Começo sem suspense: o novo filme do diretor de Dogville e Manderlay é, sim, chato. Mas é preciso dizer que coisas chatas também podem perturbar – uma das funções da arte.
O Anticristo é um filme grotesco: faz o sexo e o amor parecerem coisas horrendas, tem um ritmo irritantemente lento que nos incomoda desde a primeira sequência; até uma tomada de sexo explícito rola. Se a intenção do diretor é atormentar seus espectadores, não tenham dúvida de que Lars von Trier alcança extremo êxito.
Enquanto assistia ao filme ficava pensando o tempo todo sobre o que levaria os atores a participar de um filme como aquele: será que o roteiro sugeria outro tipo de coisa? Estavam precisando desesperadamente de dinheiro? Viam na história e no prestígio de trabalhar com um dos diretores “cabeça” mais aclamados do mundo uma possibilidade de participar de uma obra de “vanguarda”? O que se passa pela cabeça do próprio diretor, honestamente, me intriga menos, pois todo artista sempre consegue ver sentido e “função” em sua obra; aliás, de vez em quando apenas o próprio autor consegue ver algo que justifique seu trabalho.
Mas imagino que O Anticristo tenha saído do jeito que seu diretor desejava, ou ao menos muito próximo disso. O trabalho de fotografia é simplesmente deslumbrante, e é responsável por alguns momentos em que a plateia se vê lançada para fora da poltrona e tem suas emoções realmente reviradas – mas as cenas escatológicas, que misturam sexo e violência de um modo realmente insano, é que ficam em nossa memória por mais tempo; ao menos ficaram na minha.
O filme não quer agradar, como todo mundo já imaginava. Ele lida com sensações, como ansiedade, medo, angústia, e até dor, de um jeito que não vemos todo dia. É sensorial ao extremo, e nesse ponto é um grande sucesso.
O Anticristo de Lars, que não relação alguma com Nietzsche, Marilyn Manson, leituras equivocadas do Apocalipse e que dispensa até mesmo o próprio satanás, não é um filme que eu recomendaria a ninguém, mas estou escrevendo, sem obrigação alguma, sobre ele; algum significado isso deve ter...
segunda-feira, setembro 28, 2009
sexta-feira, maio 01, 2009
MUDANÇA DE RUMO!
NESSA SEMANA, SÓ TEXTOS RELACIONADOS À EDUCAÇÃO. FILMES, IDEIAS, PICARETAGENS E ANGÚSTIAS. PRO DIA NASCER FELIZ, VERÔNICA, OS FILMES. PAGAMENTO POR PERFORMANCE, DEPRESSÃO ENTRE PROFESSORES, AS IDEIAS; APEOESP E PSDB, AS PICARETAGENS. E MAIS ALGUMA COISA QUE APARECER NO CAMINHO.
terça-feira, abril 28, 2009
antessala
um passo antes
de qualquer paixão
um balde cheio de medo
um cisco gelado de insegurança
a cratera incerta de um tenso desejo
contradançam
no piso movediço
da pele em flor
de qualquer paixão
um balde cheio de medo
um cisco gelado de insegurança
a cratera incerta de um tenso desejo
contradançam
no piso movediço
da pele em flor
segunda-feira, abril 27, 2009
Não foi o Corinthians, foi o Ronaldo
Sou santista.
Começar um texto assim hoje cria expectativas, por conta do jogo de ontem. Esperarão rancor, reclamações, despeito e toda ira que um santista poderá despejar por conta de uma derrota, em casa, com um placar que não pode deixar dúvidas quanto ao mérito do adversário que é justamente o Corinthians, sendo que, tirando o “detalhe” do gol, o Peixe foi muito superior.
Acontece que no futebol, ao contrário o que pensam alguns "especialistas", o gol não é detalhe, e o Corinthians conta com um dos maiores especialistas de fato nessa área. Já devíamos desconfiar disso, pois, mesmo quando estava afastado dos gramados, ainda em recuperação, soubemos que Ronaldo não deixava de treinar com duas, quatro, ou mesmo seis bolas ao mesmo tempo – para aguçar seu domínio – e deixava claro que, para ele, tanto fazia jogar enfiado ou ser o homem que vem de trás, exatamente como ele vem fazendo nos jogos.
Desde que voltou a jogar, Ronaldo teve que superar uma série de desconfianças sobre suas condições. Era golpe de marketing? Sim, não deixava de ser. Ele não estava em plenas condições de jogar futebol profissionalmente? Não, não estava. Sua cabeça estava mais nas baladas e na curtição do que na carreira? Não há dúvidas. Mas aí, pouco a pouco, o cara resolveu jogar, foi fazendo gols, retomando o gosto pela coisa – tudo bem, os jogadores que enfrentou por aqui são, em sua maioria, cabeças de bagre – e aí ele veio, gol a gol calando a boca dos desconfiados.
Seu primeiro gol na “volta”, contra o Palmeiras, foi supervalorizado. Jogada chinfrim, um simples gol de cabeça em que a defesa adversária ficou plantada apenas assistindo, teve repercussão mundial e babação de ovo até de jornalistas sérios, uma grande manipulação e tal. Ronaldo ainda não havia conquistado alguns céticos.
Até que, no jogo de ontem, o cara domina a bola com maestria no segundo gol do Corinthians e arremata com eficiência e, pra completar, marca um golaço, coisa que só craque consegue fazer. Ontem, por causa de Ronaldo, o Corinthians teve duas chances claras de gol e marcou três vezes! Sim, pois o terceiro gol não seria uma chance clara de gol, foi algo tirado da cartola!
A última boca que Ronaldo ainda não havia calado, a minha, fechou-se ontem, com amargura, mas também com reconhecimento.
Não abro mão do meu papel de torcedor, que é essencialmente torcer, mas, precisando marcar três gols sem sofrer nenhum, jogando contra um time que vai explorar os contra-ataques e que tem Ronaldo na frente, devo dizer que dessa vez, Peixe, com todo respeito ao Madson, já era.. mas, perder pro Ronaldo (esqueçam o Corinthians), ainda mais jogando como o Santos tem jogado, não é nenhuma vergonha, não: é apenas a ordem natural das coisas.
Começar um texto assim hoje cria expectativas, por conta do jogo de ontem. Esperarão rancor, reclamações, despeito e toda ira que um santista poderá despejar por conta de uma derrota, em casa, com um placar que não pode deixar dúvidas quanto ao mérito do adversário que é justamente o Corinthians, sendo que, tirando o “detalhe” do gol, o Peixe foi muito superior.
Acontece que no futebol, ao contrário o que pensam alguns "especialistas", o gol não é detalhe, e o Corinthians conta com um dos maiores especialistas de fato nessa área. Já devíamos desconfiar disso, pois, mesmo quando estava afastado dos gramados, ainda em recuperação, soubemos que Ronaldo não deixava de treinar com duas, quatro, ou mesmo seis bolas ao mesmo tempo – para aguçar seu domínio – e deixava claro que, para ele, tanto fazia jogar enfiado ou ser o homem que vem de trás, exatamente como ele vem fazendo nos jogos.
Desde que voltou a jogar, Ronaldo teve que superar uma série de desconfianças sobre suas condições. Era golpe de marketing? Sim, não deixava de ser. Ele não estava em plenas condições de jogar futebol profissionalmente? Não, não estava. Sua cabeça estava mais nas baladas e na curtição do que na carreira? Não há dúvidas. Mas aí, pouco a pouco, o cara resolveu jogar, foi fazendo gols, retomando o gosto pela coisa – tudo bem, os jogadores que enfrentou por aqui são, em sua maioria, cabeças de bagre – e aí ele veio, gol a gol calando a boca dos desconfiados.
Seu primeiro gol na “volta”, contra o Palmeiras, foi supervalorizado. Jogada chinfrim, um simples gol de cabeça em que a defesa adversária ficou plantada apenas assistindo, teve repercussão mundial e babação de ovo até de jornalistas sérios, uma grande manipulação e tal. Ronaldo ainda não havia conquistado alguns céticos.
Até que, no jogo de ontem, o cara domina a bola com maestria no segundo gol do Corinthians e arremata com eficiência e, pra completar, marca um golaço, coisa que só craque consegue fazer. Ontem, por causa de Ronaldo, o Corinthians teve duas chances claras de gol e marcou três vezes! Sim, pois o terceiro gol não seria uma chance clara de gol, foi algo tirado da cartola!
A última boca que Ronaldo ainda não havia calado, a minha, fechou-se ontem, com amargura, mas também com reconhecimento.
Não abro mão do meu papel de torcedor, que é essencialmente torcer, mas, precisando marcar três gols sem sofrer nenhum, jogando contra um time que vai explorar os contra-ataques e que tem Ronaldo na frente, devo dizer que dessa vez, Peixe, com todo respeito ao Madson, já era.. mas, perder pro Ronaldo (esqueçam o Corinthians), ainda mais jogando como o Santos tem jogado, não é nenhuma vergonha, não: é apenas a ordem natural das coisas.
sexta-feira, abril 24, 2009
Lista, poluição e o inominável!
Quando falta assunto, é comum entre os cronistas jogar listas de sinônimos na página. Elas dão um ar engraçado, reforçam imagens, “engrossam” o texto. Por exemplo: crônica com “cachaça”, certamente terá pinga, mé, água que passarinho não bebe, aquela que matou o guarda, aguardente, cana, purinha; porre garantido! Alguns desses termos só existem mesmo é no meio das crônicas, o que denuncia sua artificialidade. Outro artifício é falar sobre o tempo: o calor causticante, o tsunami, a floresta incendiada, as geleiras derretidas.
Essas listas não são exclusividade dos cronistas, que precisas escrever toda semana. As conjunções adversativas adoram andar em família: mas, porém, contudo, entretanto, todavia. Talvez, quiçá, quem sabe, as adversativas formem a lista preferida de professores e contadores de casos a cada dia mais reais, como furacões, tempestades e terremotos.
Na maioria das vezes, as listas servem é pra esconder nossa preguiça e desperdiçar o valioso papel. Machado de Assis ensinou que a crônica nasce do banal: alguém reclama do tempo e já temos a desculpa necessária para uma boa conversa – e toda crônica não passa de uma boa conversa. Com o calor que vem fazendo, vivemos a era das crônicas!
Entre os grandes escritores, as listas também aparecem, mas com estilo, não para apenas preencher espaço. Guimarães Rosa, por exemplo, arrolou vários sinônimos nomes para o diabo. Eita cabra pra ter apelido, esse tinhoso! São incontáveis, e existem justamente para que não o chamemos pelo nome. Recusar a (des)graça do cão resulta no oposto, pois em vez de evitá-lo, lhe damos destaque exagerado, para que todos saibam de quem não estamos falando: não o queremos por perto e não paramos de citá-lo!
Ele é o diabo, satanás, o cão, tinhoso, pai da mentira, rompe-mato, o barriga-dura, astarote, baal, rei de Tiro, leviatã, gramunhão, cabrunco, demóstenes, pé-de-cabra, bode-preto, chifrudo, zé-pelintra, dragão, grande prostituta, couro-de-sapo, reza-curta, comunista, santantão, rasculeno, tripa-torta, repelente, indigitado, indizível, cabeça-de-área, anticristo, zero-zero, capeta, esbugalho, encruzilhado, é o caboclo sete-folha-verde, ossanhoxossuê, regra-frouxa, príncipe deste século, maligno, cavalo-em-casco, chá-de-pão, nem-me-diga, chega-e-vira (isso é nome de passarinho!; passarinho pega bem em crônica!), a serpente, o valente, cartola (não o músico!), coxinha, bruaca, rebordosa, patrão, relógio-de-ponto, série B, sogra, ré-no-quibe, baba-canivete, música-de-trabalho, babilônia, meia-meia-meia, adversário, inimigo das nossas almas, anjo caído, inominável, é o lúcifer.
Se a lista resulta inútil – não a de Guimarães Rosa: a minha – ao menos preenche o espaço da coluna. Estou virando cronista profissional!
Mudando de assunto (ainda temos espaço): e o aquecimento global, hein?
Deveria ser sabido de todos que o aquecimento global não é assunto exclusivo de ativistas ambientais: sem vida, não há ideologia possível. Não é frescura de jovem rico procurando algo para se rebelar, nem golpe de grande laboratório querendo vender algum creme milagroso contra raio ultra-violeta; também não é lenda urbana ou mero tema para filme americano: caminhamos para o fim do mundo, o apocalipse, a consumação dos séculos, o armagedon, o the end...
Bom reflexo de nossa maneira narcisista de viver, interessada no aqui e no agora, nosso descaso com a natureza gera uma justa resposta: a terra treme, o vulcão vomita, o furacão engole casas, o sol racha solo e cucas, a neve soterra carros e plantações, o mar devora cidades, pescadores e turistas. Mesmo assim, mantemos nossos hábitos “civilizados”: jorramos dióxido de carbono pelos ares, mutamos alimentos em venenos cancerígenos, arrancamos árvores descontroladamente, promovemos queimadas, endurecemos pulmões (nossos e alheios) com nicotina, estouramos tímpanos com barulho excessivo, espalhamos cartazes, placas e faixas sem o menor critério, soltamos balões, “genocidamos” sem clemência ou motivo. A exemplo do que fazem com o diabo, evitamos o problema enquanto nos afundamos nele: bitucas de cigarro, latas de alumínio, garrafas, embalagens plásticas, tudo pelas ruas, entupindo bueiros, emporcalhando rios, chamando enchentes; desperdício de água, de eletricidade – mil aparelhos ligados ao mesmo tempo – buzinas gritando, simpatia negada, solidariedade economizada, papel desperdiçado; nada disso, fingimos, interfere na saúde precária do planeta: canastrões, interpretamos o papel de vítima do sistema.
E ri-se satanás, o racha-cuca, o água-poluída, o efeito-estufa, o não-reciclado, o desmatamento, enquanto o sol desaba sobre nossas cabeças, sobre nosso futuro...
Contudo, existe uma lista de três palavrinhas, não de sinônimos, que contém os elementos necessários para reverter nossa história: fé, amor e esperança.
Tem feito calor ultimamente, não?
Essas listas não são exclusividade dos cronistas, que precisas escrever toda semana. As conjunções adversativas adoram andar em família: mas, porém, contudo, entretanto, todavia. Talvez, quiçá, quem sabe, as adversativas formem a lista preferida de professores e contadores de casos a cada dia mais reais, como furacões, tempestades e terremotos.
Na maioria das vezes, as listas servem é pra esconder nossa preguiça e desperdiçar o valioso papel. Machado de Assis ensinou que a crônica nasce do banal: alguém reclama do tempo e já temos a desculpa necessária para uma boa conversa – e toda crônica não passa de uma boa conversa. Com o calor que vem fazendo, vivemos a era das crônicas!
Entre os grandes escritores, as listas também aparecem, mas com estilo, não para apenas preencher espaço. Guimarães Rosa, por exemplo, arrolou vários sinônimos nomes para o diabo. Eita cabra pra ter apelido, esse tinhoso! São incontáveis, e existem justamente para que não o chamemos pelo nome. Recusar a (des)graça do cão resulta no oposto, pois em vez de evitá-lo, lhe damos destaque exagerado, para que todos saibam de quem não estamos falando: não o queremos por perto e não paramos de citá-lo!
Ele é o diabo, satanás, o cão, tinhoso, pai da mentira, rompe-mato, o barriga-dura, astarote, baal, rei de Tiro, leviatã, gramunhão, cabrunco, demóstenes, pé-de-cabra, bode-preto, chifrudo, zé-pelintra, dragão, grande prostituta, couro-de-sapo, reza-curta, comunista, santantão, rasculeno, tripa-torta, repelente, indigitado, indizível, cabeça-de-área, anticristo, zero-zero, capeta, esbugalho, encruzilhado, é o caboclo sete-folha-verde, ossanhoxossuê, regra-frouxa, príncipe deste século, maligno, cavalo-em-casco, chá-de-pão, nem-me-diga, chega-e-vira (isso é nome de passarinho!; passarinho pega bem em crônica!), a serpente, o valente, cartola (não o músico!), coxinha, bruaca, rebordosa, patrão, relógio-de-ponto, série B, sogra, ré-no-quibe, baba-canivete, música-de-trabalho, babilônia, meia-meia-meia, adversário, inimigo das nossas almas, anjo caído, inominável, é o lúcifer.
Se a lista resulta inútil – não a de Guimarães Rosa: a minha – ao menos preenche o espaço da coluna. Estou virando cronista profissional!
Mudando de assunto (ainda temos espaço): e o aquecimento global, hein?
Deveria ser sabido de todos que o aquecimento global não é assunto exclusivo de ativistas ambientais: sem vida, não há ideologia possível. Não é frescura de jovem rico procurando algo para se rebelar, nem golpe de grande laboratório querendo vender algum creme milagroso contra raio ultra-violeta; também não é lenda urbana ou mero tema para filme americano: caminhamos para o fim do mundo, o apocalipse, a consumação dos séculos, o armagedon, o the end...
Bom reflexo de nossa maneira narcisista de viver, interessada no aqui e no agora, nosso descaso com a natureza gera uma justa resposta: a terra treme, o vulcão vomita, o furacão engole casas, o sol racha solo e cucas, a neve soterra carros e plantações, o mar devora cidades, pescadores e turistas. Mesmo assim, mantemos nossos hábitos “civilizados”: jorramos dióxido de carbono pelos ares, mutamos alimentos em venenos cancerígenos, arrancamos árvores descontroladamente, promovemos queimadas, endurecemos pulmões (nossos e alheios) com nicotina, estouramos tímpanos com barulho excessivo, espalhamos cartazes, placas e faixas sem o menor critério, soltamos balões, “genocidamos” sem clemência ou motivo. A exemplo do que fazem com o diabo, evitamos o problema enquanto nos afundamos nele: bitucas de cigarro, latas de alumínio, garrafas, embalagens plásticas, tudo pelas ruas, entupindo bueiros, emporcalhando rios, chamando enchentes; desperdício de água, de eletricidade – mil aparelhos ligados ao mesmo tempo – buzinas gritando, simpatia negada, solidariedade economizada, papel desperdiçado; nada disso, fingimos, interfere na saúde precária do planeta: canastrões, interpretamos o papel de vítima do sistema.
E ri-se satanás, o racha-cuca, o água-poluída, o efeito-estufa, o não-reciclado, o desmatamento, enquanto o sol desaba sobre nossas cabeças, sobre nosso futuro...
Contudo, existe uma lista de três palavrinhas, não de sinônimos, que contém os elementos necessários para reverter nossa história: fé, amor e esperança.
Tem feito calor ultimamente, não?
terça-feira, abril 07, 2009
Mudança de rumo?
Informo a todos que estou em estado poético. A prosa, onde caminho com mais facilidade, tem fugido de mim. Gavetas cheias, arquivos abarrotados, tudo entupido de coisas pela metade, inacabadas, quase nem iniciadas. Os versos, as epifanias, coisas diáfanas, palavras estranhas, frases curtas, lirismo doente, me rodeiam, enforcam e trazem à tona após jogar alguma coisa no papel (falar em “papel” já é linguagem figurada o arcaísmo). Não sou poeta, mas estou empoetado!
Vê aí embaixo:
Vê aí embaixo:
segunda-feira, abril 06, 2009
terça-feira, março 31, 2009
Vingança Paguaia
A confusão do Atlas, deus da mitologia sânscrita que precisava dar a volta no mundo em nove semanas e meia, custou a cabeça de Maria Helena, secretária do deixa-estar do governador de Springfield Hommer Simpson. Pode ser o primeiro caso em que um revisor sonolento, talvez por trabalhar demais, derruba, involuntariamente alguém do baixo-calão. Finalmente sopra a vingança do Paraguai, que, segundo Atlas, já dominou as capitanias hereditárias de Cancun e Belize e pretende comer o Brasil pelas bordas ,desd que elas estejam recheadas com requeijão. Paraguai, todos sabemos, se recente da chaga n´alma causada pela derrota na guerra do Peloponeso, quando os marechais Paulo Machado de Carvalho (o do V de vitória) e Camilo Castelo Branco, que também era dublê do filósofo Nietzsche, autor do Pequeno Príncipe, venceram a do Sarriá, destronando definitivamente Lope de Vega, o bardo dos camelôs.
Repercusão do afastamento de Maria Helena:
“Acho uma injustiça. Usamos várias vezes o mapa e ninguém percebeu nada” (professor Gastão, geógrafo dissidente, da APEOESP).
“Absurdo! Agora o Paraguai virou país? Todo mudo sabe que é um estado-satélite de Foz do Iguaçu!” (Berenice, umas professoras que zerou a famigerada prova de classificação dos professores temporários).
“Esse Hugo Chávez...” (Demétrius Calligaris, cientista esotérico e pelego do governador).
Falando sério:
Sou dos mais irritáveis com as condutas do PSDB, principalmente quanto à Educação; contudo, via no trabalho de Maria Helena, ainda que fosse autoritário em muitos aspectos, uma pessoa do ramo, bem-intencionada e ativa. Com a entrada de Paulo Renato, um aventureiro na Educação (não adianta ser professor de Economia de universidade; um economista sabe de educação o mesmo que um professor da rede entende de altos salários). A troca deixa claro que o PSDB continua o mesmo: em vez de atacar os problemas de frente, ainda que errando aqui e ali, prefere organizar tabelas e planilhas, maquiar números e deixar a rotina da sala de aula em segundo plano.
Entendo que mapa com dois Paraguais é erro feio, mas não foi a ex-secretária que fez, revisou, editou, selecionou e aprovou os livros (e outra: sabendo como é a rotina de editores e revisores que convivem com os prazos ridículos, faço meu particular desagravo à todos os envolvidos nesse caso canhestro); sei que a lambança ocorrida com a prova de classificação dos temporários foi provocada pela atualmente funesta APEOESP, que deve ter comemorado a saída de Maria Helena, em detrimento do que ocorrerá com professores e alunos daqui pra frente – certamente algumas jogadas marqueteiras nada pedagógicas, pois nisso Paulo Renato é bom. Entendo tudo, menos a indignação de Serra com o baixo desempenho da educação paulista no cenário nacional e mundial; afinal de contas, Maria Helena foi secretária por alguns poucos anos, enquanto o PSDB está no governo desde 1994. Rose Neubauer e Gabriel Chalita, atual vereador mais votado na capital, devem ser consultados sempre o assunto seja má gestão da educação pública estadual. Chalita ainda mais, pois conseguiu converter incompetência em votos.
A confusão do Atlas, deus da mitologia sânscrita que precisava dar a volta no mundo em nove semanas e meia, custou a cabeça de Maria Helena, secretária do deixa-estar do governador de Springfield Hommer Simpson. Pode ser o primeiro caso em que um revisor sonolento, talvez por trabalhar demais, derruba, involuntariamente alguém do baixo-calão. Finalmente sopra a vingança do Paraguai, que, segundo Atlas, já dominou as capitanias hereditárias de Cancun e Belize e pretende comer o Brasil pelas bordas ,desd que elas estejam recheadas com requeijão. Paraguai, todos sabemos, se recente da chaga n´alma causada pela derrota na guerra do Peloponeso, quando os marechais Paulo Machado de Carvalho (o do V de vitória) e Camilo Castelo Branco, que também era dublê do filósofo Nietzsche, autor do Pequeno Príncipe, venceram a do Sarriá, destronando definitivamente Lope de Vega, o bardo dos camelôs.
Repercusão do afastamento de Maria Helena:
“Acho uma injustiça. Usamos várias vezes o mapa e ninguém percebeu nada” (professor Gastão, geógrafo dissidente, da APEOESP).
“Absurdo! Agora o Paraguai virou país? Todo mudo sabe que é um estado-satélite de Foz do Iguaçu!” (Berenice, umas professoras que zerou a famigerada prova de classificação dos professores temporários).
“Esse Hugo Chávez...” (Demétrius Calligaris, cientista esotérico e pelego do governador).
Falando sério:
Sou dos mais irritáveis com as condutas do PSDB, principalmente quanto à Educação; contudo, via no trabalho de Maria Helena, ainda que fosse autoritário em muitos aspectos, uma pessoa do ramo, bem-intencionada e ativa. Com a entrada de Paulo Renato, um aventureiro na Educação (não adianta ser professor de Economia de universidade; um economista sabe de educação o mesmo que um professor da rede entende de altos salários). A troca deixa claro que o PSDB continua o mesmo: em vez de atacar os problemas de frente, ainda que errando aqui e ali, prefere organizar tabelas e planilhas, maquiar números e deixar a rotina da sala de aula em segundo plano.
Entendo que mapa com dois Paraguais é erro feio, mas não foi a ex-secretária que fez, revisou, editou, selecionou e aprovou os livros (e outra: sabendo como é a rotina de editores e revisores que convivem com os prazos ridículos, faço meu particular desagravo à todos os envolvidos nesse caso canhestro); sei que a lambança ocorrida com a prova de classificação dos temporários foi provocada pela atualmente funesta APEOESP, que deve ter comemorado a saída de Maria Helena, em detrimento do que ocorrerá com professores e alunos daqui pra frente – certamente algumas jogadas marqueteiras nada pedagógicas, pois nisso Paulo Renato é bom. Entendo tudo, menos a indignação de Serra com o baixo desempenho da educação paulista no cenário nacional e mundial; afinal de contas, Maria Helena foi secretária por alguns poucos anos, enquanto o PSDB está no governo desde 1994. Rose Neubauer e Gabriel Chalita, atual vereador mais votado na capital, devem ser consultados sempre o assunto seja má gestão da educação pública estadual. Chalita ainda mais, pois conseguiu converter incompetência em votos.
segunda-feira, março 23, 2009
sábado, fevereiro 14, 2009
Por Onde Andei...
Não é meu hábito ficar contando aqui o que fiz ou deixei de fazer durante a semana; na verdade, nem gosto muito de blogs assim, a não ser que a pessoa tenha algo realmente interessante a dizer sobre sua rotina, e revisar, lecionar, escrever e ler não são assuntos que gerem grandes relatos diariamente, ainda que sejam atividades muito prazerosas. Mas abro exceção para falar de uma oficina que ministrei na agência de publicidade Giovanni+ DraftFCB, em seus escritórios do Rio e de São Paulo. Poucas vezes trabalhei, me diverti e conheci pessoas legais, bem-humoradas, tudo ao mesmo tempo! O assunto, apesar de não ser dos mais apaixonantes – a temida Reforma Ortográfica – rendeu bons comentários, gostosas risadas e algum terror nos oficineiros. Poucas vezes fui tão bem-tratado em um empresa e, ao menos no período em que passaram na oficina, com um clima tão ameno. Deu até vontade de ser publicitário! Mas, para o bem ou para o mal, a educação e a literatura ainda têm o meu passe.
Segunda-feira posto artigo sobre a APEOESP e a lambança que foi esse caso de prova pra professor temporário, liminar aqui, acusação ali...
Não é meu hábito ficar contando aqui o que fiz ou deixei de fazer durante a semana; na verdade, nem gosto muito de blogs assim, a não ser que a pessoa tenha algo realmente interessante a dizer sobre sua rotina, e revisar, lecionar, escrever e ler não são assuntos que gerem grandes relatos diariamente, ainda que sejam atividades muito prazerosas. Mas abro exceção para falar de uma oficina que ministrei na agência de publicidade Giovanni+ DraftFCB, em seus escritórios do Rio e de São Paulo. Poucas vezes trabalhei, me diverti e conheci pessoas legais, bem-humoradas, tudo ao mesmo tempo! O assunto, apesar de não ser dos mais apaixonantes – a temida Reforma Ortográfica – rendeu bons comentários, gostosas risadas e algum terror nos oficineiros. Poucas vezes fui tão bem-tratado em um empresa e, ao menos no período em que passaram na oficina, com um clima tão ameno. Deu até vontade de ser publicitário! Mas, para o bem ou para o mal, a educação e a literatura ainda têm o meu passe.
Segunda-feira posto artigo sobre a APEOESP e a lambança que foi esse caso de prova pra professor temporário, liminar aqui, acusação ali...
domingo, fevereiro 08, 2009
sábado, fevereiro 07, 2009
Todo mundo é poeta frustrado
A verdade é que todo mundo quer ou quis ser poeta. Guimarães Rosa, Jorge Amado, Fernando Bonassi, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Machado de Assis, Nietsche... acho que todo prosador quer é mesmo ver as palavras se engatando umas nas outras até gerarem sons, imagens, versos, ritmos... aí já acho que todo poeta almeja a música, menos o João Cabral!
Quanto escritor famoso começou rabiscando versos para depois perceber que não tinha muito jeito pra coisa e, incapaz de abandonar as letras, pulou para a prosa, sem perder a paixão poética?
Atualmente, a poesia parece perdida, esquecida, sem graça, feita meticulosamente por especialistas, saída de tubos de ensaio, grossos dicionários, engordurados microscópios, a famosa poesia de gabinete. Mas não é verdade que a poesia morreu, ou que agoniza, pois a prosa do Marcelino é poesia em flor, a de Luandino é mel sem versos, a de Guimarães Rosa é poesia em estado puro, como João Cabral, Drummond e Gullar resvalam na prosa, derretem o verso, sem perder a poesia. Pouca gente percebeu, mas já era assim com Graciliano, a poesia por detrás das palavras, por dentro da prosa, alinhavada. E também há os bons poetas tradicionais, com verso ou rima, sempre com ritmo. Nos saraus pelas periferias, em alguns volumes lançados pelas menos covardes editoras, nos blogs, na ponta da língua, no meio da rua, mas sempre refeita, brincalhona, faceira...
É que não faz sentido brincar com palavras se for apenas para elas todas saírem como a fala pálida de fila de banco, repartição pública ou telefonema de telemarketing. A palavra entalhada no papel, quando é pensamento, ideia e literatura, precisa ser estética.
Mas às vezes eu acho que me contradigo. Machado de Assis, nosso mestre, era praticamente anti-poético, até nos poemas! Contudo, o bruxo do Cosme Velho, que dominava a palavra, lidava mais com o pensamento, com a filosofia, mas de maneira tão elegante que a gente até pensa que aquilo é Literatura! Não é. Ou é? Literatura sem poesia? É possível? Só pra os mestres.
Machado brincava na casa da ironia, fingia desleixo, dava seu ritmo, pintava máximas, poeta de sintaxes e ideias. Machado máximo.
Não fosse a poesia, não existiria Literatura em prosa, em fala – o teatro, a canção, o repente – em imagem – a pintura, o cinema, que também é de luz e sombra. Não fosse a poesia, não existiria revolução, reforma, evolução, desejos, amores românticos ou a busca da verdade.
Deus é muitas coisas: amor, juiz, rosa, sol, graça; mas só aparece para os homens em verso, mesmo quando fala em prosa.
A verdade é que todo mundo quer ou quis ser poeta. Guimarães Rosa, Jorge Amado, Fernando Bonassi, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Machado de Assis, Nietsche... acho que todo prosador quer é mesmo ver as palavras se engatando umas nas outras até gerarem sons, imagens, versos, ritmos... aí já acho que todo poeta almeja a música, menos o João Cabral!
Quanto escritor famoso começou rabiscando versos para depois perceber que não tinha muito jeito pra coisa e, incapaz de abandonar as letras, pulou para a prosa, sem perder a paixão poética?
Atualmente, a poesia parece perdida, esquecida, sem graça, feita meticulosamente por especialistas, saída de tubos de ensaio, grossos dicionários, engordurados microscópios, a famosa poesia de gabinete. Mas não é verdade que a poesia morreu, ou que agoniza, pois a prosa do Marcelino é poesia em flor, a de Luandino é mel sem versos, a de Guimarães Rosa é poesia em estado puro, como João Cabral, Drummond e Gullar resvalam na prosa, derretem o verso, sem perder a poesia. Pouca gente percebeu, mas já era assim com Graciliano, a poesia por detrás das palavras, por dentro da prosa, alinhavada. E também há os bons poetas tradicionais, com verso ou rima, sempre com ritmo. Nos saraus pelas periferias, em alguns volumes lançados pelas menos covardes editoras, nos blogs, na ponta da língua, no meio da rua, mas sempre refeita, brincalhona, faceira...
É que não faz sentido brincar com palavras se for apenas para elas todas saírem como a fala pálida de fila de banco, repartição pública ou telefonema de telemarketing. A palavra entalhada no papel, quando é pensamento, ideia e literatura, precisa ser estética.
Mas às vezes eu acho que me contradigo. Machado de Assis, nosso mestre, era praticamente anti-poético, até nos poemas! Contudo, o bruxo do Cosme Velho, que dominava a palavra, lidava mais com o pensamento, com a filosofia, mas de maneira tão elegante que a gente até pensa que aquilo é Literatura! Não é. Ou é? Literatura sem poesia? É possível? Só pra os mestres.
Machado brincava na casa da ironia, fingia desleixo, dava seu ritmo, pintava máximas, poeta de sintaxes e ideias. Machado máximo.
Não fosse a poesia, não existiria Literatura em prosa, em fala – o teatro, a canção, o repente – em imagem – a pintura, o cinema, que também é de luz e sombra. Não fosse a poesia, não existiria revolução, reforma, evolução, desejos, amores românticos ou a busca da verdade.
Deus é muitas coisas: amor, juiz, rosa, sol, graça; mas só aparece para os homens em verso, mesmo quando fala em prosa.
segunda-feira, novembro 10, 2008
Música Muda: 25 anos de MTV
A MTV estadunidense — a primogênita — acaba de completar 25 anos; a brasileira está prestes a completar 16. Durante esse tempo muita coisa aconteceu na programação desse canal, que sempre nos ajudou a entender o comportamento de jovens e adolescentes, principalmente por meio dos artistas que aparecem nela. Atualmente, é notável a gradativa redução do espaço na grade dedicado realmente à música.
Pode-se alegar, com alguma razão, que a MTV é um canal dirigido aos jovens e que os interesses desse público são muito mais amplos do que as músicas de seus artistas preferidos. Essa constatação permitiu que muitos programas interessantes surgissem ao longo da história da MTV: para falarmos apenas da programação da filial brasileira, podemos citar Hermes e Renato, os programas de entrevistas do João Gordo, os primeiros programas dedicados à sexualidade — que tiveram o seu auge quando o doutor Jairo Bauer era um dos apresentadores, e atualmente vivem um momento de visível desgaste — o Programa de debates Meninas Veneno e os cínicos, no mais delicioso sentido do termo, Top Top e Balela. Mas a MTV sempre deu espaço para a música, espaço cada vez menos privilegiado, é bem verdade.
A MTV sempre esteve antenada no gosto de seu público. Percebeu que a maneira de ouvir música mudou. E traduziu essa mudança em sua grade atual. Sim, a música ainda é bastante presente em sua programação, mas cada vez menos ela se sustenta sozinha, cada vez menos é protagonista.
Não podemos deixar de dizer que desde a invenção do videoclipe a música começou a usar muletas na televisão. Parecia pouco interessante apenas vermos um cantor ou grupo interpretando suas canções. Mas os clipes trouxeram sua colaboração positiva. Não é mais tão necessário para o artista aparecer em programas de auditório dublando a si mesmo. O clipe também permite que ele, o artista, apareça várias vezes ao dia na programação da emissora. Também surgiram com a profissionalização dessa maneira de divulgar a música novas formas de manifestação, às vezes mais, às vezes menos artísticas, e abriu-se um novo, porém restrito, mercado de trabalho. Mas ele sempre esteve a favor da música.
Hoje em dia, quando sintonizamos na MTV no período da tarde, por exemplo, percebemos que já não bastam os clipes. Há ao pé da tela um chat, onde os telespectadores conversam, paqueram, discutem assuntos diversos. Já vi também um jogo, onde o telespectador “batia pênaltis”. A música que rola é apenas para quebrar o silêncio.
Por mais esquisito e desrespeitoso que isso possa parecer, trata-se de uma tendência. Os jovens atualmente ouvem música ao computador, enquanto fazem outras coisas, como conversar em algum chat, realizar uma pesquisa (num complexo sistema conhecido como recortar & colar), jogar ou vasculhar sites de relacionamento. Atualmente, um dos sinais de velhice é ouvir música no “aparelho de som”.
Como a responsabilidade da MTV não é outra que não seja manter-se no ar e conseguir patrocinadores, ela está de parabéns. Já os artistas, educadores e responsáveis pelas políticas públicas e culturais precisam, além de entender esse fenômeno, criar caminhos para que a arte, em especial a música, não conquiste o mesmo prestígio que os papéis de parede ocupam hoje na sociedade.
*
Escrevi o artigo acima há dois anos, para o blog que eu mantinha à época. De lá pra cá a MTV mudou mais um pouco. Voltou a valorizar a música, com mais programas dedicados a ela, deu mais espaço em sua programação para os videoclipes, que saíram da UTI, deixou de lado os programas mais esculhambados sobre sexo. A música, ao que parece, embora não seja a única ou principal estrela da MTV, resgatou sua dignidade. Ela ainda é importante e merece respeito.
Mas a confusão persiste. Gravadoras, estúdios, divulgadores, emissoras de rádio, bandas, compositores, mídias, suportes, tecnologias, jabá, internet, e-mule, videoclipe, youtube, produtores: nada é como antes, mesmo.
Ainda não ficou claro se a nova maneira de lidar com a música é melhor ou pior do que as outras que já existiram. Vender um disco – “disco”? – pela internet, sem preço definido, como faz o Radiohead é o grande barato? Deixar as músicas gratuitamente na rede e aguardar contatos para shows é a saída? Mandar todas as rádios para o quinto círculo de fogo da cabala mediúnica não estraga a carreira de ninguém? A resposta para todas estas perguntas são as mesmas: “mais ou menos” e “depende”.
Os grandes meios de comunicação têm seu poder bastante reduzido, mas ainda são importantes, embora já não sejam fundamentais. Primeiro porque ainda moramos em um país onde a pobreza não é mero objeto de estudo das ciências humanas: ela é a realidade de alguns milhões de pessoas. Segundo porque além de pobres somos mal educados e mal informados: Cordel do Fogo Encantado, Itamar Assumpção, Riachão, Noel Rosa, Tom Zé, Antônio Nóbrega, João Bosco, Luiz Tatit, Mônica Salmaso, Walter Franco, para citarmos apenas alguns mestres, são nomes desconhecidos de boa parte das pessoas, incluindo jovens “antenados” e formadores de opinião.
Somando a falta de acesso às novas mídias à nossa incapacidade de gostar ou desgostar de algo que desconhecemos, temos a certeza de que as grandes emissoras de televisão ainda precisam ajudar a divulgar a arte em geral, não apenas a de massa, mais palatável e descartável, mas as “opções alternativas” também. E a MTV ainda nos deve muita coisa.
A MTV estadunidense — a primogênita — acaba de completar 25 anos; a brasileira está prestes a completar 16. Durante esse tempo muita coisa aconteceu na programação desse canal, que sempre nos ajudou a entender o comportamento de jovens e adolescentes, principalmente por meio dos artistas que aparecem nela. Atualmente, é notável a gradativa redução do espaço na grade dedicado realmente à música.
Pode-se alegar, com alguma razão, que a MTV é um canal dirigido aos jovens e que os interesses desse público são muito mais amplos do que as músicas de seus artistas preferidos. Essa constatação permitiu que muitos programas interessantes surgissem ao longo da história da MTV: para falarmos apenas da programação da filial brasileira, podemos citar Hermes e Renato, os programas de entrevistas do João Gordo, os primeiros programas dedicados à sexualidade — que tiveram o seu auge quando o doutor Jairo Bauer era um dos apresentadores, e atualmente vivem um momento de visível desgaste — o Programa de debates Meninas Veneno e os cínicos, no mais delicioso sentido do termo, Top Top e Balela. Mas a MTV sempre deu espaço para a música, espaço cada vez menos privilegiado, é bem verdade.
A MTV sempre esteve antenada no gosto de seu público. Percebeu que a maneira de ouvir música mudou. E traduziu essa mudança em sua grade atual. Sim, a música ainda é bastante presente em sua programação, mas cada vez menos ela se sustenta sozinha, cada vez menos é protagonista.
Não podemos deixar de dizer que desde a invenção do videoclipe a música começou a usar muletas na televisão. Parecia pouco interessante apenas vermos um cantor ou grupo interpretando suas canções. Mas os clipes trouxeram sua colaboração positiva. Não é mais tão necessário para o artista aparecer em programas de auditório dublando a si mesmo. O clipe também permite que ele, o artista, apareça várias vezes ao dia na programação da emissora. Também surgiram com a profissionalização dessa maneira de divulgar a música novas formas de manifestação, às vezes mais, às vezes menos artísticas, e abriu-se um novo, porém restrito, mercado de trabalho. Mas ele sempre esteve a favor da música.
Hoje em dia, quando sintonizamos na MTV no período da tarde, por exemplo, percebemos que já não bastam os clipes. Há ao pé da tela um chat, onde os telespectadores conversam, paqueram, discutem assuntos diversos. Já vi também um jogo, onde o telespectador “batia pênaltis”. A música que rola é apenas para quebrar o silêncio.
Por mais esquisito e desrespeitoso que isso possa parecer, trata-se de uma tendência. Os jovens atualmente ouvem música ao computador, enquanto fazem outras coisas, como conversar em algum chat, realizar uma pesquisa (num complexo sistema conhecido como recortar & colar), jogar ou vasculhar sites de relacionamento. Atualmente, um dos sinais de velhice é ouvir música no “aparelho de som”.
Como a responsabilidade da MTV não é outra que não seja manter-se no ar e conseguir patrocinadores, ela está de parabéns. Já os artistas, educadores e responsáveis pelas políticas públicas e culturais precisam, além de entender esse fenômeno, criar caminhos para que a arte, em especial a música, não conquiste o mesmo prestígio que os papéis de parede ocupam hoje na sociedade.
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Escrevi o artigo acima há dois anos, para o blog que eu mantinha à época. De lá pra cá a MTV mudou mais um pouco. Voltou a valorizar a música, com mais programas dedicados a ela, deu mais espaço em sua programação para os videoclipes, que saíram da UTI, deixou de lado os programas mais esculhambados sobre sexo. A música, ao que parece, embora não seja a única ou principal estrela da MTV, resgatou sua dignidade. Ela ainda é importante e merece respeito.
Mas a confusão persiste. Gravadoras, estúdios, divulgadores, emissoras de rádio, bandas, compositores, mídias, suportes, tecnologias, jabá, internet, e-mule, videoclipe, youtube, produtores: nada é como antes, mesmo.
Ainda não ficou claro se a nova maneira de lidar com a música é melhor ou pior do que as outras que já existiram. Vender um disco – “disco”? – pela internet, sem preço definido, como faz o Radiohead é o grande barato? Deixar as músicas gratuitamente na rede e aguardar contatos para shows é a saída? Mandar todas as rádios para o quinto círculo de fogo da cabala mediúnica não estraga a carreira de ninguém? A resposta para todas estas perguntas são as mesmas: “mais ou menos” e “depende”.
Os grandes meios de comunicação têm seu poder bastante reduzido, mas ainda são importantes, embora já não sejam fundamentais. Primeiro porque ainda moramos em um país onde a pobreza não é mero objeto de estudo das ciências humanas: ela é a realidade de alguns milhões de pessoas. Segundo porque além de pobres somos mal educados e mal informados: Cordel do Fogo Encantado, Itamar Assumpção, Riachão, Noel Rosa, Tom Zé, Antônio Nóbrega, João Bosco, Luiz Tatit, Mônica Salmaso, Walter Franco, para citarmos apenas alguns mestres, são nomes desconhecidos de boa parte das pessoas, incluindo jovens “antenados” e formadores de opinião.
Somando a falta de acesso às novas mídias à nossa incapacidade de gostar ou desgostar de algo que desconhecemos, temos a certeza de que as grandes emissoras de televisão ainda precisam ajudar a divulgar a arte em geral, não apenas a de massa, mais palatável e descartável, mas as “opções alternativas” também. E a MTV ainda nos deve muita coisa.
quinta-feira, novembro 06, 2008
Barrichello, o rancoroso amargurado
Felipe Massa não foi campeão dessa vez, mas não nos frustremos, que Hamilton foi melhor ao longo da temporada, tem um talento indiscutível e o brasileirinho, ainda pode ir muito longe, que determinação e capacidade não lhe faltam, além de uma pequena dose de carisma, para que os brasileiros torçam por ele.
Muito diferente é o caso de Rubinho Barrichello, o exemplo máximo da mediocridade nacional. Há quem diga que um piloto que consegue chegar à Fórmula 1 não pode ser considerado medíocre, o que não é de todo incorreto. Afinal, uma vaga nessa categoria automobilística, ainda que seja em uma equipe pequena, é disputada pelos principais pilotos emergentes de outras categorias. Mas chegar ao topo da carreira, à principal equipe em sua época, e se acomodar, se cobrir de desculpas e nunca, jamais admitir seus erros, atribuindo ao chefe, ao parceiro, aos adversários, ao tempo, ao acaso, a total incapacidade de se destacar é, além de irritante, um péssimo exemplo para a sociedade.
A última derrapada de Barrichello, talvez a mais feia de todas, foi a declaração meio desdenhosa, meio desculposa, de que, se estivesse hoje na Ferrari, equipe de Felipe Massa, certamente estaria disputando o título. Oras, Massa não chegou à Ferrari como piloto principal, mas pela insistência e pelo talento 0 da mesma forma que Piquet e Senna já fizeram em outros tempos – conquistou seu espaço e disputou até a última volta do campeonato, o título. Barrichello já esteve na Ferrari, numa época em que ela brilhava praticamente sozinha, que tinha, sim, um piloto especial e que monopolizava as atenções, mas nada que justifique o comportamento sapo na fervura de Rubinho.De desculpa em desculpa, de sorrisinho em sorrisinho, Barrichello, que do ponto de vista financeiro é muito bem-sucedido, tornou-se o maior exemplo de mediocridade, acomodação e incompetência que o Brasil já viu. E agora, além desses atributos nada nobres, o piloto alcançou também o posto de despeitado-mor e maior rancoroso sobre rodas da história do automobilismo mundial. De fato, não é pouco na carreira de um piloto.
Muito diferente é o caso de Rubinho Barrichello, o exemplo máximo da mediocridade nacional. Há quem diga que um piloto que consegue chegar à Fórmula 1 não pode ser considerado medíocre, o que não é de todo incorreto. Afinal, uma vaga nessa categoria automobilística, ainda que seja em uma equipe pequena, é disputada pelos principais pilotos emergentes de outras categorias. Mas chegar ao topo da carreira, à principal equipe em sua época, e se acomodar, se cobrir de desculpas e nunca, jamais admitir seus erros, atribuindo ao chefe, ao parceiro, aos adversários, ao tempo, ao acaso, a total incapacidade de se destacar é, além de irritante, um péssimo exemplo para a sociedade.
A última derrapada de Barrichello, talvez a mais feia de todas, foi a declaração meio desdenhosa, meio desculposa, de que, se estivesse hoje na Ferrari, equipe de Felipe Massa, certamente estaria disputando o título. Oras, Massa não chegou à Ferrari como piloto principal, mas pela insistência e pelo talento 0 da mesma forma que Piquet e Senna já fizeram em outros tempos – conquistou seu espaço e disputou até a última volta do campeonato, o título. Barrichello já esteve na Ferrari, numa época em que ela brilhava praticamente sozinha, que tinha, sim, um piloto especial e que monopolizava as atenções, mas nada que justifique o comportamento sapo na fervura de Rubinho.De desculpa em desculpa, de sorrisinho em sorrisinho, Barrichello, que do ponto de vista financeiro é muito bem-sucedido, tornou-se o maior exemplo de mediocridade, acomodação e incompetência que o Brasil já viu. E agora, além desses atributos nada nobres, o piloto alcançou também o posto de despeitado-mor e maior rancoroso sobre rodas da história do automobilismo mundial. De fato, não é pouco na carreira de um piloto.
quarta-feira, novembro 05, 2008
Obama: Oba ou Opa?
Grande emoção foram as eleições presidenciais dos EUA. Deu uma certa inveja dos estadunidenses, que fizeram do pleito uma verdadeira “celebração da democracia”, apesar do complexo e esdrúxulo sistema de votação deles, bastante propício para fraudes – se bem que, por lá, ninguém parece ligar muito pra isso. Tão tediosas foram as eleições recentes daqui, sem o menor sopro de novidade, todo mundo querendo ser igual a todo mundo, que a promessa de mudança de Obama, por si só, já é uma coisa legal.
Sim, vivemos momentos distintos. Os EUA passam por uma crise séria, que respingará ou será completamente derramada sobre as nossas cabeças nos próximos meses – batamos na madeira, bangalô três vezes – enquanto nós nos sentimos confortáveis. Também era notório o desgaste que a imagem norte-americana sofreu nos últimos anos, com guerras estúpidas, sem sentido e sem fim, com os desastres da economia, que têm mudado os paradigmas do mercado financeiro mundial – só não sabemos ainda se para melhor ou pior.
Obama é um sucesso. Bonito, carismático, excelente orador, inteligente e amigo de causas sociais nobres. É um grande luxo vermos na presidência dos EUA um homem como ele, sem falar na questão étnica!
Foi uma festa, todo mundo muito feliz, inclusive os jornalistas brasileiros que cobriram o evento, mas... e se as coisas não saírem como o esperado?
A eleição de Barack Obama é um luxo, um sinal de avanço em um país que menos de cinco décadas atrás não permitia que todos os negros votassem. Mas também é o golpe de marketing perfeito para restaurar a imagem dos EUA, bastante arranhada por causa de Bush, o mais patético político das últimas décadas. Será que as relações internacionais mudam significativamente com o novo presidente? Tenho muitas dúvidas. E mesmo internamente as preocupações não são poucas. Nos lembremos de que Sarah Pallin, a imbecil que se orgulha de ter seu filho no meio de uma guerra sem motivo, que é amiga das armas e não acredita em dinossauros, fez sucesso e angariou muitos votos para os republicanos. Qualquer tropeço de Obama e teremos os fantasmas conservadores rondando o mundo de novo, e mais fortalecidos; afinal, a moçoila de gosto duvidoso, que posa de biquíni e metralhadora é governadora do Alasca e tem admiradores na terra do milk shake. Aliás, ninguém estranhe se Obama optar por caminhos menos ousados – creio que Lula ensinou alguma coisa a ele.
Aguardemos, nos primeiros meses, o que acontecerá no Golfo, como serão as relações com Cuba, Irã e Coreia do Norte; vejamos também o que acontecerá na economia. E, sobretudo, torçamos para que Obama seja mesmo tudo isso que desejamos ardorosamente que seja.
Sim, vivemos momentos distintos. Os EUA passam por uma crise séria, que respingará ou será completamente derramada sobre as nossas cabeças nos próximos meses – batamos na madeira, bangalô três vezes – enquanto nós nos sentimos confortáveis. Também era notório o desgaste que a imagem norte-americana sofreu nos últimos anos, com guerras estúpidas, sem sentido e sem fim, com os desastres da economia, que têm mudado os paradigmas do mercado financeiro mundial – só não sabemos ainda se para melhor ou pior.
Obama é um sucesso. Bonito, carismático, excelente orador, inteligente e amigo de causas sociais nobres. É um grande luxo vermos na presidência dos EUA um homem como ele, sem falar na questão étnica!
Foi uma festa, todo mundo muito feliz, inclusive os jornalistas brasileiros que cobriram o evento, mas... e se as coisas não saírem como o esperado?
A eleição de Barack Obama é um luxo, um sinal de avanço em um país que menos de cinco décadas atrás não permitia que todos os negros votassem. Mas também é o golpe de marketing perfeito para restaurar a imagem dos EUA, bastante arranhada por causa de Bush, o mais patético político das últimas décadas. Será que as relações internacionais mudam significativamente com o novo presidente? Tenho muitas dúvidas. E mesmo internamente as preocupações não são poucas. Nos lembremos de que Sarah Pallin, a imbecil que se orgulha de ter seu filho no meio de uma guerra sem motivo, que é amiga das armas e não acredita em dinossauros, fez sucesso e angariou muitos votos para os republicanos. Qualquer tropeço de Obama e teremos os fantasmas conservadores rondando o mundo de novo, e mais fortalecidos; afinal, a moçoila de gosto duvidoso, que posa de biquíni e metralhadora é governadora do Alasca e tem admiradores na terra do milk shake. Aliás, ninguém estranhe se Obama optar por caminhos menos ousados – creio que Lula ensinou alguma coisa a ele.
Aguardemos, nos primeiros meses, o que acontecerá no Golfo, como serão as relações com Cuba, Irã e Coreia do Norte; vejamos também o que acontecerá na economia. E, sobretudo, torçamos para que Obama seja mesmo tudo isso que desejamos ardorosamente que seja.
sábado, outubro 25, 2008
EMBRAFILME
Em 1915, Dolores Salgueiro, uma das divas do teatro brasileiro, estrelou o filme As Flores da Praia, de Paulo Portela, baseado no livro homônimo de João Carlos Pilares, clássico do romantismo brasileiro, apesar de andar meio esquecido. As cópias não foram preservadas.
Ainda era a época do cinema mudo. As mulheres que faziam teatro ou cinema, embora mantivessem trabalhos que agradavam ao público, eram vistas com muito preconceito pela sociedade, que associava teatro à prostituição, promiscuidade e pequenos delitos. Pelo menos no caso de Dolores Salgueiro, isso era a mais pura verdade.
Dolores amava as artes dramáticas, que lhe rendiam muito pouco dinheiro, até porque seu talento era diminuto. Os parcos papéis que conseguia, vez por outra praticamente figurações, eram conquistados na base dos favores íntimos. Vida de atriz, nesse país, nunca foi fácil.
As Flores da Praia, trabalho que Dolores conseguiu fazendo uma espécie de permuta erótica, alcançou relativo sucesso. Muitos ainda seguiam às salas de cinema mais pelo espanto de verem fotografias se mexendo do que pelo filme em si. Dolores Portela era uma mulher muito bonita, o que também ajudava na curiosidade do público. Seu par romântico na história, interpretado pelo ator César Viradouro, também chamava a atenção pelos dotes físicos. Também prestou favores a alguns produtores, empresários e diretores que cultivavam opções sexuais alternativas, para cavar seu espaço nas artes nacionais. O amor à arte exige alguns sacrifícios.
Dolores Salgueiro nunca conseguiu o respeito da sociedade, mesmo com sua notada evolução artística ao longo de sua carreira. Sempre era vista como a “biscate carioca”, seja no teatro, seja no cinema. O povo consumia e, com o tempo, passou até a admirar seu trabalho de atriz. Mas teatro e cinema não são coisas de mulher séria.
Em 2005, a ex-dançarina de axé, assistente de palco de programas de auditório e atriz de duas peças de retumbante fracasso, Sheila Leopoldina, estreou no mundo do cinema pornô nacional e internacional. Seus dois primeiros filmes chegaram ao exterior e a garota concorreu até a prêmios pela performance. Com um corpo escultural e uma sincera fome de sexo, como poucas vezes se vê, principalmente na vida real, Sheila Leopoldina alcançou fama e dinheiro. As festas de lançamento de seus trabalhos são badaladíssimas, consegue contratos publicitários invejáveis – preservativo, gel lubrificante, revistas masculinas adultas, sex shop – e não é raro vê-la na TV, divulgando seu trabalho, opinando sobre os mais variados assuntos, como a corrupção em Brasília, legalização da maconha, projeto genoma e os conflitos na Geórgia.
Sheila Leopoldina, grande ícone das artes nacionais, já declarou que seu grande ídolo é a atriz Dolores Salgueiro, artista maior da dramaturgia brasileira, que sempre foi bastante injustiçada e cujo trabalho abriu portas para que outras mulheres de fibra, como a própria Sheila, pudessem conquistar seu espaço e mostrar seu talento.
Agora também investindo na carreira de empresária, Sheila Leopoldina lança no mercado pornô a ex-obreira da Igreja Pangéia de Cristo, a ninfetinha Marcella Sapucaí. Não resta dúvida de que essa tal de Dolores Salgueiro nasceu fora de época, mesmo.
quarta-feira, setembro 24, 2008
Marcelino Freire fez um concurso em seu blog, premiando os que enviassem contos com exatas seis palavrinhas! Não estive entre os vencedores (nunca estou), mas posto aqui algumas de minhas tentativas (foi divertido passar por esta experiência!). Alguns são lápides:
Beata
Meu Deus, Minha Nossa Senhora.
Periferia, vosso padeiro foi o diabo.
Jesus
Tantas almas pequenas, ó Pai...
Dalton Trevisan
Aqui ninguém o incomoda.
Dalton fugiu do sucesso e fracassou.
Professor
Caixão não coube no salário.
Drummond
Uma pedra construiu o poeta.
Apenas o crack soube amá-lo.
Prostituta
De costas não doía menos.
Bandeira
A poesia enganou a morte.
Morreu na contramão esperando um amor.
Feirante
Do outro lado fedia peixe.
O anão morreu gemendo bem baixinho.
Apenas de máscara sabia sorrir sinceramente.
Zé do Caixão
Você! Todos você!
Machado de Assis
Toda palavra sã.
Jesus Cristo
Até depois de amanhã.
Jesus de Nazaré
Depois ele volta.
Jogador
No impedimento, não fazia barreira.
O pedófilo brincava feia brincadeira desgraçada.
A mulher era violão e pianinho.
Sinal Fechado
Era muito míope mesmo.
Beata
Meu Deus, Minha Nossa Senhora.
Periferia, vosso padeiro foi o diabo.
Jesus
Tantas almas pequenas, ó Pai...
Dalton Trevisan
Aqui ninguém o incomoda.
Dalton fugiu do sucesso e fracassou.
Professor
Caixão não coube no salário.
Drummond
Uma pedra construiu o poeta.
Apenas o crack soube amá-lo.
Prostituta
De costas não doía menos.
Bandeira
A poesia enganou a morte.
Morreu na contramão esperando um amor.
Feirante
Do outro lado fedia peixe.
O anão morreu gemendo bem baixinho.
Apenas de máscara sabia sorrir sinceramente.
Zé do Caixão
Você! Todos você!
Machado de Assis
Toda palavra sã.
Jesus Cristo
Até depois de amanhã.
Jesus de Nazaré
Depois ele volta.
Jogador
No impedimento, não fazia barreira.
O pedófilo brincava feia brincadeira desgraçada.
A mulher era violão e pianinho.
Sinal Fechado
Era muito míope mesmo.
segunda-feira, setembro 15, 2008
Democracia: então era só isso???
Tudo bem, tudo certo, mas, quando falavam em democracia, lá no início dos anos oitenta, você achava que a coisa chegaria a esse ponto?!
Negócio mais sem graça essa campanha eleitoral... Democracia não era coisa séria, nobre, especial? Não servia para cumprir e executar a vontade do povo? Não era coisa de gente de bem, honesta, que não batia, não matava, não torturava?
Democracia pra trocar de carro, enriquecer publicitário, ludibriar a gente? Democracia sem coerência? Com alianças estranhas, contradições ideológicas, traições explícitas, enquanto o povo é o último a saber? Democracia com milhares de candidatos, quase todos com as mesmas idéias, propostas e golpes? Democracia esfarrapada e caduca, eleitoral, gratuita e milionária; democracia vendida.
Democracia loteada em minutos, siglas e cores? Essa democracia nossa não gosta de povo, mas serve-se dele. Democracia é o povo feliz pelas ruas satisfeito com o que temos? É a esperança de mudanças profundas vindas de quem por lá já passou e pouco ou nada mudou? É a novidade reumática, esfumaçada, de cores antigas e discursos decrépitos? Democracia é só um arroto azedo.
Ou talvez não, mas...
A Bíblia mostra que Deus resolveu promover o dilúvio quando a humanidade estava tão corrompida que não valia mais a pena consertar. Não tenho muita certeza do que realmente estavam aprontando, mas acho difícil que os pecadores daquela época fossem menos funestos que a classe política atual. Será que não é hora de assistirmos a um dilúvio político no Brasil? Ora, esse modelo partidário constantemente confundido com democracia não parece oferecer mais nada de bom, belo ou agradável. Na verdade, nosso sistema serve apenas para nos lembrar de que a coisa pode ficar ainda pior – não creio que seja possível existir uma “ditadura do bem”: a patifaria legendária das legendas só não consegue ser pior do que os regimes de exceção, pois nela, por mais restrita e nefasta que seja, ainda existem opções.
Jorge Luis Borges, escritor tão genial quanto reacionário, escreveu certa vez que a democracia era uma “superstição”. De fato, mesmo sabendo que a democracia é a melhor opção entre as que conhecemos, à vezes penso que já passou da hora da humanidade – ou do Brasil, pelo menos – encontrar uma maneira de tratá-la, a democracia, com um mínimo de respeito e seriedade, em vez de atribuir a ela um poder que, sozinha, não poderá jamais desempenhar? Democracia sem informação, honestidade, seriedade, sem debate real, ideológico, sim, não é nada além do circo de horrores a que somos obrigados a assistir nas épocas de eleições e nos jornais, quando páginas políticas e policiais se confundem.
Se Deus não tem mais interesse em promover dilúvios, como a própria Bíblia nos avisa, seria bom que, ao menos, pudéssemos vislumbrar um arco-íris ao longe, para que tenhamos alguma esperança, para que saibamos que valeu a pena lutar e esperar pelo fim dos anos de chumbo. Pelo menos uma estatuazinha de sal feita de algum canhestro candidato não seria coisa ruim de se assistir...
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