sexta-feira, agosto 22, 2008

Serenata

Vou fazer um samba
Vou fazer um rap
Que grude n´ouvido feito fita crepe
De roda de bamba
Vou fazer um reggae
Cantando a verdade que ninguém mais negue
Sem fazer bagunça, sem fazer marola
Canto Rappin Hood e Paulo da Viola
Vou fazer poesia, cheio de alegria
Vou fazer a arte que ninguém faria
Celebrando a face bela de Maria


Era mais ou menos assim que eu cantava, doutor, a letra é longa, não quero incomodar. No Brasil o samba é natural, cultural e não vira folclore. Era eu, o Galo de dj e o Manducão fazendo uma ponta no cavaquinho, quatro cordas pra ele é mais fácil, o Manducão não tem um dedo. Eles fugiram de medo, polícia assusta, sabe como é, doutor. Se for na casa deles os dois confirmam, eu acho, não querem confusão pro lado deles; foram na serenata porque insisti muito.
Conheço Maria, sim senhor, e ela também me conhece, da escola e da banca de pastel da feira de quarta, se chamar aqui ela confirma. Acho que confirma, ultimamente essa moça tá diferente, já não me conhece mais, esquecida das brincadeiras de infância no recreio, pega-pega e rouba-bandeira. Faço bico com o japonês na quarta e no sábado, frito pastel melhor que ele. Já fiz show, já dei som, mas sou amador. Nunca me pagaram por uma apresentação, não senhor, não passo recibo.
Sou menor, sim senhor, não ando com documento porque tenho medo de perder, mas tenho residência fixa, sou estudante e trabalhador. Não fumo nem bebo, não senhor, geração saúde.
Não havia desordem, não senhor, que música não é bagunça. Música de amor é só alegria, harmonia. Pensei que estava fazendo coisa boa, levando paz para a rua. Quanto marido bêbado, doutor, espanca a mulher, esqueceu o que é amor. Sou jovem, mas sei respeitar mulher, meu pai me ensinou, ele é pastor da Assembléia e nunca destratou minha mãe, Deus a tenha.
Lei do silêncio? Já ouvi falar sim, senhor, mas não sabia que a música era proibida na madrugada. A gente cantou meio baixinho, era só pra Maria ouvir, a música é pra ela.
A vizinha da frente é que se preocupou com a nossa demora, cantamos horas e horas e nada de Maria acordar, parece que Maria não gosta mais de samba, nem de rap, se sente pra lá de pra frente.
Cantamos cinco vezes a mesma música, aí mudamos o repertório, Maria não colocava a cara na janela. Mandamos um rap romântico; um pagode melado; um samba de roda, um partido alto, um Tim Maia, um Benjor, mas tudo na surdina, Maria não despertava, a luz não acendia.
Quando o primeiro raio de sol trepidou no asfalto úmido de sereno, a dona da frente resolveu chamar a polícia, achando que era plano de assalto ou ruma de nóia. Nada disso, doutor. Não tiro a razão da senhora, cada coisa acontecendo, mas aqui não tem ficha, nem crime, nem droga: aqui é só sentimento, boa vontade e sofrimento por não ter Maria.
O delegado me entende? Me apóia? Dela, ou o sono é pesado ou não quer saber de mim. É possível também que ela não goste mais de música, ou que sambe apenas escondida, parece que agora ela é sofisticada.
O doutor não gosta de rap? Não, nem sempre é coisa de bandido, não senhor. É expressão da periferia, som de preto e de pobre, mas é limpinho. E de samba? Também não? O doutor deve ser lord, criado ouvindo sinfonia, ópera, música de câmara. Mas cuidado, delegado, não pode desprezar o que é da gente, depois se arrepende: daqui a pouco vai dizer também que não conhece amor nem mulher. Sim, não quis ofender, vejo sua aliança e posso confirmar sua virilidade e macheza, mas mulher só se conhece no olho e na alma, quando ela resplandece ao som de um som feito só pra ela, ou quando, repleta de desejos, entorpecida de sentimentos, se desmancha, fosforece, ao som de um bolero, um bllues, um rock, um baião. Quando as fibras do corpo dela vibram no ritmo da canção, que nada mais é do que a materialização sonora de uma emoção oferecida a ela. Às vezes falo difícil, sou poeta. O delegado é bamba, autoridade, diretoria, chefe da delegacia. Mas se conhecesse Maria, se fizesse composição de amor, me daria razão. Ai, doutor, na orelha não, que toco de ouvido!

2 comentários:

Renato Alt disse...

Coisa boa descobrir este espaço, e ver as letras e palavras tão bem tratadas, e apresentadas com esse lirismo, esse ritmo, essa leveza.
Parabéns, meu amigo.
Abraços!

Migh Danae. disse...

Pedro, esse é o seu texto, dos que conheço, que mais gosto.
Cheiro,

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