quarta-feira, setembro 28, 2011

Por que Marcelino Freire não é meu amigo

Não sei se existe um santo padroeiro dos escritores. Caso não haja, voto em um, vivo, que faz milagres vários: Marcelino Freire, defensor dos escritores, especialmente os obscuros, iniciantes, desconhecidos, deslidos, mas também dos consagrados.
O tamanho da camaradagem, da generosidade desse cidadão de três metades inteiras, meio pernambucano, meio baiano e meio paulista, já foi desmedido por muita gente, pelos bares da Vila Madalena, nos saraus e escolas das periferias, pelos eventos literários do país inteiro. Inquieto e carinhoso, Marcelino é o verdadeiro doce bárbaro, preocupado em atender a todos, colaborar com todos, prestigiar a todos.
E é fácil perceber que essa camaradagem retorna para ele em forma de mais generosidade, que ele costuma repartir conosco novamente. Marcelino é o responsável pela Balada Literária, evento que todo ano, ali por volta de novembro reúne vários escritores e artistas em mesas, peças de teatro, apresentações musicais que nos sacodem, estimulam, acariciam.
Marcelino diz que em vez de realizar a Balada Literária com um milhão, a faz com humilhação, convencendo escritores consagrados e demais colaboradores a participar da festa. Nessa, o cara trouxe a São Paulo, em 2007, o escritor angolano Luandino Vieira, para mim o ponto mais de todas as edições da Balada. Este ano o homenageado será o octogenário poeta concreto e muitas outras coisas Augusto de Campos.
Eu, particularmente, já fui alvo das benesses freirianas várias vezes. Nos conhecemos por causa de um texto que escrevi sobre seu premiado livro Contos Negreiros, em 2007. O cara leu o texto na internet, num blog escondido que eu mantinha à época, entrou em contato comigo, nos correspondemos algumas vezes por e-mail e, finalmente nos conhecemos em uma lanchonete da faculdade. Detalhes: o cara fez questão de ir até lá para que eu não perdesse aula e o meu texto nem era uma sucessão de elogios derramados, ficava no limite de ser o contrário disso – mas atestava o inegável talento de Marcelino em lidar com oralidade em seus textos feitos para serem entoados, ainda mais que lidos.
Pouco tempo depois ele foi até a escola em que eu trabalhava, nos cafundós de Interlagos, de graça, falar com duas classes para as quais eu lecionava. De graça, repito. A dona da escola, desavisada, ou desinteressada, não sei bem, sobre a importância de receber em seu arraial um dos recentes ganhadores do Prêmio Jabuti – tudo bem, o Jabuti é aquela coisa toda e Marcelino é muito mais que um escritor jabutizado – sequer designou um dos motoristas da escola para levá-lo de volta para casa. Sequer o recebeu. Ele voltou comigo, de trem.
Depois disso ainda que concedeu o privilégio de assistir a uma de suas oficinas, de graça, que eu não pude acompanhar por estar no meio de uma das minhas depressões profundas – mas as três aulas que vi foram suficientes para repensar muitas coisas sobre a minha própria escrita; o cara também é um professor brilhante.
Ah, ele também foi a grande estrela de um evento cultural que promovemos na igreja batista que eu frequentava, em 2009. De graça. No mesmo dia ele seria homenageado no SESC Pompeia, que reinaugurava seu palco e apresentaria uma peça inspirada em um conto de Marcelino, que mesmo assim foi ao nosso evento para não furar com a gente. Certamente chegou atrasado no SESC, para a nossa sorte.
Marcelino também foi ao lançamento do meu primeiro livro de contos, vindo direto do aeroporto, sem dormir.
Com todas essas histórias, fica muito claro porque não sou amigo do Marcelino: amizade, penso, é a convivência entremeada por cumplicidade, doação. O cara já fez tanto por mim, mesmo com a nossa convivência sendo mínima, e eu não me lembro de ter feito nada por ele. Acho que ele não liga, pois sabe que não é fácil ser amigo de um santo cheio de graça, de São Marcelino, padroeiro do escritor abandonado, do professor que não abandona os sonhos, do leitor inquieto. Ave, palavra.

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