terça-feira, agosto 19, 2008

Acordo Ortográfico: Era o que nos faltava!


Agora que Portugal assinou e ratificou o Acordo Ortográfico entre os países que têm a língua Portuguesa como idioma nacional, as coisas vão mudar. E muito: cerca de 0,5% da ortografia vigente no Brasil, 1,5% em Portugal. Precisávamos demais dessa reforma!
Pra começar, não usaremos mais o trema, a não ser em nomes próprios. Devemos em breve comer linguiça com freqüência, pedir troco pra nota de cinquenta e aguentar as consequências.
Palavras como idéia, jóia, tramóia e espermatozóide, perderão o acento agudo – ideia, joia, espermatozide e tramoia, em pouco tempo. O hífen, aquele tracinho que sempre nos causa pavor, continuará gerando dúvidas, dado o caráter subjetivo de seu uso, que permanecerá com o novo acordo. Existe uma explicação tosca para o uso ou não do hífen: o tal do “uso consagrado”. Ora, isso explica pouca coisa, talvez nada. Também há os casos em que se deve observar a “unidade sintático-semântica”, ideia que depende bastante do olho de quem vê.
Algumas observações interessantes: ultra-romântico, será ultrarromântico; ultra-som, ultrassom; microondas, agora é micro-ondas; reescrever, talvez, passe a ser re-escrever – existe a variedade rescrever e também o conceito de composição para definir essas coisas. Agora, inter-racial, será inter-racial, mesmo, nada de interrracial, não senhor! Bastante lógico, não? O novo acordo, ora busca fundamentos na fonética, ora na cabala ou na astrologia.
Mudanças ortográficas acontecem de tempos em tempos. A língua é dinâmica, as normas que as regem nem sempre são lógicas, ou ao menos não do ponto de vista normativo, de vez em quando desrespeitam o uso corrente. Talvez nunca a gramática normativa abraçará completamente o uso, a fala, pois ambas existem em e para situações diferentes.
O Acordo ortográfico tem muitas vantagens, pois aquecerá o mercado gráfico e editorial, já que todos deverão se adaptar aos novos tempos; revisores, sempre tão esquecidos por todos, trabalharão bastante, poderão arrumar aí um pé-de-meia (os hífens permanecerão). Fábricas de papel, gráficas, escolas, todo mundo vai ter trabalho e lucro pela frente. A educação e o ensino da Língua pátria ganharão destaque na mídia por algum tempo. Professores carrascos ganharão nova força, ou serão ridicularizados por perderem a razão, por verem a caixa de pandora que carregam sob do jaleco se abrir diante de todos!
Você pode até estar se perguntando: em tempos de aquecimento global, ditadura em Mianmar, terremotos na China, devastação da Amazônia, guerra na Geórgia, o Santos caindo para a segunda divisão, será que vale a pena derrubar milhões de árvores por causa de um trema a menos, um hífen a mais? Pergunta difícil...

3 comentários:

POV disse...

O difícil é responder que sim, Pedrão. Não vale a pena derrubar nem um galhinho por esse acordo.

Abraço,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

marta disse...

Lamentável esse acordo! Não vale a pena nem pensar nele! Por enquanto, é só um pesadelo!!!

Janette disse...

Oi, Pedro,
Me diverti lendo isso...
Vc escreveu de forma tão leve, que minha raiva com a nova ortografia está até passando - kkkk.
Pena que os bambambam ou bam-bam-bam, ou ainda bam bam bam - kakakaka - não pensam em nada disso... Só fazem acontecer...
Vc é ótimo.
Bjks
Janette

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