segunda-feira, janeiro 31, 2011

Versos Menstruados?

Também achei o título de péssimo gosto. Por que, meu Deus, falar de poesia feita por mulheres tantas vezes exige um tratamento que a diferencia da obra produzida por homens, como se elas constituíssem uma classe separada e, direta ou indiretamente, considerada menor? Não sou lá muito fã de Cecília Meireles, mas sei que ela é poeta das que não deve nada, com alguns textos memoráveis. O que dizer de Adélia Prado, a que arranca poesia divina com aparente simplicidade e deveras intrigante da observação de um cotidiano que para o resto da humanidade só pode resultar em tédio? E aquela que é o verdadeiro motivo desse texto, a musa Alice Ruiz S? Aliás, esse S final é novidade para mim...
Folheei ontem uma coletânea dos poemas publicados por Alice Ruiz S na década de oitenta, lançada pela Iluminuras. Fazia tempo que eu não lia poemas. O efeito foi tão significativo que apenas com a pequena folheada – não comprei o livro por questões orçamentárias – não só me reencantei como arrisquei rabiscar alguns versos inspirados na poeta.
Não posso deixar de comentar que muitos poemas me lembraram o traço característico de Paulo Leminski, com quem Ruiz foi casada; contudo, é impossível saber quem influenciou quem – creio mesmo que a troca entre eles foi recíproca, pois não existe casal cujos cônjuges sejam imunes um ao outro.
Se a poesia de Alice Ruiz S é essencialmente feminina, para mim pouco importa, assim como não sou caçador de poesia masculina. O que me atraiu naqueles versos, os que pude ler e apreender – para o mês, se sobrar algum, compro e me esbaldo no livro – foi a certeza de que ainda existem poetas que dão sentido aos seus versos para muito além das teorias semióticas, pragmáticas e gerativas. Ainda é possível escrever poemas que sejam poesia, que podem ser lidos e admirados por leitores não especializados, justamente naquele lugar onde o verso realmente faz sentido e se justifica: longe dos gabinetes de professores universitários e do colo dos acadêmicos. Aos especialistas cabe apenas apreender e esmiuçar as estruturas das obras, sem com isso esvaziá-las da vida que as faz existir. Poesia, poema, poeta – seja homem, seja mulher – não foram feitos para acinzentar gabinetes; existem para epifanias e encantamentos, para indicarem a beleza e denunciarem o que realmente é feio.
Mas, devemos afirmar, com a beleza da contradição, é raro encontrar um homem que entenda tão bem de beleza quanto as mulheres enfronhadas na poesia...

terça-feira, janeiro 25, 2011

O último show?

Por muitos anos, se alguém me perguntasse qual era a minha banda de rock favorita, eu não hesitaria em dizer Titãs. Desde os dez anos enfeitiçado pelas canções do sempre citado em qualquer lista dos discos mais importantes da música brasileira Cabeça Dinosssauro, passando pela sua, ao menos na minha cabeça, sequência Jesus não tem dentes no país dos banguelas¬, que eu sempre escutei e entoei de uma perspectiva cristã, pensando que Jesus, era Deus e se fez homem, andou com pobres, prostitutas, loucos e marginalizados em geral, se fez de fraco para com os fracos etc., então seria normal se fazer de banguela para os banguelas. Na minha cabeça cristã, a única canção que gerava algum desconforto era mesmo igreja, que eu cantava, sim, mas mudava indiscretamente a letra para não sentir remorsos eclesiásticos.
Durante algum tempo eu acreditava ser o fã nº 1 dos Titãs, por saber todas as músicas a partir do Cabeça Dinossauro, por ter todos os discos – alguns em fita cassete, é verdade – e por ir aos shows sempre que podia. Por sorte, moro próximo ao SESC Interlagos, que foi e ainda é palco de alguns grandes artistas brasileiros – por anos o programa Bem Brasil, da TV Cultura, foi gravado no SESC Interlagos, aliás, em sua fase mais glamourosa. Ali, assisti a mais de m show da minha banda favorita.
Desconfio também que assisti ao último show dos Titãs em São Paulo com a formação clássica, ainda com Arnaldo Antunes. Foi em um show gratuito no Vale do Anhagabaú, se não me engano no aniversário de 100 anos do viaduto do Chá. Na mesma noite tocaram Lecy Brandão e Morais Moreira. Foi no mesmo ano do massacre dos presos no Carandiru, para quem Arnaldo dedicou a canção Porrada.
Depois vi os lançamentos dos discos Titanomaquia, o mais porrada de todos, influenciado pelo grunge que estava na moda – e também pelo produtor Jack Endino – e Domingo.
Os titãs me traduziam. As canções tinham a pegada furiosa nas melodias, nos riffs e nas letras, mas também tinham uma preocupação estética que não se via em qualquer banda. Após o esplendoroso sucesso do Acústico deles – formato que ainda não estava depauperado pela força da grana que ergue e destróis coisas belas – eles entraram numa fase que não acompanhei muito. As coletâneas, as versões e a volta para o estilo mais romântico dos dois primeiros discos, mas sem a graça new wave de outrora, já não me agradavam. Quando parava para ouvir os Titãs, me detinha nas músicas do Tudo ao mesmo tempo agora, disco deles que mais escutei, e nos já citados. Acompanhei de longe as experiências solo de alguns deles, virei fã incondicional do Arnaldo Antunes – eu queria ser Arnaldo Antunes – e curti muita coisa do Nando Reis, antes e depois de sua saída da banda. Li os dois últimos livros do Tony Bellotto; tive até o privilégio de ser um dos revisores de seu No Buraco, lançado em setembro de 2010, mesmo mês em que me casei.
Aliás, lendo No Buraco e mais alguns textos do Tony publicados no blog da Companhia das Letras, além de uma entrevista que ele deu no Estadão, fiquei com a impressão de que os Titãs já estavam no passado. Tudo, nas palavras do guitarrista e escritor, faziam crer que ele estava com muita vontade de abandonar a vida de rockstar e dedicar-se a algo mais compatível com a sua idade – ele acabou de completar 50 anos, idade em torno da qual todos os titãs gravitam. Parece que ao menos Tony anda percebendo que o corpo, apesar de bem conservado, ainda é pouco. E apesar de já não ser um fã tão ardoroso da banda, de já não conhecer todas as canções, me entristece a proximidade do fim. Sim, todo carnaval tem seu fim, mas o que vem depois, às vezes não passa de picaretagem, seja ela barbuda ou colorida.
Hoje, 25 de janeiro de 2011, o pulso ainda pulsa, e teremos Titãs ao vivo no SESC Interlagos. Provavelmente não irei, pois estou atolado em compromissos inadiáveis. E também porque sei que é cedo ou tarde demais pra dizer adeus.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Ode elegíaca a Saramago

No meio de um mar atlântico
(h)ouve um barulho:
O luto

Salgado pelas vidas
Que se foram vãs
Faladas e açoitadas
Esquecidas e escarradas
Por línguas várias
(o lusitano é irmão do mundo)

Mas da pétala de luz embriagada
Que ao olho turvo escapa
Semeia por mares e ares
O lúcido desejo:
Que a vida seja justa, limpa e sã
***
Enquanto isso, o Deus dos ateus
Pensa na vida que poderia ter siso
E se foi

sábado, janeiro 15, 2011

Mãos à lama!

Quando essas coisas acontecem, não dá tempo de ficarmos chocados, alarmados, tristes ou petrificados. Se a poesia cabe em qualquer lugar, tem todas as utilidades, a retórica, não! Não façamos da tragédia ponto de partida para nossas veleidades. É tempo de ajudar como der, ajudar desesperadamente pela pressa, ajudar carregados da esperança de que podemos salvar vidas, resgatar sobreviventes, auxiliarmos no pontapé reinicial da vida, confortarmos os que choram. Não é tempo de retórica, de marketing pessoal ou de trabalhar a imagem. É tempo de dedicação integral ao próximo.
O que pode ser feito? Doe. Dinheiro, roupa, remédio. Doe seu tempo. Doe sua criatividade. Doe seu ombro. Busque os meios confiáveis de ajudar: eu conheço e recomendo a Visão Mundial, mas certamente há outros; só tome cuidado com os picaretas e não faça desse momento um meio de aplacar sua consciência consumista, hedonista, egoísta. A dor do outro precisa ser estancada, ela não é remédio para seus desvios!
Ore. Sei que nesses momentos parece que Deus está ausente, mas não foi Ele quem empurrou as pessoas para áreas impróprias para moradia. Peça a Deus que nos capacite, que capacite os que podem ir, que capacite os que podem doar, e saiba que Ele intercede sim, pelos que sofrem, pelos que choram. E que, mesmo sendo um Deus misericordioso, cobrará a fatura dos responsáveis pelas tragédias agendadas que temos no Brasil, como as enchentes que a cada ano resolvem abocanhar uma região do Brasil. Serra Fluminense agora, Angra dos Reis, Niterói e São Luis do Paraitinga ano passado, Santa Catarina ano retrasado, e sempre bairros paulistanos, cidades mineiras... alguém há de pagar.
Incomode. As pessoas ao seu redor precisam se dar conta de que algo gravíssimo está acontecendo e que pessoas precisam de auxílio urgentemente. Tente convencê-las pela compaixão. Eu, que sou diabético e insulinodependente, estou preocupadíssimo com os diabéticos sem remédio que estão isolados na Serra Gaúcha. Um cardíaco talvez se importe com os cardíacos, seres humanos com seres humanos etc.
Cobre. A pressa para ajudarmos as vítimas é justificada e diante de vidas em risco, tudo deve ficar para depois. Contudo, as providências para que a versão 2012 das enchentes, inundações etc. não aconteça, devem ser tomadas a partir de agora. Pré-sal, Olimpíadas, Copa, tudo isso é lindo, mas só faz sentido se até lá não percamos milhares de vidas por conta da displicência de nossos governantes.
Corra! O que você pode fazer exatamente agora para ajudar as vítimas? O quê? E mais o quê? Pés, mãos e coração na lama, vamos ver se, como dizia o apóstolo Paulo, podemos salvar alguns...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

A doçura que não serve

O diabetes me fez chorar duas vezes. Quando dei a primeira picada no dedo e li 274, em jejum(!), desabei. Chegara a minha vida uma doença que, eu estava convicto, me mataria em breve, mas antes me levaria, no ritmo de um torturador experiente, os pés, depois as pernas, depois a visão e por último os rins. Mas eu chorei mesmo ao me dar conta de que “nunca mais comeria uma trufa”.
Foi ao telefone, dando a péssima notícia à Heloíse, dez quilos mais magro que de costume, bebendo uns 30 litros de qualquer líquido doce que existisse na casa por dia, dormindo de 12 a 16 horas diárias, sem forças para dar quinze passos sem precisar me sentar, de preferência me deitar.
O tempo passou, tive um longo período do que os médicos chamam de “lua de mel”, intervalos de tempo em que o diabético tem uma glicemia bem controlada e pode até, vez ou outra, com muito cuidado, comer mesquinhas porções de açúcar. Vez por outra, aliás, eu era obrigado a comer açúcar, pois a glicemia baixava demais, e aí o risco era de entrar em coma e morrer rapidíssimo, mesmo. Depois, dei uma grande relaxada, a glicemia voltou a níveis que exigem cuidados, tive dificuldades para controlar os impulsos de devorar tudo que é delicioso e pode me matar, da batata frita ao bolo trufado. Nunca mais um caldo de cana regando aquele pastel de feira? Mas, sofrendo aqui e ali, levando cinco injeções de pequenas doses de insulina por dia, nadando e fugindo de situações de estresse, que, segundo alguns, é outro gatilho da hiperglicemia, o excesso de açúcar no sangue, vim vivendo. Casei, continuei dando aulas, escrevendo, aliás, faço minha estreia em livro logo, logo, viajei, me reconciliei, ganhei amigos novos. O diabetes existe e apavora, mas tomando cuidado – o que nem sempre faço, é verdade – a gente pode viver, sim. Na verdade, eu fiz um pacto comigo mesmo: o de não morrer, muito menos em decorrência do diabetes. Espero cumpri-lo, ao menos em parte.
A segunda vez que o diabetes me fez chorar, essa doença irritante e democrática, que pode ser escrita de todas as formas e com todas as concordâncias imagináveis e que pode atacar todo mundo, em todo lugar, foi quando descobri que não posso ser doador de sangue. Eu já desconfiava, mas retardei o quanto pude a confirmação; doía supor que eu não poderia ajudar a alguma pessoa com esse ato que considero de pura nobreza. Sempre que aparecia alguém precisando de doadores eu tentava convencer os outros a se encaminharem a um banco de sangue, mas eu mesmo não ia. Enfim, fui tirar a dúvida e descobri que, por ser insulinodependente, não posso entregar meu sangue para salvar a vida de ninguém. Ele é doce, mas não pode ser compartilhado. A única pessoa que ele pode manter viva sou eu, a mesma pessoa que ele pode matar.
Desabei diante da constrangida enfermeira, que aguardava silenciosamente o choro espremido e envergonhado de um homem adulto que nem estava doando sangue para alguém especificamente, apenas estava interessado em ajudar – com medo de passar mal, com pânico de agulhas que colhem sangue, mas disposto a doar.
É mais fácil viver sem comer trufas de chocolate do que com a amarga sensação de que o seu sangue não serve, de que, para aquela situação específica, para aquele gesto incômodo, mas fundamental, de uma generosidade tremenda, você é inútil. Há outras mil, outro milhão de coisas que podemos fazer pelo próximo, mas doar sangue, compartilhar o líquido rega a própria vida, não podemos. Não poder doar, sei na pele, nas minhas veias intocadas e no meu sangue egoísta, dói tanto quanto não receber algo fundamental para continuarmos vivos. E, além da dor – vou me recuperar, claro – dessa impossibilidade, ficou o sofrimento pela vergonha pós-morte de que, certamente, meus órgãos não servirão pra muita coisa – afinal, todos eles levam o meu sangue melado.
Muita gente doa para faltar ao trabalho. É um ato aparentemente espertalhão e egoísta, mas o resultado prático é o mesmo de quem doa por amor. Há quem não doe por questões religiosas, o que é um absurdo. Jesus doou o corpo inteiro e deixou bem claro que não há nada mais importante do que a vida.
Espero não chorar novamente por causa do diabetes. Aprendi uma receita deliciosa de trufa diet – e conto com o esforço dos leitores para que os bancos de sangue fiquem tão cheios que a minha colaboração não faça a menor diferença.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Bandejão

a fome enfeita a estante do intelectual
preenche a tela do cineasta
plastifica o verso do poeta
catapulta as vendas do jornal
alavanca o ibope da novela
municia metralhadoras e peixeiras:
a fome nos farta.

Servir bem, servir sempre

a mão de quem?
costura o strass
enrola o baseado
recolhe a verdura
etiqueta o produto
folheia a bíblia
prepara a picanha
amacia a massa
recolhe o lixo
maneja o controle remoto
levanta copos
aplica massagens
atende o interfone
abre os portões
espanca os perdedores
dispara no escuro
encerra uma prece
rodeia sua ceia
e não foi convidado?

segunda-feira, novembro 29, 2010

A crônica clássica de Mily Lacombe

No meio de um turbilhão de compromissos, resenhas, aulas, revisões, expectativas, lançamentos, projetos, trabalhos, frustrações, leituras e mais leituras e ainda mais leituras obrigatórias e atrasadas acumulando-se sobre a mesa, em cima do criado-mudo, embaixo do travesseiro, na mochila, no puf e até nas estantes, parei para ler Tudo é só isso, da jornalista multifuncional Mily Lacombe. Trata-se de um tratado pessoal sobre o amor, em grande parte o amor familiar, mas também o fundamental amor próprio e o amor à companheira – aquele amor que dá um colorido específico à vida.
Afirmar que o texto de Mily algumas vezes alcança um lirismo da estatura de Rubem Braga é o suficiente para você voar atrás do livro. A autora consegue em algumas crônicas tocar-nos nos ponto certo, da maneira certa, com leveza e segurança, para que vivamos nas leituras rápidas, aquilo que ela mesma viveu. O grupo de “personagens” é relativamente pequeno – “a mulher que eu amo”, pai, mãe, irmãos, sobrinhos, a avó, cunhados – e por isso criamos um relacionamento com eles, enquanto vamos conhecendo suas manias, qualidades, defeitos, enfim, sua humanidade.
Mily nos traz o sabor de um passeio “secreto” com o pai; a intensidade dos primeiros instantes de uma paixão duradoura; o fracasso de um projeto de “noite romântica perfeita”, que, mesmo com tudo dando errado, acabou terminando um jeito surpreendentemente “perfeito”. A escritora também faz associações inusitadas, como o acidente doméstico que gerou sua proibição de participar das atividades culinárias natalinas, mas que não a frustrou muito, pois ela vivia o momento maravilhoso de estar apaixonada e ser correspondida; ou a aproximação da morte da avó, que serviu, de um modo ao mesmo tempo triste e divertido, por conta da lembrança de uma brincadeira da infância, para aproximar mãe e filha. O mérito de Mily é lapidar momentos preciosos de situações simples, prosaicas, corriqueiras em qualquer família, como o momento do jantar, mas únicas para cada uma. É nisso que ela se aproxima de Rubem Braga e de outros cronistas clássicos. Também é nisso que a escritora se afasta de boa parte dos cronistas e colunistas atuais, preocupados que andam em parafrasear economistas e críticos literários, forjando uma escrita que não se identifica nem com os áridos textos acadêmicos nem com o rico cotidiano das pessoas comuns, prodigo em assuntos e sentimentos.
Mily, ao lado de Antônio Prata, pode salvar este gênero tão gostoso e brasileiro, com seus textos sem rancor, sem ranger os dentes, e por isso mesmo tão poderosos.
A questão da sexualidade da autora – gay assumida e, de certo modo militante, mas sem a chatice panfletária e antipática de muitos grupos organizados – perpassa todo o texto, tanto nos momentos de conflito com familiares, especialmente quando decidiu assumir sua homossexualidade, quanto nas histórias em que a companheira de Mily – “sua mulher”, com a autora prefere – aparece. E não, não há um erotismo calculado para atrair a atenção de lésbicas e homens pervertidos, ou aguçar a curiosidade das mulheres hetero; a sensibilidade da autora agracia o autor, com um comedimento preciso, que deixa as emoções dançando diante de nós. São crônicas líricas, intimistas, refinadas. Crônicas clássicas.
A lamentar apenas o fato de a escritora torcer para dois times – o que em si já é uma coisa bem estranha – e nenhum dos dois ser o Santos; pior, a moça arrasta uma de suas asas para o Corinthians...
Além desse defeito imperdoável, lamentos, de fato, que a revisão não tenha sido das melhores, mas nada que uma segunda edição não salve. Mas as crônicas em si salvam qualquer tarde monótona, ou aquele momento em que, deitados, aguardamos o sono. Depois de ler Mily, dormimos bem e sonhamos com os anjinhos...

quinta-feira, novembro 25, 2010

Contra-aforismos VIII e IX de o anticristo

VIII
Sabe por que decidi escrever esse Antinietzsche? Por que ele me considerou seu antagonista. Apesar de não ser teólogo, tenho sangue de teólogo, assim como C.S. Lewis, Martinho Lutero, Martin Luther King, Chesterton, Ariovaldo Ramos, T.S. Eliot, Santo Agostinho, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Guimarães Rosa...
Não quero dizer com isso que tenha o talento deles, mas o mesmo tipo de inquietação, a mesma fé (não é bem a mesma fé, mas temos em comum o fato de que temos fé), almejamos o mesmo futuro para a humanidade.
Agora, cá pra nós, o bigode dizer que há nos teólogos presunção porque, sentindo-se por algum motivo mais elevados, “olham a realidade com superior indiferença” é piada. Ou Nietzsche, marotamente, incluiu-se entre os teólogos, por ter ele mesmo estudado teologia, e por olhar a realidade com superior indiferença, ou fez aqui o que Freud, ou ao menos os psicanalistas amadores, chamaria de “transferência”, passando para os “inimigos” defeitos que ele mesmo tem, mas dos quais não se dá conta.

IX
É verdade que existe uma fé doentia, que mergulha seus adeptos numa letargia covarde, que vê em cada fracasso, cada injustiça, em cada absurdo a justificativa de que Deus está por trás de tudo, arregimentando tudo, controlando tudo. De fato, essa fé agride o próprio princípio cristão, que se caracteriza pela inconformidade com a injustiça, a covardia, a imoralidade, a corrupção, a opressão. Jesus, o Cristo, não pregou a passividade, mas a sabedoria e a atitude em prol de uma causa maior. Pregou a não violência, ou antes de pregá-la, a viveu, assim como a misericórdia, a mansidão, a justiça. Jesus não se conformou a nada que não fosse a sua própria consciência, totalmente alinhada à consciência do Pai. Uma fé passiva, subserviente, fraca, conformista, não serve, assim como a fé voltada para o próprio umbigo, dura, agressiva, incapaz de colocar o próximo acima e à frente, também, não. Aquela, não resta duvida, é a fé dos otários; esta, é a fé do bigode – e nenhuma das duas é cristã.
Seria verdade que a guerra é o triunfo da humanidade, ou que ao menos encaminha a humanidade para o triunfo? Seria verdade que a ideia de força, de virilidade, é realmente mais produtiva e nobre do que a compaixão? Seria possível que Nietzsche, se não contasse com a compaixão da irmã e de meia dúzia de gatos pingados (meia dúzia de três ou quatro, vale frisar) alcançasse a importância que adquiriu na História? Ora, vale perguntar, se é fato que boa parte dos teólogos não compreende o que venha a ser a Verdade – ou a manipula sem o menor escrúpulo –: não é mentira que nem tudo que sai da cabeça do Bigode é verdadeiramente verdadeiro.

terça-feira, novembro 23, 2010

Ao pastor que não me ouve

Aqui vai mais um texto de uma ovelha mansa.
Dessa vez, quero escrever algumas sugestões – as pessoas cada vez menos gostam e acreditam me conselhos, veem neles, uma inveja recalcada, uma tesoura pronta a podar nossos sonhos e atitudes, acreditam que os conselhos são o bafo de satanás em nossos ouvidos. Penso que, como o senhor sequer me lê, o exercício será vão. Mas eu não tenho coisa mais interessante a fazer – há um mundo por ser consertado, há pessoas precisando de amor, há famintos, corações dilacerados, mas, buscando seguir os seus passos, fico aqui pensando, pensando, pensando, sem compromisso algum com a prática. Vamos ás sugestões:
O senhor já é homem maduro. Criou todos os filhos, todos prontos para encarar o mundo. Sua mão protetora, o sustento que partiu do suor do seu rosto – justíssimo salário, não questiono isso! – permitiram que sua família pudesse se manter e que todos agora possam caminhar com seus próprios passos. Há pouca coisa para planejar, do ponto de vista financeiro, para o futuro. O senhor tem casa, carro e algum dinheiro no banco. Seu salário continua gordo. Suas estantes estão cheias, há sempre um amigo querendo presenteá-lo com um CD, um livro, há viagens de negócios que podem facilmente fornecer alguns momentos de ócio. Quão nobre seria de sua parte abrir mão de parte de seu salário para o Reino de Deus! Não entenda que o Reino de Deus é algo que separa alma e espírito. As pessoas precisam conhecer o evangelho e precisam comer! Participar de vigílias e de estudar! Os cultos precisam de instrumentos musicais que funcionem e os que cultuam precisam de roupa limpa, nova! O livro novo, a viagem dos sonhos – caríssima – o sapato elegante – importado – não podem ser deixado de lado em nome de uma causa nobre, justa, que envolva realmente ação? Precisam...
Quer outra sugestão? Fuja das mesas fartas. Fuja dos tapinhas nas costas. Fuja dos olhares que brilham ao verem o senhor como se vissem o Pe Lu da banda Restart! Tudo bem, como se vissem o Chico Buarque fazendo suas caminhadas pelo Leblon ou pela floresta da Tijuca. São olhares de admiração, logicamente, mas alguns escondem idolatrias cultivadas a ponto dessas pessoas passarem a defendê-lo mesmo que o senhor se torne o mais novo entusiasta do neonazismo. Estas pessoas, que lhe cobrirão de carinho – e sempre é bom ser amado, quem duvidará disso? – são incapazes de repreendê-las. Já nas mesas fartas os problemas reais do mundo, viram apenas teses, especulações, material para retórica. Nas mesas fartas, nos lugares de honra, a verdade não se esconde, nem aparece. Ela é escamoteada. Freqüentar estes lugares nos deixa, pouco a pouco, arrogantes, donos da verdade – e bater nos donos da verdade, com o tempo, torna-se apenas mais um exercício de arrogância, não de compaixão. A gente decreta máximas, despreza pessoas que não participam da mesma ceia que nós, e fica pensando que está defendo o que é certo e combatendo o que é errado. As mesas fartas e os tapinhas nas costas, além dos olhares brilhantes de admiração cega e fecham a porta para verdade. Ficamos trancados em salas cheias da nossa verdade, que muitas vezes não passa da afirmação d que tudo é verdadeiro, ou que nada pode ser digno de ser chamado de verdade – mentirinhas nietzscheanas que estão na moda.
Finalmente, sugiro ao senhor que volte a ler Sócrates (Platão, leia Platãom as ouça Sócrates). Ele era bem arrogantezinho, mas tinha um talento imenso para estabelecer o diálogo, do qual não fugia nunca, principalmente com as pessoas de quem discordava. A riqueza intelectual mora na discordância produtiva.
O senhor bem deve ter percebido como sou um autêntico discípulo seu. Escrevi máximas, algumas bem legais, outras de gosto duvidoso, como convém a quem não é genial. Mas por ora ainda me falta crer na própria genialidade – nestedia, fundarei a minha própria igreja!

sexta-feira, novembro 12, 2010

Pastor ou hiena?

Sempre é triste para um cristão ouvir que alguém perdeu a fé (http://networkedblogs.com/asN9w). Quando este alguém é um pastor, responsável por fortalecer a fé das ovelhas e por zelar pela vida espiritual delas, a notícia torna-se um tanto mais triste. Todavia, o que é triste ainda pode ser legítimo. Cremos em Deus e o louvamos pela possibilidade do livre arbítrio. A nós, que permanecemos no barco do cristianismo, cabe apenas orar e pedir que Deus interceda pela vida do ex-pastor, que ele tenha um reencontro com Deus e que aquilo, ou melhor, Aquele em quem ele já acreditou volte a fazer sentido.
O que torna notícias de pastores “desviados”, para usarmos um jargão evangélico que para mim faz muito sentido, ainda mais tristes e dramáticas é o fato desses líderes de igrejas continuarem em seus cargos, não por picaretagem ou oportunismo, mas porque não sabem fazer outra coisa na vida além de pastorear e porque correm o risco de verem tudo ao seu redor desmoronar. Para estas pessoas, sem fé e sem autenticidade, a vida passa a ser uma mentira; eles precisam esconder sua nova condição, de agnóstico, de ateu, até de suas esposas e famílias, de seus amigos mais próximos, e continuam pregando, orando, aconselhando e usando a bíblia como principal ferramenta de trabalho. Os mais honestos ainda selecionam os textos de seus sermões, buscando falar sobre valores em que ainda acreditam – valores, não sobre um Deus que criou tais valores – outros, vão passando da crise para o esconderijo e daí para o cinismo, manipulando a Palavra de Deus e os membros de suas igrejas, transformando a fé alheia em negócio, em moeda de troca.
É triste alguém perder a fé. Mais triste ainda quando se trata de um pastor. Triste e sufocante perder a fé e precisar usar uma máscara; triste e canhestro perder a fé e transformá-la em cinismo e manipulação. Não há receita para este problema, mas, acredito, seria bem o caso das igrejas começarem a incentivar que seus pastores e seminaristas tenham outra formação, além a de teólogo e pastor. Um modo prudente e positivo de evitar que a fé vire um mero osso a ser roído.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Beijos & Versos

Ana Maria Machado afirma no prefácio do livro Comédias Para se Ler na Escola, de Luis Fernando Veríssimo, que é tão absurdo dizer “eu não gosto de ler” quanto afirmar “eu não gosto de comer”. Assim como não gostamos de tudo que nos oferecem à mesa – Couve? Repolho refogado? Quiabo? Coco? Argh! – também não podemos dizer que não apreciamos absolutamente nada que seja escrito.
Sim, a variedade de opções de leitura é tão grande quanto os gostos de cada indivíduo e, imagino, muito maior do que as opções gastronômicas disponíveis.
Mas, além da multiplicidade de opções de que podemos dispor quando o assunto é leitura, a afinidade entre o texto e quem lê também é fundamental, e pode ser tão íntima quanto um beijo pode ser.
Ler é como beijar! O leitor de lábios calejados, experimentados, bem sabe que um beijo não depende só de uma pessoa: é um ato conjunto, em que damos e recebemos algo ao mesmo tempo. Algo bom, esperamos, mas que muitas vezes, independentemente da habilidade dos parceiros, a coisa desanda. Por mais exímio beijador que você seja, se o(a) parceiro(a) de bitocas não têm uma pegada significativa, a coisa pode babar. E muito!
Assim como o beijo, a relação entre leitor e texto – e não entre leitor e autor, vale frisar – é única, pessoal e intransferível. Ambos, quem lê e o que é lido, precisam alcançar a mesma sintonia. E não, o fato do texto não agradar a um leitor, não quer dizer nem que o texto seja ruim, muito menos que o leitor seja burro. Significa que, naquele momento, os dois não estavam na mesma “vibe” – e nada impede que, num futuro, próximo ou longínquo, os dois não possam tentar de novo e, aí sim, se completarem. Da mesma forma, o texto que se apresenta exuberante hoje, no futuro pode parecer imaturo, extravagante, pedante e perder o encanto, enquanto o leitor pode ficar mais insensível, exigente, relapso, conservador, chato...
O importante mesmo, para beijos e leituras, é continuar praticando, experimentando. Contudo, creio, a promiscuidade com os textos é bem mais saudável do que a promiscuidade dos beijos. Pelo menos é muito mais “seguro” e nos leva a experiências bem mais diversas do que um beijo – por mais saboroso que ele seja.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Comentário e contra-aforismo VII

Pensamento inconcluso
Esse Nietzsche, na verdade, tinha uma grande inveja de Jeová, pois achava-se mais apto para o cargo de Deus. Afinal, em seu currículo constavam Filologia, Letras Clássicas e uma boa experiência em platonices abesteiradas e como queridinho da irmãzinha desprovida de grandes atributos estéticos.
Dionísio Pennafort, crítico literário obtuso e igualmente rancoroso, protestante, num momento de desabafo quase contido.

VII
Há vertentes do cristianismo que são completamente nietzscheanas, pois renegam o exercício da piedade. Nesses casos, seja pela ambição desmedida de poder – pensemos em alguns papas glutões, devassos e tiranos – seja pela busca incessante por bens materiais e curas milagrosas, na contramão cristã denominada Teologia da Prosperidade, a piedade é sinônimo de fraqueza. No primeiro caso, os personagens são déspotas e pronto. No segundo, o povo, guiado por cegos, acredita que Deus criou um sistema no qual pode tornar-se refém de quem agir de acordo com um determinado programa que inclui falso moralismo e grandes sacrifícios em forma de gordas ofertas a determinados “ministérios”. Aqueles não são piedosos por opção de vida; esses, nem lembram que a piedade existe, e a julgam mesmo desnecessária, pois quem carece de piedade está em falta com as prestações do carnê do baú da felicidade celeste.
De fato a piedade é antinatural e luta ao lado dos condenados pela vida. E é justamente por isso que a morte do Nazareno não foi desproporcional: sendo todos nós condenados pela vida, só mesmo um grande sacrifício para nos salvar a todos.
Em nossos tempos, podemos dizer que a piedade cristã é falha quando não existe – na Teologia da Prosperidade, por exemplo. Não é piedoso o que condena, o que ultraja, o que oprime – seja ele cristão ou não. O único problema da piedade é quando ela ocorre num sentido de superioridade de quem a pratica, pois isso implica no piedoso julgar aos outros inferiores; quando ela é praticada na forma da compaixão e da identificação – estamos todos no mesmo rebanho de condenados – torna-se elevada, sublime, iguala os homens, estabelece a paz e desdenha dos conflitos e da guerra. É assim que a vida é preservada, sem a nojenta prática do darwinismo social, ao qual o próprio sifilítico, meio doido, enxaquecado, nauseabundo, estrábico e feio pra diabo Nietzsche não sobreviveria.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Contra-aforismos V e VI para o Anticristo de Nietzsche

V
Toda vez que o cristianismo trava uma guerra, fracassa, principalmente quando a vence. A única guerra válida acontece no campo espiritual...
De fato, como bem disse Nietzsche, o cristianismo é para os fracos, pois esses precisam ser fortalecidos, por isso buscam a Deus. Os fortes, normalmente, são capazes de grandes feitos, como as guerras mundiais, a invasão ao Iraque e ao Afeganistão e o atentado de 11 de setembro, e costumam chamar a seus adversários de parlapatões, como nosso ex-presidente Fernando Collor.

VI
Um belíssimo espetáculo se apresentou diante de mim: a troca da virtude pelo amor (é piegas, eu sei, mas até Shakespeare perde a mão de vez em quando).
Um aterrador espetáculo se apresentou diante dos meus olhos. Um homem altamente erudito gastou suas poucas energias transformando paranoia em filosofia e arregimentou um exército de seguidores ao longo dos séculos.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Sem Fundo

No Buraco, de Tony Bellotto, é o primeiro grande romance sobre o rock brasileiro

Toscos festivais universitários pelo interior, o início da agonia da indústria fonográfica mundial, figurinos espalhafatosos, pequenas doses de mistério, um senso de humor que por vezes chega ao hilário, sexo, drogas e rock´n´roll. E o que é melhor: tudo isso num clima meio autobiografia, meio confissão, muita ficção. O jogo mais delicioso em O Buraco, novo livro de Tony Bellotto, é descobrir o que ali é realidade mal disfarçada, o que é ficção pura – aliás, a ideia de ficção pura, estou cada vez mais certo disso, é pura ficção.
Dentre muitas coisas, é possível dizer que No Buraco não é apenas, o que já não seria pouco, um livro sobre a fase áurea do rock brasileiro: sua leitura é bastante agradável e fluente, com um ritmo entre caótico e frenético, mas nunca truncado, fruto das reminiscências de seu narrador, um ex-guitarrista de rock que pretende se tornar escritor – alter-ego de Bellotto? Vai saber...
De certo, pode-se afirmar que as histórias que vão se amontoando, saídas da mente já nem tão saudável do narrador, são costuradas por acontecimentos inusitados que dão ao romance um ar “quase” policial. Há pouco para descobrir, e os mistérios não são o centro das peripécias do guitarrista coroa, meio junkie e meio patético que vive de um passado pouco glorioso, numa quitinete em Perdizes – retrato perfeito de sua decadência que ainda fuça as migalhas de “nobreza” – lidando com as sobras de seu sucesso, especialmente com as mulheres, e com a ajuda de sua mãe, antes que ela adoecesse – afinal, o universo do rock é pródigo em personagens que se recusam a sair da adolescência, no bom e no mau sentido.
Enfim, No Buraco é essencial para quem curtiu – ou ainda curte, como eu – o rock brasileiro dos anos oitenta, mas não abre mão de uma história bem-feita. Diversão e arte garantidas!

Contra-aforismos III e IV de O Anticristo, de Nietzsche

III
A questão não é criar uma guerra de argumentos para defender o cristianismo. A questão é almejar ser como Cristo. Ele, que sendo poderoso, fez-se de fraco no meio dos fracos; que direcionou seu olhar e seus atos aos que eram sabidamente inferiores – a chamada raça humana de um modo geral. O cristianismo como sistema religioso e político não nos interessa justamente por ser faminto de mais e mais poder. O cristão como espelho, ainda que muito embaçado, de Cristo: esse é o objeto de nossa defesa e admiração, a nossa meta. Percentualmente falando, não há muitos desses caras por aí, não...

IV
Concordamos com o bigode: Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se.
Discordamos do bigode: o tipo superior, principalmente o que tem consciência disso, costuma ser o que mais dá mostras de que a humanidade é capenga.
Quanto ao Super-Homem: o Batman e os X-Men não são mais legais justamente por que são humanos, demasiadamente humanos? Jorel só é interessante como metáfora do Cristo encarnado. Contudo, não nos identificamos com ele, apenas o admiramos e dependemos dele. O quê? Vai dizer que você nunca desconfiou de que o Super-Homem é uma espécie de Jesus do gibi?
Entretanto, Nietzsche não leria gibis, mesmo que o desenhista fosse Leonardo da Vinci – mas o Salvador Dalí não é muito mais legal? Ah, o bigode diria que a arte surrealista é sintoma de grave doença social...

sexta-feira, setembro 17, 2010

II (o segundo contra-aforismo)

O que é bom? Tudo aquilo que nos humaniza, a ponto de não precisarmos correr atrás de poder. O que nos irmana, seja a lágrima, seja o riso. Trufa de chocolate. A compaixão. Gelatina, qualquer que seja o sabor. As pedaladas de Robinho, a competência plástica dos gols de Ronaldo, a dança aérea de Michael Jordan, a genialidade de Ganso. Os versos de Bandeira, a pulsação de Cabral, a vertigem de José Régio, o espanto de Clarice, o louco teatro de Fernando Pessoa, a palavra encantada de Drummond, a infância de Manoel de Barros. Pular ondas na praia numa tarde quente. Cheiro de criança (dizem que elas têm o odor divino). Chico Buarque e Edu Lobo. A cidade do Rio de Janeiro. O avesso da guerra. A virtude com aroma feminino. Uma boa conversa silenciosa com Deus.
O que é mau? Tudo que somos capazes de fazer por um minuto mal aproveitado de prazer, tudo o que nos automatiza, nos esvaziando de emoções, tudo aquilo que nos ilude, nos fazendo caçar vorazmente aquilo que acreditamos ser o poder.
Além, disso, o Corinthians, o João Kleber, o Sergio Naya, a família Bush, couve manteiga e repolho refogado, crises de TPM (principalmente se você for homem), escolher a cor da cortina e boa parte dos membros das famílias imperiais de Alagoas e do Maranhão também. Tudo isso representa a gana e as ilusões do poder – menos o Corinthians, mas nem por isso ele deixa de ser ruim...
Quanto aos fracos, aos incapazes: que Deus tenha misericórdia de nós, nos fortaleça e nos carregue em seus braços. Quanto aos fortes: que Deus os perdoe.

poeminha grandiloquente tipo nietzsche

Batam-me, devotos de Nietzsche!
Acendam suas velas
Rasguem suas roupas de grife!
Declaro, para espanto meu
Que tudo o que esse mundo ao parvo ofereceu
Foi o ódio a Deus
Por não ser ele próprio um deus!

Voltemos aos aforismos.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Nietzsche está morto?

É do bigodudo a afirmação de que Deus está morto. Numa represália bem-humorada e, ao menos para os crentes, verdadeira, lapidaram a frase “Nietzsche está morto” e a atribuíram a Deus.
O certo é que Deus, que não erra, jamais afirmaria tamanho absurdo. Nietzsche está vivo, talvez até mais do que no período em que andou pela terra. Não digo com isso que ele plana por aí como alma penada, que forjou sua morte e está passando férias na Jamaica ou na Holanda, tampouco me refiro a uma vida após a morte. Nietzsche está vivo filosoficamente, politicamente e culturalmente, ou não estaríamos aqui preocupados em refutar suas afirmações e o fascismo, o nazismo, o futurismo, o imperialismo americano, o instinto de superioridade cultural europeu, a xenofobia, o hedonismo, o materialismo e outras pérolas da sociedade contemporânea não seriam uma realidade tão marcante. Ele não criou nada disso, mas todas essas práticas, a partir do século XX, passam pelos escritos – e pela aprovação – do prussiano.
Nietzsche, o sósia de Camilo Castelo Branco, está mais vivo do que nunca. A ele se dirigem filósofos, sociólogos, políticos e artistas; nele se encontram intelectuais de várias vertentes; por sua cartilha rezam várias pessoas.
Por outro lado, Deus também está vivo, embora com muito menos relevância e prestígio do que mereceria; ao menos nos meios intelectuais, o filósofo da Baviera tem mais moral que o divino. Digo mais: Nietzsche é o deus, eleito por muitos, dessa nossa “pós-modernidade”. Mas, é necessário que se diga – na verdade, creio que nem seja tão necessário assim – que não estamos melhores com esta nova divindade do que estaríamos se nos voltássemos para o Deus do cristianismo; a História, até mais do que a teologia, está aí para nos dar razão.
Nietzsche está vivo, por exemplo, quando os mais fracos são desprezados, quando moradores de rua são queimados, quando presos de guerra são torturados, quando soldados estadunidenses violentam afegãs e iraquianas, quando Cuba deixa de receber ajuda do exterior, quando policiais espancam adolescentes inocentes pelos becos das metrópoles brasileiras, quando missionários cristãos são queimados vivos, linchados e esquartejados nos países muçulmanos do Oriente Médio e da África. Ele também está vivo nas palavras dos ateus que julgam os crentes, em especial os cristãos, seres inferiores do ponto de vista intelectual, moral, social...
Veja bem: não digo que Nietzsche pregou abertamente a favor dessas coisas, nem que o policial truculento que humilha os cidadãos na baixada fluminense conheça profundamente a obra Bigode; eu também não conheço – e aqui se deleitarão os que, ao lerem estas linhas, discordarão de tudo quanto escrevo; digo: dane-se. Mas as ideias do prussiano estão espalhadas pelo mundo, postas em prática por quem o admira, por quem nunca ouviu falar dele, por quem certamente seria desprezado pelo próprio Nietzsche. Essa constatação empresta muita vitalidade à obra desse renomado filósofo...

quarta-feira, setembro 01, 2010

Ataque frontal

Aqui, apresento uma reflexão nada acadêmica sobre ideias contidas no Anticristo. Depois, mando mais um contra-aforismo.


Muita gente vê com péssimos olhos o cristianismo. Guerras, escravidão, especulação financeira, xenofobia, pena de morte, imperialismo, proibição cínica às drogas, conservadorismo, Corinthians, charlatanismo, tudo de ruim é culpa da religião em geral e, no ocidente, do cristianismo em suas mais variadas vertentes. Aliás, o fato de haver inúmeras vertentes do cristianismo já aponta para o fracasso de seus princípios: se não conseguimos entrar em acordo entre nós, como vão acreditar em nossa pregação a respeito de um reino futuro sem demandas ou diferenças, onde todos serão de todos amigos, súditos de um mesmo Rei, felizes? Não conseguimos concordar nem sobre o caráter do próprio Deus a quem dizemos conhecer tão bem...
O principal problema desse tipo de crítica não é a falta de fundamento, já que muita atrocidade existente no mundo é praticada por cristãos e, pior ainda, não raro em nome de Deus. A falha é atribuir a Cristo responsabilidades que ele de fato não tem.
Nietzsche sabia disso, ou ao menos deveria saber. Tanto que seus ataques não são direcionados a Jesus, mas ao cristianismo, para ele duas coisas bastante distintas e mesmo dissociadas . Mais uma vez, devemos dar ao filósofo ao menos uma cota de razão. Não podemos responsabilizar Jesus pelas cruzadas, pelo genocídio de índios, pela escravização de negros, pela perseguição aos judeus no regime nazista, pela guerra do Iraque, pela Inquisição, pelo genocídio de camponeses que acompanhou a Reforma Protestante ou pelo pensamento fundamentalista, xenofóbico e genocida da ku klux klan. Contudo, à frente de cada um desses eventos, a cruz era o estandarte: os seguidores de Cristo, dizendo cumprir mandamentos seus, promoveram boa parte das desgraças humanas históricas.
Mas, se engana quem acreditar que as críticas de Nietzsche eram a respeito da violência engendrada por católicos, ortodoxos e protestantes. É possível que alguns desses atos fossem aplaudidos de pé pelo prussiano. Qual é a primeira e forte crítica que surge em O Anticristo contra o cristianismo? A tendência à piedade, à compaixão, que Nietzsche considerava a grande fraqueza humana.
Para ele, o cristão é a “grande besta humana” . O cristianismo é um modo de vida que valoriza os fracos, os incompetentes, dissemina a compaixão, inferioriza os fortes. E, sem a devida valorização dos fortes, sem o desejo de poder – raiz de tudo o que é bom, segundo o bigodudo – a humanidade tende a enfraquecer-se. Os fracos, em vez de receberem piedade e compaixão, devem ser aniquilados.
Se o leitor menos inteirado do assunto notar uma semelhança entre estas ideias, apresentadas logo no início de O Anticristo, e as bases do fascismo, não estranhe: elas realmente foram usadas na formulação ideológica do nacional-socialismo de Hitler e por outros ditadores da primeira metade do século XX, de Mussolini a Franco, passando por Salazar e chegando à América Latina com a simpatia de Getúlio Vargas e a competência carniceira de Pinochet. Hoje, muitos dizem que Nietzsche teve suas reflexões distorcidas para que estas atendessem ao real interesse da extrema-direita europeia. Depois veremos se isso é verdade ou não.
Verdade mesmo é que este pensamento voltado para a busca de poder, de elevação, de superioridade, de subjugar e eliminar os mais fracos, alastrou-se pela Europa na primeira metade do século XX. Se pensarmos no futurismo de Marinetti, que exaltava a guerra, as máquinas e execrava as bibliotecas, museus, as mulheres e etnias consideradas inferiores, veremos reflexos de conceitos nietzschianos, por exemplo. Ainda que o filósofo alemão não fosse um entusiasta da modernidade, posto que sua paixão e seus referenciais estivessem na Antiguidade Clássica e no Renascimento, nos parece óbvio que o poder, para ele a base do que é bom, é manifestado com maior destaque quando comparado a algo ou alguém que não dispõe do mesmo poder. É a óbvia experiência do contraste: para que eu me sinta belo, a figura do feio se faz necessária; no entanto, o mesmo ideal de beleza justifica que o feio, o pobre, o fraco, sejam exterminados. Isso fica mais claro quando pensamos que não há limites nesta busca pelo poder declamada por Nietzsche, onde a guerra deve ser exaltada, em detrimento da paz. Esta parte da lição, Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Pinochet, Bush, Slobodan Milosevitch, Nicolai Ceausescu, Stálin, e alguns outros ditadores e/ou genocidas aprenderam muito bem. Quais foram as referências históricas de Nietzsche? Os ditadores e imperadores da Antiguidade.
Verdade é que estamos apenas nas primeiras páginas do livro aqui esmiuçado; também, sempre é bom lembrar, não há aqui nenhum tratado filosófico. Vamos prosseguir para ver a que conclusão chegaremos, e nossa opinião pode mesmo mudar, pois defendemos ardorosamente o direito do homem a mudar de opinião, sabendo que com isso concordarão Ferreira Gullar, Fernando Henrique Cardoso, Ronaldo Fenômeno, Eduardo Paes, Gilberto Kassab, Lula, Fernando Collor et caterva.

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