terça-feira, junho 19, 2012

Quando havia Lucilene



Quando encontrei Lucilene, não éramos alguém que se destacasse entre pessoas ou coisas. Ela não tinha os seios de Gildete, a cor gritante do moletom do Caio, os dentes de Laura, os muitos cavalos do carro do Chiquinho, as coxas de Fabrícia. Eu tinha olhos e pulmões, e um coração abobado bombeando. Tanto que nem reparei.
Aí os rolavam sobre crepúsculos e alvoradas, idênticos, desiguais, e Lucilene, que não era feia nem apitava suspiros, tinha uma coisa que saía dos olhos castanhos, uma coisa que serpenteava entre as coisas, uma coisa que, quando descobria a gente, olhava como se visse aqui dentro o que estava mais encolhido no canto da sombra mais úmida, por vergonha, por medo, por segredo. Lucilene desfolhava mistérios. Então, os dentes da minha ansiedade morderam os olhares de Lucilene enquanto ela nem ligava.
Mas ansiedade não é coisa cravável: escorrega, quica, pinica, todavia não finca. E Lucilene prosseguia observando diferente, como já sacasse, como cheirasse a mente, como apalpasse a alma. Ela também parecia ser capaz de mirar nossa beleza mais distante da luz, nossa nobreza embebida em névoas, Lucilene apanhava cada um por inteiro, cada um de verdade.
Foi quando percebi que Lucilene era esquiva, mas era inteira e quis me aproximar, encostar, ver de perto, cheirar. A curiosidade virando obsessão, não obsessão, mas um desejo, desejava essa Lucilene de poucas palavras e muitos olhares, e aí ela já me parecia bonita, não dessa beleza plástica, não nas coxas, não nas cores, não nos dentes, não na força dos cavalos que não tinha, não nos seios, mas além dos olhares fortes como tentáculos havia em Lucilene uma saborosa bunda.
Vai ver que nem era assim aquela coisa pornozuda que a gente busca entrebecos, ou que se escancara em cartazes e vídeos, mas quando a coisa nos suga, a gente busca um pedaço palpável pra se agarrar. Lucilene era olhares, Lucilene era bunda.
As palavras da moça apareciam nas conversas como aquela goteira esparsa da madrugada, que incomoda mais entregotas nos espaços vazios e silenciosos., com a expectativa de um novo pingo, pela ansiedade murmurejante de cada golpe pontudo da água em flocos espancando  o que seja. O que essa moça sabia, o que ela fazia com o que capturava de nós, o que ela despertava vinha dela ou era só um estado de busca e captura que o meu radar tentava sintonizar? Ela me dava medo e me deixava atento.
De noite, apenas a luzinha vermelha do som no quarto, no meio do escuro brilhante, eu ouvia músicas velhas que falavam de sentimentos antigos, de um jeito meio embolorado. Lucilene aparecia sem rosto em cada cenário que as canções gargarejavam pelo ar, Lucilene estampava seus olhares entre as fotos das revistas que eu folheava antes de apagar a luz, Lucilene rebolava dentro de um jeans apertado, naqueles shorts minúsculos o porto da minha insegurança.
Precisava conversar com Lucilene, era só conversar, agarrar o que havia ali além de olhares e bunda. Mas só a conversa, a primeira conversa natural, não existe. A gente joga toda a força na voz trivial, no rosto comum, e fala tremido, crispa o rosto, avermelha-se. Quem nos interessa, antes de mais nada, nos oprime. Amar de perto é um esforço, um ruído, uma cicatriz futura.
Lucilene beijou o Cirilo, em frente à cantina, pra todo mundo ver. Um mês e meio depois mudei, para não ter contato, pra não ser mais o mesmo, pra longe. Ela ficou cristalizada entre tentáculos oculares, glúteos e uma possibilidade.
Essa Lucilene do outro lado da rua tem mais quilos, rugas e manchas do que aquela de outros tempos. A bunda cresceu e o olhar é exatamente o mesmo. Nunca houve tentáculos que não fossem ali injetados por mim. Lucilene era os meus desejos vomitados. Isso quando havia desejos. Agora, só vômitos.

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