terça-feira, junho 21, 2011

A dor e a delícia de aprender

Seguindo proposta de Madalena Freire, tentei resgatar meu processo de alfabetização. De cara me espantei por ter aprendido a ler: trata-se de um verdadeiro milagre! Como uma série de “desenhinhos” que não significavam nada – nada também não: eram a porta de acesso a sonhos e histórias que muito me interessavam – passaram “de repente” a representar sons e palavras? Voltando no tempo me deparei com esforço tremendo, uma luta nem sempre prazerosa, nada natural – hoje sim, ler e escrever é natural e necessário.
Todo mundo gosta de dizer que aprendeu a ler com muita facilidade, os pais se gabam dos filhos que já chegaram na escola alfabetizados, como se fossem possuidores de um talento nato, ou incorporassem algum tipo de exu caça-palavra. Em contrapartida, aqueles que tiveram um percurso mais árduo para ler, se envergonham, por serem classificados como menos inteligentes, incapazes, preguiçosos. Não raro, carregam pela vida o estigma de limitados e aprendem desde cedo a ver a si mesmos como inferiores, o que justifica que fiquem do lado de baixo da pirâmide sociocultural, enquanto os “mais sabidos” ocupam os principais lugares.
Grande choque foi perceber que minha alfabetização foi bem difícil, embora, ao final do primeiro ano eu já soubesse ler e escrever. Lembro as tardes de choro e ranger de dentes sobre os cadernos amarrotados, borrados pelas minhas lágrimas, o esforço hercúleo de minha mãe para que eu fizesse a lição de casa, as reclamações da família e da professora por causa de minha letra horrorosa – que não mudou nada desde então – os trabalhos extras no caderno de caligrafia, quanto sofrimento, meu Deus!
Porém, duas coisas especiais vieram do canto das memórias apagadas para iluminar minhas reminiscências sobre o aprendizado da escrita. Lembro que antes de entrar na escola, meu grande sonho por causa da minha irmã mais velha que contava maravilhas do lugar cheio de coisas especiais, eu já aprendera a escrever, e sozinho! Não, não eram textos ou palavras complexas; na verdade era uma única letra, que consegui desenhar na lousa que havia em casa, onde a gente brincava de escolinha. Numa manhã chuvosa, para fugir do tédio, fiz um “A” maiúsculo, de fôrma, com o giz deitado – o giz na posição mais usual é uma ferramenta de difícil uso para mim até hoje.
Grande êxtase. Chamei a mãe para ler o meu texto, esperei a irmã chegar para mostrar. A lousa permaneceu imaculada até alta noite, quando meu pai chegava do segundo emprego, para ele ver que eu já sabia escrever! Ninguém menosprezou aquela minha aptidão recém-adquirida – na minha cabeça o “A” era perfeito, idêntico ao que eu via nos livros e revistas que folheava, nos cartazes que admirava pelas ruas – meu “talento para as letras” foi louvado. Acho que foi ali, quando ganhei meus primeiros leitores, que nasceram, ao mesmo tempo, o professor e o escritor, gêmeos idênticos, siameses.
A segunda lembrança durante o exercício de memória de Madalena Freire são as experiências de leitura, não das palavras escritas, mas de outras coisas mais poéticas: eu sabia desde pequeno ler o céu!
Em casa era muito comum ficarmos olhando para o céu, deitados no quintal ou debruçados na janela, observando as nuvens e os desenhos que elas formavam. Havia animais, prédios, Deus, gigantes, botas, martelos, bigornas, Papai Noel, anjos, Netuno num trono, super-heróis, árvores, ônibus e mais um monte de coisas que eu conhecia pela televisão ou andando pelas ruas.
Quando anoitecia, nosso texto eram as estrelas (ainda podíamos admirá-las na periferia de São Paulo) que também alimentavam a imaginação: Deus brincando entre as luzes, heróis e anjos duelando com monstros. Na Lua eu procurava São Jorge e o dragão, que todo mundo dizia enxergar. Marcava para breve minha viagem pelo espaço, para conhecer planetas, ETs, diziam que isso seria comum antes de chegar o ano 2000. Lia o que a televisão e as histórias contadas me ensinavam, escrevia outras pelos céus.
Antes de aprender as letras, eu já sabia, instintivamente, que além do texto, existe um subtexto que precisa ser decifrado, e que há um prazer na leitura que está naquilo que as palavras e formas não mostram, mas que alimentam a imaginação; ler não era apenas aceitar o que o texto oferecia: era, sempre, produzir um novo significado. Ler era, ainda que só mentalmente, entender bem para poder reescrever.
Aprender pode ser muito difícil, penoso e, muitas vezes, gerar algum prazer apenas depois de passarmos alguns bons momentos de sofrimento; mas a experiência da descoberta sempre, eternamente, uma delícia.

2 comentários:

jessica grant c. disse...

Não consigo lembrar desta fase direito. Tenho lembranças diferentes, mas nunca dos processos completos. Não sei, sequer, se foi fácil ou difícil pra mim aprender a ler... mas lembro que os tracinhos do u eram trancinhas da letra "u", chamada personagem "júlia". O "i" era uma torre de "igreja" e o "o" tinha naquela curvinha um boné virado pra trás do "o menino". Isso é tudo. Mas o gosto de aprender, mesmo a duras penas, é o que me guia até hoje a querer fazer cursos e mais cursos e trabalhar só quando tenho desafios na frente. É, realmente, uma delícia.

Daniela Oliveira disse...

Me fez visitar minhas experiencias, dores e alegrias no meu processo de ler e escrever.
Obrigada pelo texto!

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