segunda-feira, junho 25, 2012

Um ano de uma chuva sem Deus



Primeiro todos os troncos de árvores ficaram amarelos. Os cachorros rastejam com as costas no chão e seus uivos eram ruivos; as borboletas ficaram do tamanho de urubus, as mulheres sangraram durante um mês sem parar, os gatos se reuniam nos telhados das igrejas e gralhavam.
Depois, codornizes despencavam mortas de alturas estranhas, vindas de procedências invisíveis até mesmo para a NASA. O Mar Vermelho virou gelatina de kiwi, mas foi só durante três dias.
Aí o céu ficou mesmo rubro, mas rajado de verde fosco. Do oriente veio um vento azul, do norte uma poeira lilás e todas as cruzes do planeta partiram-se ao meio, de onde saíram serpentes, polvos, vespas. Foi então que todos os cérebros do mundo receberam a mesma mensagem: Deus se ausentava desse mundo sem avisar se ia para outro ou se voltaria um dia.
No dia seguinte a essa constatação aterradora, só se falava em outra coisa. Os jovens envelheciam bestamente, os velhos desapareciam sem rastro, a ética prosseguiu vaga e o amor que estava entre nós permanecia anêmico. As guerras se alternavam, os crimes eram mais ou menos violentos, as pessoas se consolavam ou se revoltavam e as igrejas prosseguiram normalmente suas atividades. A humanidade não sabe mudar.

Um comentário:

Fábio disse...

"As igrejas prosseguiram normalmente suas atividades". Fantástico!
Parabéns!

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