou e destroçou séculos de história indígena, iluminando com seu farolete de milha todo o preconceito a que chamam de progresso.

Rubinho Barrichello
Sem jamais acelerar, conseguiu bons contratos com equipes de ponta da Fórmula 1. Aliás, a leveza com que acionava o pedal, por algumas temporadas, foi o seu maior trunfo!

quarta-feira, março 02, 2011

HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA (A VERDADEIRA!) I

HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA (A VERDADEIRA!)
Paulo Maluf
Pra começar, o homem tem um ismo só pra ele: o malufismo. Ora, gente desagraciada pela inteligência não desfruta do próprio ismo! Alguém aí já ouviu falar em tiririquismo? Severinocavalcantismo? Dunguismo? E em Bushismo? Só se for doença de vermes barrigais.
Não bastasse isso, o cara vive respondendo processo, sendo absolvido – mesmo quando é condenado – e desfrutando de seus bens, todos conquistados com muito trabalho e boa vontade, ainda que alheio.
Sergio Naya
Sua revolucionária técnica de construir prédios residenciais com areia da praia – e depois ainda amealhar compradores para essa obra farofaônica – só não foi digna de um Nobel porque tudo desmoronou antes. O cidadão, dono de uma fortuna biliardária, enrolou enquanto viveu e não pagou indenização alguma pra ninguém.
Machado de Assis
Não é porque foi o maior escritor brasileiro de todos os tempos até hoje, mas porque conseguiu convencer toda a sociedade carioca de que era branco.
Romário
Gênio da grande área? Isso não é nada diante da imensa capacidade do Baixinho para pulverizar toda a sua fortuna em tão pouco tempo e de modo nada diversificado.
Barretão
Ninguém ganhou tanto dinheiro no Brasil produzindo tantos filmes ruins. Os que chegaram mais perto, os responsáveis pela obra cinematográfica da Xuxa, chegam aos seus pés – talvez até alcancem os seus joelhos.
Pedro Bial
Lançar pérolas do quilate de Gay Tallese, Menotti Del Picchia e Guimarães Rosa sobre a massa multicolorida do BBB e ainda ver o caldo dessa macunaímica mistura respingar no populacho nacional é feito dos mais acadêmicos! E as crônicas, então?
Malafaia, Santiago, Hernandez, Soares, Macedo et caterva
Esses caras conseguem espremer da enorme pobreza nacional fortunas pra faraó, marajá e rei da soja fazerem beicinho de pura inveja. Quem duvida, diga amém!
Ronaldo Fenômeno
Inventor da sensacional receita casamento de chantily. É um pouco salgada – alguns milhões de euros – e deve ser consumida em, no máximo, três meses. Dá um pouco de indigestão, também. Mas quem provou garante que vale o sacrifício, principalmente se você não falir pouco tempo depois.

terça-feira, março 01, 2011

As palavras mudam de ideia: vilões e maloqueiros

Às vezes, o dicionário não é suficiente. Consultando um aqui ao lado, vejo que “vilão” significa ao mesmo tempo “abjeto, baixo, desprezível”, “pessoa que tem origem plebeia” e “que habita numa vila”. Somos todos vilões? A maioria de nós não mora em uma vila, quase todos somos de origem plebeia; quem de nós é um ser abjeto, baixo, desprezível?
Atualmente, usamos o termo “vilão” para nos referirmos aos seres maus da ficção, os que atrapalham a vida dos heróis, dos “mocinhos e mocinhas”. Neste dicionário, este significado não aparece, mas, mesmo assim, revela que o preconceito endereçado pela nobreza definiu as mudanças de significado da palavra vilão. Ora, para os beneficiados pela falsa justiça divina, os membros de uma certa nobreza, os moradores das vilas eram, ao mesmo tempo, plebeus e abjetos, desprezíveis, em nada se comparavam aos nobres, indignos e prezados aristocratas. Aliás, é de se ressaltar que o mesmo dicionário apresenta o vocábulo “abjeto” ao mesmo tempo como indigno e como antônimo de nobre. “abjeto também seria nojento, sujo, intragável.
Os anos se passaram e hoje em dia conseguimos enxergar “nobreza” (entre outros significados, “distinção, excelência, mérito”) com muito mais frequência entre os plebeus do que entre os aristocratas. Aliás, entre os membros da nobreza, abundam os que não possuem mérito algum. Sabemos que há muitos vilões (moradores de vilas, plebeus) nobres, distintos, que possuem muitos méritos, e que sobejam nobres vilões (pessoas abjetas, indignas, desprezíveis).
Coisa semelhante acontece com o termo vulgar – mais uma palavra com múltiplos significados – “maloqueiro”. Segundo o dicionário que tenho aqui ao lado, maloqueiro é quem vive em uma “maloca” (habitação de índios, esconderijo ou casa pobre, de favela), seja ela saudosa ou não, mas também é o indivíduo maltrapilho ou sem educação. O dicionário não diz, mas maloqueiro também poder o marginal, o punguista (trombadinha), o baderneiro. Por que associar a moradia do índio às casa humildes das favelas ou aos cortiços? E por que associar os moradores de casas humildes à má educação, ao crime, à desordem? Herança urbana e moderna da nobreza vilã, talvez.
Quando chamo alguém de vilão, não estou fazendo alusão à origem humilde de ninguém, não sou, necessariamente, preconceituoso. A maioria de nós não sabe qual a origem da palavra, nem quais são suas implicações sociais. Ninguém chama o outro de maloqueiro para fazer alusão à moradia humilde do cidadão. A sociedade muda, a língua muda junto: as palavras mudam de ideia, brincam de esconde-esconde com seus significados, nos ludibriam – mas de vez em quando nos lembram de coisas tão abjetas quanto o preconceito e a opressão.

looping

de repente
uma corrente de ar novo
, ainda que não fosse puro,
abriu-me as janelas
lustrou-me as ideias
e amoleceu o desespero
até que ele não fosse mais
que as asas claras de uma borboleta.

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