terça-feira, setembro 27, 2011

Brancos de Alma Negra

Quando Literatura não é questão de pele

Na África colonial, a questão étnica estava intrinsecamente ligada à
independência, bem diferente do Brasil, onde tudo correu mais ou
menos distante – a abolição da escravatura se deu mais de sessenta
anos depois da Independência por aqui! Valorizar a cultura negra,
afirmar-se negro na África colonial, era mostrar-se contrário à
ocupação europeia, ou então, assumir-se como membro de uma “raça
inferior”, apropriada para o trabalho braçal e para ser subjugada
pelos colonizadores, mesmo após o fim da escravidão.
Isso pode soar estranho em tempos de massificação da cultura black,
quando vemos vários artistas negros brilhando na cena pop, mas nem
tanto. Afinal, como bem definiu o escritor Ferréz, no Brasil “todo
mundo quer ser black, mas ninguém quer ser preto”. Ferréz sabe do
que fala: de pele branca, optou assumir-se como negro e por isso
causa espanto em muita gente que desconhece a origem mestiça do
escritor. É que ser ou não negro é algo que transcende a mera
pigmentação, enquanto ser black é seguir um modismo, usar roupas e joias caras, apreciar ou produzir certo tipo de música já suficientemente diluído para agradar à massa, é ostentar um comportamento de celebridade neutra em assuntos
políticos, como bem percebemos nos ídolos da música que posam
para fotos rodeados de mulheres seminuas, dentro de carrões,
exibindo closets abarrotados de roupas caras.
Há quem acredite que essa ostentação funciona como uma espécie de
ação afirmativa na cultura de massa: se os brancos têm direito a ver
seus ídolos ocupando todos os espaços da mídia, comportando-se de
maneira frívola, medíocre, ridícula, os negros também devem ter a
sua “cota” de fama fútil. Na verdade, descobriram que os negros
também consomem, nada mais que isso. Posar como ídolo pródigo, seja
branco, seja negro, seja índio, não é uma opção pelo coletivo, mas
uma afirmação da cultura consumista e exageradamente hedonista. É, sem a menor dúvida, render-se a um sistema que não é bom para quem está alijado dos shoppings e das baladas caras. É precisar subjugar alguém para conquistar seu próprio espaço.
O maior problema da cultura black é que seus ícones não assumem
compromisso com o povo e com a cultura negra, ou com qualquer outro
grupo menos favorecido socialmente; ser black é apenas uma opção
superficialmente estética, midiática e esnobe, sem relação alguma
com a matriz africana, por exemplo. Não basta aparecerem negros na
televisão, em vídeoclipes cheios de luxo e luxúria, para dizermos
que a questão racial ganha espaço. Na música e no esporte, os negros
sempre foram reverenciados, sem que o racismo sofresse grandes
golpes, sem que atletas e artistas negros deixassem de constituir
uma exceção, uma elite. Essa mesma cultura black patrocina
afilamento de narizes, alisamento de cabelos e aberrações como
Michael Jackson, talvez o único caso de vitiligo em que a doença
apoderou-se de toda a superfície de seu corpo com espantosa
regularidade e ainda gerou o gradativo desaparecimento de seu nariz,
que afinou até sumir.
Na África lusófona, as relações eram bem mais difíceis, pois não
havia esse enganoso espaço na mídia de pseudovalorização da cultura
de matriz negra. Se nem os brancos africanos tinham privilégios
garantidos – eram os “brancos de segunda” – ser negro era ter
assegurado para sempre seu lugar nos porões da sociedade; era não
ter acesso a direitos básicos. Valia mais ser um “assimilado”,
provar que possuía mesa, cadeira, copo e cama em casa, ou seja, que
tinha algum nível de “civilização”, e assim poder prestar concursos
públicos, por exemplo, além de possuir carteira de identidade
diferenciada, “superior”. É da natureza do colonizador organizar a
sociedade em castas e alimentar-se da discriminação mais grotesca
possível, incentivando hostilidades, mantendo o povo separado e,
consequentemente,enfraquecido.
Só mesmo um profundo senso de pertencimento ao solo africano e a sua
cultura para, mesmo sendo branco, ainda que de “segunda” – o que era
melhor do que ser “mulato” ou negro – para abrir mão de privilégios
e engajar-se na luta pela independência das colônias, para
empenhar-se na afirmação da cultura local, cultura obviamente
negra, que em nada lembra o black pálido de butique atual que, é
bom salientar, está longe do black power de outros tempos.
Na literatura africana lusófona, há muitos exemplos de escritores
brancos que se alinharam com os negros, com os conterrâneos,
compatriotas. Isso significava participar de grupos clandestinos, de
atividades “subversivas”, correr o risco de ser preso e mesmo de
morrer em combates. Afirmar-se como negro não era apenas uma opção
estética, muito menos uma “questão de pele”: era assunto de vida e
liberdade, sem espaço para demagogia ou dúvidas. Em Angola, dois escritores se destacaram tanto na luta quanto na produção literária: Luandino Vieira e Pepetela. Atualmente, tratam-se de autores conhecidos mundialmente, respeitados,
referências quando o assunto é literatura angolana, reverenciados
por conta da militância anticolonialista que exerceram – é famoso o episódio
em que a União dos Escritores Portugueses foi extinta e o escritor Manuel da
Fonseca, seu presidente à época, preso, por premiar a obra de
Luandino Vieira, conhecido escritor subversivo da colônia, ele mesmo
já encarcerado. Mas, verdade seja dita, muita gente se frustra ao
descobrir que são dois escritores engajados politicamente, competentes, mas... brancos.
Questões étnicas não são facilmente resolvidas apenas por fatores
superficiais, como a pigmentação da pele e o formato do nariz.
Luandino Vieira, português criado nos bairros pobres de Luanda,
conhecedor, portanto, da realidade que recriou em sua obra,
preencheu seus livros com a língua e a cultura local; foi preso por
se colocar a favor da independência e do povo angolano; marcou no
próprio nome, Luandino – originalmente se chamava José Mateus Vieira
da Graça – a referência à terra que adotou como sua e pela qual
lutou para que fosse livre. Será que o escritor merece o olhar cheio
de desconfiança de alguns de seus compatriotas negros? Será que os
doze anos que passou encarcerado, divididos entre a prisão em Angola
e o campo de concentração em Cabo Verde não são suficientes para
deixar claro que Luandino Vieira não é um aventureiro buscando nas
tradições angolanas assunto para elaborar sua ficção e contentar
leitores estrangeiros caçadores de romances exóticos sobre um povo
desconhecido?
A questão racial sempre esteve presente na obra de Luandino, e o
violento racismo aliado à colonização igualmente violenta nunca
foram tratados como mero material estético. Para o escritor, era
muito claro que a independência e o fim da discriminação dependiam
da organização do povo e da manutenção de sua cultura, que em nada
devia à cultura europeia. Em João Vêncio: Seus Amores, a violenta
morte que o garoto Mimi sofre por manter relações homossexuais com
um colega negro, deixa claro que a questão racial não é detalhe e
que não há colonização “boazinha”; antes, discute de uma só vez dois
tipos de preconceito, o racial e o sexual, e deixa o leitor na
dúvida: para os assassinos de Mimi, o que era pior? A pederastia ou
a relação inter-racial? Em Luuanda, a surra que o jovem Zeca Santos
leva de um comerciante branco ao procurar emprego, por ser “filho de
terrorista”, e a humilhação que o mesmo sofre por morar num bairro
pobre, o que o impede de pleitear outro emprego, também
problematizam a questão da discriminação e não deixam dúvidas quanto
ao lado político e ideológico de Luandino Vieira.O tratamento dado à linguagem, o respeito à oralidade, traço marcante da cultura africana, a mistura de línguas locais ao português, técnica aprendida com Guimarães Rosa, a sabedoria popular
tratada com respeito, são outros aspectos que, além de embelezar o
texto do autor, colocam a cultura angolana em relevo, não a
subjugam, antes a enobrecem. Prova disso é a História da Galinha e
do Ovo, onde as mulheres de um musseque (bairro pobre), após
resistirem às investidas de várias personagens que representam a
intromissão do estrangeiro, conseguem, sozinhas, resolver a demanda
sobre quem seria a verdadeira dona de um famigerado ovo. Nem o colonizador, nem a polícia repressora, nem a igreja católica, nem o judiciário
corrupto, nem o dono das cubatas (casas) puderam, quando as mulheres
se uniram, deixando questões secundárias de lado, dominá-las,
enganá-las. A saída é pelo coletivo, pelo bem comum, pela
identificação, pela solidariedade.
O escritor Pepetela, também empenhado na luta pela independência
angolana, levou para a literatura a luta desigual e valente dos
angolanos contra o imperialismo lusitano e, depois, os horrores da
guerra civil que rachou o país e vitimou milhões de pessoas durante
décadas. O autor de As aventuras de Ngunga, história de uma criança
que acabou envolvida na guerrilha angolana, também foi vítima das
mesmas desconfianças que Luandino. Em seu livro A Geração da Utopia,
Pepetela mostra com bastante clareza os problemas por que os
brancos engajados na libertação de Angola passaram, representados
na personagem Sara, estudante de medicina que, frequentando a Casa
dos Estudantes do Império – local que agregava estudantes oriundos
das colônias portuguesas em Lisboa, incluindo o já independente Brasil – participava das reuniões que tramavam contra a ditadura salazarista e a colonização dos países lusófonos africanos. Em dado momento da história, quando os africanos residentes em Lisboa preparam uma fuga para a França, de
onde pretendiam organizar a resistência, Sara quase fica para trás,
apesar de todo seu engajamento pela na causa, apenas por ser branca,
enquanto seu namorado, completamente alienado, tem lugar garantido
justamente por ser negro.
Valorização da etnia e luta pela independência
andavam de mãos dadas, ao ponto de, quando algum branco se
empenhasse pelas causas da colônia, gerar grandes desconfianças. Um branco angolano podia ser visto por muitos como alguém sem
pátria, ou representante infiltrado do império, por mais que suas
atitudes provassem o contrário.
Ainda em A Geração da Utopia, aparecem os conflitos entre os negros de tribos diferentes – o famoso tribalismo, que não tem relação alguma com
músicas alegres de compositores brasileiros – e a total alienação de
alguns angolanos negros, indiferentes à situação política de seu
país, além da mudança de postura de personagens que preferiram, ao
longo da história, deixar a luta coletiva de lado para se empenharem
na busca de benefícios pessoais, traindo seus ideais. Detalhe:
Sara, a estudante e posteriormente médica branca, nunca deixou de
lado seus ideais da juventude.
A Geração da Utopia talvez seja a grande epopeia angolana, pois além
de ser uma história do coletivo, e não de simples trajetórias
pessoais, mostra com clareza um dos períodos mais importantes da
História recente de Angola, sem deixar de lado questões delicadas,
como o já citado tribalismo e a mudança de postura de alguns que se
tornariam os principais políticos do país, mantendo um discurso
progressista e um comportamento completamente burguês, no pior
sentido da palavra. O romance, na verdade, termina num tom bastante
pessimista, com negros que agem como brancos racistas, humilhando
seus pares, e ocupados em enriquecer às custas da parcela ingênua do
povo.
Pepetela, assim como Luandino, tem o mérito de falar sobre o povo
angolano não como um grupo fraco, dependente da ajuda externa,
tampouco como pessoas acima do bem e do mal, sem que, com isso,
diminua a importância da discussão étnica, central em boa parte de
suas obras. Aliás, as personagens desses dois escritores são, acima
de tudo, humanas, e trazem para o leitor a discussão racial com
arte, verossimilhança e rara competência, sem espaço para
maniqueísmos. E tudo isso porque ambos tomaram para si não a
estética angolana, mas a causa do povo angolano. Antes de serem
artistas, Pepetela e Luandino Vieira são cidadãos angolanos e
brancos de alma negra.
No Brasil, o escritor branco contemporâneo que mais se destaca pelo ”negrume” de suas palavras, especialmente pelo seu livro Contos
Negreiros, é Marcelino Freire. Certamente influenciado por Pepetela
e principalmente por Luandino, Marcelino aprimorou a transcriação da
oralidade no texto escrito, no conto que é feito para ser
declamado, e deu voz a personagens negras praticamente de carne e
osso, problemáticas, sofridas, algozes, vivas, nada maniqueístas.
Marcelino Freire é, salvo engano, o primeiro escritor brasileiro que
traz claras marcas da literatura africana, sem estereótipos, em seu
trabalho – basta ler o conto Nação Zumbi para perceber claramente
essa influência. Nele, vemos o Brasil voltando à África não como
país forte e soberano a caça de escravos, mas em busca de emprego e esmolas para diminuir a miséria que nos assola do lado de cá.
É pena que justamente do lado de cá do Atlântico, escritores
como Manuel Rui, Mia Couto, Noêmia de Souza, Ondjaki e tantos outros – independente da cor da pele – alguns até conhecidos, sejam vistos por boa parte do público mais como algo exótico e menos como literatura – talvez a exceção seja Mia Couto – e ainda não penetrem em nossa cultura a ponto de se tornarem
influência em nosso meio. A perda, certamente, é muito maior para
nós do que para eles, que além de produzirem literatura de primeira,
conhecem bem o que é feito por aqui, seja por brancos, seja por
negros, seja por mestiços – importa mais a arte e o engajamento na
causa certa do que a cútis, não é mesmo?

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