Soube da morte do jornalista Daniel Piza apenas uma semana depois do
ocorrido. Não exagero ao dizer que fiquei estarrecido.
Não posso dizer que era um fã, nem mesmo um grande leitor de Piza. Na
verdade, já fazia algum tempo que não conseguia ler seus artigos, seja porque tratavam
de assuntos que não me interessavam, seja porque eu sempre ficava na dúvida se
o autor era um grande conhecedor do tema ou um enorme picareta.
Aliás, já vinha notando em Piza dois defeitos significativos: uma arrogância
latente, que lhe fazia desmerecer qualquer um que não comungasse com suas
ideias elitistas – no pior sentido do termo – e suas técnicas de fazer supor
que era o maior leitor das galáxias e o maior entendedor de todos os assuntos
possíveis. Muita gente embarcou nessa, mas não eram poucos os que preferiam
simplesmente ignorá-lo, o que, devo dizer, não era justo; o jornalista conquistou
espaço significativo na cultura nacional.
Eu seria muito injusto se não levasse em conta as qualidades de Daniel
Piza. Se é claro que lamentaria a morte fora de qualquer ser vivo, não me daria
ao trabalho de escrever nada sobre os que não deram contribuição alguma a minha
existência. Houve um período em que lia Piza por concordar com muitas coisas
que ele escrevia; há mesmo uma frase dele com a qual faço coro constante,
inclusive a parafraseando sempre que acho necessário: “a leitura não é um fim
em si mesma, não tem valor por si só; ela precisa ser direcionada para algo que
realmente valha a pena”. Traduzindo: a frase “pelo menos ele lê” é tola, pois
ler o oco não contribui para a formação intelectual, social, humana de ninguém.
Daniel Piza foi o responsável por uma árdua biografia de Machado de
Assis, de quem era leitor voraz e participou da adaptação de Luiz Fernando Carvalho
para a Rede Globo, um dos trabalhos, na minha opinião, mais audaciosos e
marcantes para a televisão dos últimos anos. Embora eu acredite que Machado
tenha nome envolvido em justificativas intelectualoides para desmandos e
elitizações baratas, vejo Piza como um grande leitor do Bruxo, habilidoso,
inclusive, para tentar colá-lo a uma “tradição conservadora” na política
nacional, sendo que esta classe era particularmente alfinetada pelo autor das Memórias Póstumas e do conto Teoria do Medalhão.
Quando falava de economia, Daniel Piza parecia mais um escrevente do
tucanato, mas como citava e recitava mantras que ecoavam como a única verdade
possível, muita gente embarcava, enquanto outros o execravam. Quando tateava na
crítica literária, o fazia sempre agarrado a algum crítico de renome que não
fosse de esquerda, mas sempre com desenvoltura. Se dava até ao trabalho – ou à
cara de pau? – de fazer listas de “melhores ano” sobre praticamente tudo, e ainda se
infiltrava entre os jornalistas esportivos, na rádio, na televisão e com mais
uma coluna no jornal.
Tudo isso, que muitas vezes soava como o reflexo de um ego maior que o
seu talento, e que tantas críticas gerou – suas incursões na literatura, na
poesia e na prosa, nunca tiveram outra função além de provocar o riso nos
desafetos e engordar o próprio currículo, sendo que entre seus títulos
encontramos o chavão “Noites Urbanas” – serviram para que Daniel Piza nos
servisse como uma espécie de amigo chato, com quem gostamos de conversar
justamente para discordar dele, mas do qual não conseguimos nos afastar por
muito tempo. Como o cara gostava de escrever sobre praticamente tudo, vivia em
uma ansiedade e com um ímpeto de produtividade realmente admiráveis, seus
artigos, ainda que fosse rasos, mas decorados com plumas acadêmicas, tinham a
função de nos fazer pensar e jogar conversa fora quando abríamos o jornal,
especialmente nos domingos pela manhã.
Daniel morreu prematuramente, e tenho a sensação de que ele ainda buscava
sua grande obra, seu grande legado. Com espaço privilegiado na imprensa e na
televisão – e muito bem relacionado, só pode – experimentava a cada texto,
buscando, me parece, a sua verdadeira vocação, além de ser um leitor guloso –
mas com menos aproveitamento do que gostava de nos fazer crer – e estudante
aplicado. Era tradicional e elitista, o que há aos montes na imprensa
brasileira, mas esbravejava muito menos que seus pares, tinha algo que está em
falta entre as viúvas de Higienópolis, como Jabor, Azevedo e Mainardi: elegância.
Seus textos, quando não tentava fazer literatura, eram ágeis, agradáveis de
serem lidos, mesmo que carregados de meias verdades e abastecidos com gordas
doses de empáfia. É estranho, é cafona e soa falso, mas tenho sentido a falta
de Piza.
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